Muitas vezes a vida dos artistas torna-se assunto de interesse tanto quanto suas obras e seus processos criativos, e isso não é de hoje. Já em 1550, em Florença, Giorgio Vasari publicou seu mais célebre livro, “Le vite de’ più eccellenti pittori, scultori e architettori”, detalhando a biografia de mais de 180 pintores, escultores e arquitetos renascentistas. 

Desde então, o interesse pelas fofocas, pela vida amorosa, pela genialidade e até pela loucura de artistas tem alimentado não apenas a literatura não-ficcional biográfica, mas também o cinema, documental e de longa metragem. O ARTEQUEACONTECE preparou uma seleção de sete documentários imperdíveis sobre artistas brasileiros e estrangeiros que todos os amantes das artes visuais – e da sétima arte – precisam ver.

 

7. Maria – Não Esqueça que Venho dos Trópicos (2017)

Maria Martins foi uma das artistas brasileiras mais radicais da primeira metade do século XX. A sexualidade, o corpo feminino e a antropofagia informam sua produção de maneira explícita, e suas esculturas são de uma potência extraordinária. Maria também foi modelo e musa do incontornável Marcel Duchamp, e circulava entre os surrealistas e os dadaístas, mesmo sendo casada com o diplomata Carlos Martins. Com depoimentos de críticos e curadores, e trechos de filmes e fotos de época, o doc foi dirigido por Elisa Gomes e Francisco Martins e as entrevistas – feitas no Brasil e no exterior – foram conduzidas pela atriz Malu Mader, que se apaixonou pelo trabalhos de Martins e se surpreendeu com o restrito reconhecimento da artista pelo grande público.

 

6. Kusama – Infinity (2018)

O mais novo filme sobre a japonesa Yayoi Kusama vem reforçar a ampliar a mitologia e a fascinação sobre essa figura potente que superou desafios inimagináveis para tornar-se artista. O documentário traça a difícil trajetória de sair do Japão, trabalhar nos Estados Unidos, enfrentar o preconceito e as resistências diversas da sociedade e do mercado de arte americano, tudo isso junto de alucinações visuais que a acompanhavam desde a infância e a depressão que a fez pular de uma janela. Kusama hoje goza de imenso reconhecimento em todo o mundo, e o filme também destaca esse momento de inflexão em sua carreira. Com direção de Heather Lenz, o doc fez parte da seleção do festival de Sundance, e foi lançado nos cinemas em setembro de 2018.

 

5. Jean-Michel Basquiat

Há dois bons documentários sobre o incomparável Jean Michel Basquiat. O primeiro, realizado em 2010 e lançado em 2011, “The Radiant Child“, foi dirigido por Tamra Davis, amiga pessoal do artista, e tratou do sucesso de um artista negro em um tempo de profunda crise nos Estados Unidos, de racismo exacerbado na sociedade e de muitas controvérsias. Já “Boom for Real“, lançado recentemente (em 2017), tem como foco os primeiros anos de produção de Basquiat, quando ele ainda muito jovem não tinha onde viver e suas telas eram os muros e paredes de uma Nova York tão degradada quanto inspiradora.

 

4. A Paixão de JL (2016)

Vencedor de dois prêmios no festival “É Tudo Verdade”, o documentário “A Paixão de JL” foi produzido a partir de um diário gravado em fitas cassete do artista Leonilson. Conhecido por seus desenhos e ilustrações, bordados e pinturas expressivas, Leonilson foi um ícone dos anos 1990. Seu diário se tornou um registro público das memórias do cotidiano, mas também um retrato da descoberta de ser portador do vírus HIV e das transformações e impactos que isso teve em sua vida e seu trabalho. O filme foi escrito e dirigido por Carlos Nader, e estreiou no circuito nacional em 2016.

 

3. Mapplethorpe – Look at the Pictures (2016)

“Look at the pictures”. É com essas palavras que o advogado Jesse Helms denunciou o trabalho do polêmico fotógrafo Robert Mapplethorpe. Vinte e cindo anos depois do processo judicial enfrentado pelo artista, foi lançado o primeiro e mais completo documentário sobre sua produção e sua vida. Os diretores do filme, Fenton Bailey e Randy Barbato, tiveram acesso irrestrito às obras e aos arquivos de Mapplethorpe, e com isso conseguiram criar um retrato detalhado e rico de uma das figuras mais controversas do século XX. Mapplethorpe foi responsável por levar a sexualidade na um nível jamais visto na arte, e a maneira como se vestia e se portava refletia a radicalidade de sua produção.

 

2. Hélio Oiticica (2014)

Produzido pela Guerrilha Filmes, “Hélio Oiticia” é um documentário dirigido por Cesar Oiticica Filho, sobrinho do artista. Também escrito por meio de diários em fita K7, gravadas por Oiticica entre os anos 1960 e 1970, a película foge da narrativa tradicional. As Heliotapes encontradas por Cesar Oiticica Filho revelam o pensamento do artista, suas tendências anarquistas, seu pensamento radical e seu contato com as drogas, assim como configura um retrato de um dos períodos mais férteis da cultura brasileira – a tropicália.

 

1. Louise Bourgeois: The Spider, the Mistress and the Tangerine (2008)

Louise Bourgeois é, sem dúvida, uma das mais fascinantes e legendárias artistas na história da arte. Conhecida por seu enfrentamento de traumas, sexualidade, tabus psicológicos e pautas feministas, ela aparece na tela aos 90 e tantos anos com a mesma potência, energia e frescor de uma artista jovem. O documentário é um retrato íntimo de seu processo criativo e trata das questões mais centrais de seu trabalho, como acontecimentos de sua infância (a ida do pai para a guerra, por exemplo), a problemática relação com a mãe, as incômodas formas sexuais explícitas, entre outros. O filme reúne material coletado por 14 anos de filmagens e muitos excertos de arquivo, revelando como as obras e a vida de Bourgeois eram indissociáveis.