Anna Maria Maiolino é uma mulher habituada ao exílio, ao menos na medida em que alguém pode habituar-se à essa condição antes que ela se transforme em algo outro. A artista nasceu em Scalea, na Itália, em 1942, de pai italiano e mãe equatoriana. Para fugir da escassez do pós-guerra, mudou-se com a família em 1954 para a Venezuela, onde iniciou sua formação em arte, em 1958. Em 1960, acompanhou os pais em mais uma mudança internacional, desta vez para o Rio de Janeiro. Salvo por um breve hiato em Nova York (onde viveu de 1968 a 71), toda a sua produção artística foi desenvolvida no Brasil, país cuja nacionalidade ela adotou em 1968. Não à toa, questões relativas aos conceitos de pertencimento, lugar, subjetividade e feminino têm centralidade em sua obra.

Ao chegar ao Brasil, Anna matriculou-se em nos cursos livres de pintura e xilogravura da Escola Nacional de Belas Artes. Sua produção da década de 1960 é fortemente impactada pela estética do cordel. Suas xilogravuras e objetos da época integram o movimento que viria a se firmar como a Nova Figuração no início da década de 1970. Algumas de suas obras mais famosas do período são a xilogravura “ANNA”, de 1967, em que duas figuras espelhadas em formas que remetem a lápides (seus pais) enunciam o nome da artista, um palíndromo, antecipando a centralidade que as relações familiares como eixo de pertencimento teriam em sua poética; e o objeto “Glu… Glu… Glu…”, de 1966, onde uma silhueta humana é reduzida a seus órgãos digestivos a partir do tórax, uma alusão à antropofagia, à digestão como processo de transformação e ao vazio em todo ser humano que não pode ser jamais preenchido.

Ainda neste contexto, Maiolino participou da mostra “Nova Objetividade Brasileira” no MAM Rio, em 1967, e foi uma das signatárias da “Declaração de Princípios Básicos da Vanguarda”, junto a Hélio Oiticica, Antonio Dias, Lygia Clark, Lygia Pape e outros. Nos anos 1970, sua obra afasta-se da figuração, e a artista passa a explorar as possibilidades espaciais e poéticas do papel. É desse período suas séries de Livros/Objetos e de Desenhos-Objetos, em que o papel é manipulado de forma a criar objetos escultóricos pela sobreposição de camadas, fendas, buracos e ranhuras, às vezes unidas por costuras realizadas com linha pela artista. As formas geradas são, em sua maioria, extremamente orgânicas, e a o uso da linha e da agulha aponta para processos manuais que são considerados tradicionalmente femininos.

A partir dos anos 1970, a artista também passa a desenvolver sua longeva série “Fotopoemação”, em que cria poemas visuais através de atos performativos captados pela fotografia. Algumas dessas peças são diretamente influenciadas pelo contexto ditatorial e de opressão do Brasil de então, enquanto outras abordam questões políticas pelo viés mais sutil da subjetividade. É o caso da icônica foto “Por um fio”, de 1976, em que a mãe de Anna, a artista e sua filha são retratadas lado a lado, ligadas por um fio de macarrão, cada ponta na boca de uma delas. Nesse belo retrato de três gerações de mulheres unidas por algo tão simples, Anna transfigura em arte o lugar de algo associado em geral de forma depreciativa e limitadora à mulher. Ainda nos anos 1970, Maiolino experimenta com super-8 e passa a desenvolver também uma produção em vídeo, instalações e performances.

Quando o desenho retoma a centralidade de sua produção, nos anos 1980, já é de forma não figurativa e ligada ao processo e ao gesto artísticos. Ao final dos anos 1980, a artista desenvolve suas primeiras esculturas moldadas e, em 1989, a primeira instalação da série “Terra Modelada”, em que manipula grandes quantidades de argila in situ para criar situações site-specific. As formas assumidas pela argila são sempre criadas por movimentos básicos das mãos, todos retirados da prática culinária. As mãos fazem rolos, esferas, amassam, perfuram, sendo mais relevante o trabalho repetitivo e atencioso do que a sofisticação técnica. Foi com uma instalação desta série, que, em 2013, Anna Maria Maiolino ocupou uma pequena casinha em um parque em Kassel como sua participação na dOCUMENTA 13.

Sua ampla obra escultórica desenvolvida desde o final dos anos 1980 principalmente em argila, cerâmica e por vezes madeira tem explorado os mesmos movimentos básicos das mãos que a série “Terra Modelada”. Além disso, um jogo entre molde e obra pode ser encontrado em algumas séries da artista, subvertendo o fazer escultórico tradicional ao utilizar o molde como parte do objeto artístico e não apenas como um meio para produzi-lo. A partir da década de 2010, a artista também passa a produzir esculturas em gesso que remetem a colônias de insetos fossilizadas, grandes paralelepípedos escavados por formas orgânicas, como misteriosos tuneis e caminhos secretos.

O trabalho da artista tem recebido sólido reconhecimento internacional. Em 2017, ela apresentou uma retrospectiva no MOCA – Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles, no contexto do projeto “Pacific Standard Time: LA/LA”, em que dezenas de instituições de arte do sul californiano realizaram exposições de arte latino-americana. Ainda como parte do mesmo projeto, a artista participou da coletiva “Radical Women: Latin American Art, 1960–1985”, no Hammer Museum, exposição que será apresentada na Pinacoteca do Estado de São Paulo a partir de agosto de 2018. A partir de 08 de abril, seu trabalho poderá ser visto na coletiva “Imannam”, uma exposição concebida para o espaço do Pivô (São Paulo) pelas artistas Ana Linnemann, Anna Maria Maiolino e Laura Lima, com a curadoria de Tania Rivera.