Carla Chaim dialoga diretamente com a herança da arte construtiva e geométrica no Brasil, referência para muitos artistas de sua geração no mundo todo. Em seu trabalho parece existir um eco das superfícies dobradas de Amilcar de Castro e das noções de corpo tais como foram elaboradas por Hélio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape e Mira Schendel. Em vez de simplesmente dar continuidade a essa vertente das vanguardas históricas, Carla Chaim reinventa possibilidades poéticas tanto a partir de ações fotografadas, como de materiais tradicionais, o papel e o grafite, buscando ultrapassar os limites da concepção tradicional de desenho.

Mais do que um suporte para o desenvolvimento de uma ideia, ou um esboço inicial de um trabalho a ser criado, o desenho em seu trabalho aparece essencialmente como um vestígio da ação de um corpo em um determinado suporte, um rastro de sua presença, ou mesmo o remanescente sinal de um gesto. Chaim trabalha com a noção de repetição e controle em suas peças, tanto por meio de regras pré-estabelecidas quanto em seus movimentos físicos na elaboração de um desenho, por exemplo, usando o corpo como uma ferramenta importante nesse processo, pensando-o também como um lugar de discussão conceitual, explorando seus limites físicos e sociais.

Os assuntos são variados e estão ligados a modos de operação sistêmicos e formas processuais orgânicas de desenvolvimento. Os trabalhos não tentam criar narrativas ou contar histórias, eles são o próprio fazer, combinando sistemas dicotômicos: regras rígidas e movimentos físicos orgânicos. A artista revisa elementos reais com olhos de experiência, compreendendo o acaso como parte integrante do processo. Derivar, caminhar, mover-se.

Para quem estiver no Rio de Janeiro neste final de ano, Carla tem uma exposição individual de seus trabalhos na Galeria Athena Contemporânea (21/11 – 23/12/2017). As obras inéditas apresentadas na exposição foram pensadas especialmente para esta mostra, a partir do espaço expositivo da galeria. Esses trabalhos dão prosseguimento a uma pesquisa recente na produção da artista, na qual ela usa o espaço expositivo como matéria-prima para as obras. No caso da Athena Contemporânea, o que chamou a atenção de Carla foi a forma em U da galeria, com dois lados separados e iguais no tamanho. Para a videoinstalação, ela percorreu todo o espaço da galeria, com um bastão oleoso na mão, riscando as paredes por onde passava, fazendo com o seu próprio corpo o desenho do U. Aqui, o desenho final é o vestígio da ação de um corpo em um determinado suporte, um rastro de sua presença ou mesmo o remanescente sinal de um gesto.

Carla Chaim é graduada em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP (2004), onde também fez pós-graduação em História da Arte (2007).

http://www.carlachaim.com

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