“A arte foi para mim uma grande armadilha”. É assim que responde o artista goiano Dalton Paula (n. 1982) quando questionado sobre o começo de sua trajetória nas artes visuais. “Quando era menino, em 1994, copiava com papel carbono os desenhos dos Cavaleiros do Zodíaco, mas o barato mesmo era o colorir”. Em pouco tempo, Dalton começou a frequentar cursos livres de artes visuais e a produzir de forma intuitiva uma pesquisa sobre festas populares, em especial a Congada. Mas com a vida adulta, como costuma acontecer, chegaram os desvios: iniciou uma graduação em Química e, em 2004, passou no concurso para bombeiro. Ficou um ano e meio em formação para a profissão, um ano do qual em Porangatu, na divisa com o Tocantins. Foi quando retornou a Goiânia em 2006, com a segurança de um trabalho fixo, que decidiu abandonar a faculdade de Química e prestar Artes Visuais, curso em que ingressou em 2007.

“Na faculdade fiz novas pesquisas de linguagem com fotoperformances, pelas quais comecei a ganhar prêmios, a partir de 2010. Mas antes já pintava, e em 2008 fui premiado pela Bienal de Arte Naïf do Sesc, em Piracicaba. Minha pintura era encarada como naïf, o que podia ser uma questão problemática para a faculdade de arte contemporânea. Foi quando conheci a Rosana Paulino, em 2007, que relaxei e continuei a pesquisa, após ela me dizer que meu trabalho tinha uma linguagem primitiva, mas lidava com questões contemporâneas”, ele explica. E é essa pesquisa que o leva, agora, à 4ª Trienal do New Museum, em Nova York, onde exibe quatro pinturas de grandes dimensões comissionadas para a ocasião. Nas telas, ainda explora a questão dos corpos negros, central à sua obra, mas desta vez pelo viés de sua ausência. Eles são representados metaforicamente por figuras como molduras adornadas, cabideiros, chapéus e forros de crochê – elementos que também possuem significados dentro do campo do sagrado e do ritual.

“Meu primeiro grande incômodo era não me sentir representado, não ver corpos negros nas revistas de beleza, telejornais e livros. Quando apareciam, esses corpos ocupavam o lugar do pejorativo”, afirma Dalton quando pergunto sobre o lugar de sua narrativa pessoal em sua obra. “Os trabalhos sobre as Barsas e outras enciclopédias abordam esse interesse de conferir protagonismo e autoria a corpos negros, excluídos do conhecimento compilado por essas publicações”. Em A Cura (2016), as capas de oito volumes da enciclopédia Barsa, onipresente nas residências da classe média pré-internet, tornaram-se suporte para pinturas a óleo que retratam curas através de rituais e medicamentos de origem indígena e africana, classe de saber que, de outra forma, jamais encontraria lugar nesses livros. As obras Santos Médicos (2016) e Retrato Silenciado, também pinturas sobre livros, operam pela mesma lógica, pela qual o artista realiza uma espécie de errata da história do conhecimento ocidental eurocêntrico.

O uso de objetos cotidianos repletos de carga simbólica como suporte para a pintura também se faz presente na obra que apresentou na 32ª Bienal de São Paulo, Rota do Tabaco (2016), uma instalação composta por pinturas sobre alguidares, vasilhas circulares feitas de barro ou argila utilizadas em rituais de religiões afro-brasileiras. Para a produção da instalação, Dalton viajou a três cidades produtoras de tabaco – Piracanjuba (Goiás), Cachoeira (Recôncavo Baiano) e Havana (Cuba) –, onde pôde constatar desde resquícios das práticas de produção do período da escravidão aos legados de cura e rituais com tabaco das culturas afro-brasileiras. “O trabalho acontece muito no movimento; estar presente no lugar dá mais profundidade à obra. No município de Coqueiros conheci a dona Cadu, uma mestre ceramista de 96 anos. Suas ferramentas são um toquinho de madeira, um pedaço de coité e pedras de seixo, e ela trabalha num espaço de dois metros quadrados. Quando olho para a dona Cadu, que tem uma produção incrível, também repenso minhas próprias condições”, afirma o artista.

Enquanto conversava com Dalton me lembrava de uma outra entrevista, uma de que apenas li a respeito. No segundo parágrafo de seu livro Entre o Mundo e Eu, o jornalista e escritor norte-americano Ta-Nehisi Coates narra uma situação que ocorreu quando ele concedia uma entrevista a uma repórter de TV: “A âncora (…) mudou de assunto para o meu corpo, apesar de não o mencionar especificamente. Mas a esta altura estou acostumado com pessoas inteligentes me perguntando sobre a condição do meu corpo sem que percebam a natureza de seu pedido” (tradução nossa)1.

A força dessas poucas linhas de Coates reside na habilidade do autor de deslocar o debate sobre o racismo para o plano concreto dos corpos que se encontram vulneráveis à violência – física, emocional, simbólica – acarretada pelo preconceito de cor. Com semelhante impacto, Dalton Paula coloca o corpo negro (muitas vezes o seu próprio) e sua condição histórica e social no centro de sua produção artística. Em performances fotográficas e em vídeo produzidas entre 2010 e 2016 em espaços públicos, a maioria deles típicos de periferias brasileiras, seu torso nu é apresentado como dispositivo simbólico para problematizar questões que perpassam os campos da intersubjetividade social, como religiosidade, sexualidade, manifestações culturais, identidade nacional e comunicação de massa, sempre do ponto de vista do sujeito afrodescendente, tão calado por nossa sociedade.

Depois de viver a rota do tabaco, Dalton pesquisa agora a rota do ouro e depois pretende explorar a rota do algodão. Esta última inclui a cidade norte-americana de New Orleans, que irá visitar durante sua residência artística de dois meses em Nova York, convite que aconteceu em paralelo à participação na Trienal do New Museum. “Estou ansioso para vivenciar a experiência dos Estados Unidos, imagino que será um bom diálogo com as pesquisas que tenho feito, que têm a ver com lugares diásporicos”, afirma. Simultaneamente, o artista prepara uma individual para a Galeria Sé, em São Paulo, prevista para novembro deste ano.

  1. COATES, Ta-Nehise. Between the world and me. Nova York: Spiegel & Grau, 2015. P. 5.