O trabalho do carioca Daniel Albuquerque é marcado pela experimentação com os materiais. Mas, em verdade, sua produção não se inicia no embate com tramas, texturas e densidades. É imediata sua resposta quando falamos sobre os assuntos diversos que o interessam: sua pesquisa caminha, primeiro, a partir de intuições e poéticas que desenvolve. O discurso existente no trabalho do artista é menos protagonista do que as relações afetivas, as próprias vivências e embates pessoais, as curiosidades e os riscos que toma na realização de distintas materializações.

Isso não implica dizer que suas obras são cascas desprovidas de conteúdo, ou apenas o verniz das coisas, pelo contrário. O encadeamento é que se dá de uma forma diversa do que estamos acostumados a ver em parte da produção contemporânea. Vindo de uma formação em moda, mas também passando por cursos e especializações em história e filosofia, Albuquerque foi aluno do Parque Lage, espaço onde passou a desenvolver um corpo de trabalhos mais coerente e dedicado. Seu processo se dá de forma espontânea, desperto por acontecimentos do entorno e desejos próprios. Uma leve influência da moda ainda aparece latente em algumas peças, seja na feitura – tramas, costuras, tricôs –, seja na composição de cores e geometrias que informam algumas das superfícies dos objetos que cria.

Mas o artista não lida há apenas obras têxteis. Há também, evidentemente, uma preocupação com os materiais empregados, com a aparência e o aspecto tátil dos elementos que são articulados em pequenos ou grandes artefatos tridimensionais: são evocações a ossos – com o uso de cerâmica; à matéria orgânica – com o emprego de areia, cera e madeira; e a substâncias industrializadas – com o uso de isopor. Algumas esculturas menores são réplicas idênticas (ou quase) a partes do corpo humano (línguas, mamilos, orelhas), enquanto outras replicam produtos de consumo, como cigarros apagados e amassados ou chicletes mascados. Independentemente da figuração ou abstração, da utilização de tramas ou de terra cota, o trabalho de Daniel Albuquerque nos coloca diante da nossa própria intuição, revelando os discursos que somos capazes de construir sobre qualquer elemento introduzido ao nosso vocabulário visual.

Daniel Albuquerque vive e trabalha no Rio de Janeiro. Graduado em Design de Moda pela faculdade SENAI CETIQT. Mestrando em História Social da Cultura, na PUC-Rio. Suas exposições individuais mais recentes são: “Oral”, BFA Boatos Fine Arts, São Paulo (2017); “Good Day”, Projeto especial, Galeria Cavalo, Rio de Janeiro (2017); “To Daddy”, curadoria Marina Coelho, Kunsthalle São Paulo (2016); “Bikini Projects #2”, curadoria Marina Coelho, Kubik Gallery, Porto, Portugal (2016). Entre as coletivas destacam-se: “Circularidade vã”, curadoria Guilherme Marcondes e João Paulo Quintella, Espaço Foz, Rio de Janeiro (2017); “A terceira mão”, curadoria Erika Verzutti, Fortes D’Aloia & Gabriel, São Paulo (2017); “Daniel Albuquerque & Puppies Puppies”BFA Boatos Fine Arts, Milão (2017); “Lastro em campo”, curadoria Beatriz Lemos, SESC Consolação, São Paulo (2017); “Choro e lágrimas não têm sotaque” , curadoria Fernanda Brenner, Camden Arts Council, Swiss Cottage Library, Londres (2017).

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