Apesar de trabalhar recorrentemente com a fotografia – e eventualmente expandir esse suporte para outros meios como a performance, o vídeo e a instalação –, Daniele Queiroz lida, antes de tudo, com a palavra. São os jogos de sentido, as falhas e lacunas, os encadeamentos inusitados que interessam à artista, que transpõe essa inclinação à materialidade dos trabalhos que cria.

Em Uma Série de Falhas, por exemplo, uma carta de tom confessional e associações inusuais entre palavras é acompanhada de uma série de imagens gravadas da tela do computador. São cenas de fenômenos naturais, catástrofes, especialmente terremotos, registrados por filmagens amadoras, feeds de câmeras de segurança e em noticiários; esse material foi apropriado e editado pela artista, que paraleliza as referências textuais ao trauma com as fissuras da terra; as quebras internas com tremores destrutivos; a fragilidade dos corpos com a força do mar. A instabilidade da filmagem final se confunde com a trepidação das documentações precárias originais.

Terra de Homem Nenhum, por sua vez, é resultado de experimentações técnicas com o suporte fotográfico. Queiroz desconstrói e descaracteriza a realidade por meio de um procedimento que realça o negativo e não a composição positiva – com essa inversão de valores, a artista dá enfoque ao meio, à verdade da criação, à fidelidade do registro primeiro. A luz que queima a película na câmera analógica precisa novamente atravessar o negativo para a fixação do positivo no papel fotossensível, que depois reage com o químico revelador. Esse procedimento clássico é deixado de lado com as imagens feitas no deserto, nas quais a presença humana é inexistente ou fugidia e ameaçada, preservando a originalidade da imagem capturada.

 

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