“Pergunto-me o que fazer com as coisas que estou desenterrando na minha psicanálise. O que você faz quando você desenterra algo – você o coloca de volta ou você o exibe?”, declarou o artista escocês Douglas Gordon ao jornal britânico The Independent.

Conhecido por criar obras que dialogam com o cinema e tratam de questões existenciais que certamente são frequentes no divã (pense na sexualidade, no fetichismo, na fama, na dominação ou na própria inabilidade do ser humano em se comunicar!), Gordon apresenta, a partir do dia 7 de abril, a individual I will, if you will, na Galeria Marilia Razuk, e a partir do dia 14 de abril, a obra Îles flottantes (Se Monet encontrasse Cézanne, em Montfavet), no IMS, ambos em São Paulo.

Primeiro artista a ganhar o Turner Prize por produções em vídeo, o escocês ficou famoso pelo filme 24 Hour Psycho, no qual sugere uma versão desacelerada do clássico de Alfred Hitchcock. O filme, entre outros, é retomado com frequência em seu trabalho. Parece lógico, então, que seu maior questionamento sejam os mecanismos de construção de identidade e a apresentação de dupla (ou múltiplas) personas ou situações. Norman Bates é evocado em Psycho Nacirema e, de certa forma, em Self Portrait as Kurt Cobain as Andy Warhol as Myra Hindley as Marilyn Moore. Neste autorretrato, Gordon se coloca frente a um fundo vermelho usando uma peruca loira chamando atenção para “personagens naturalmente ligados à morte”, nas palavras do artista.

Este jogo psicológico poderá ser conferido, entre as 25 obras expostas na galeria, no filme Twin Blades: uma construção complexa revela que as supostas lâminas gêmeas são, na verdade, uma imagem sobreposta do mesmo personagem.

Já em Îles flottantes (Se Monet encontrasse Cézanne, em Montfavet), o artista inverteu o fluxo de um antigo sistema de canalização para inundar o jardim onde estão espalhados 40 crânios humanos que são encobertos pela água progressivamente. Ao colocar os crânios numa paisagem aquática, o escocês estabelece uma tensão entre dois mestres do impressionismo: se a transparência e os reflexos do jardim inundado marcam as paisagens aquáticas de Monet, a obra é também uma citação de uma série de naturezas-mortas que Cézanne pintou pouco antes de sua morte, refletindo sobre a transitoriedade da vida, compostas apenas por conjuntos de crânios dispostos sobre uma mesa. Montfavet, vale lembrar, é o bairro de Avignon onde a vila Lambert se encontra (a obra foi feita inicialmente para a Collection Lambert) e abriga também um famoso hospital psiquiátrico.

Confira, abaixo, nossa conversa com o artista.

1. O cinema e vários diretores estão presentes em seu trabalho desde sempre. É interessante pensar que em I had nowhere to go: Portrait of a displaced person, apresentado na última Documenta de Kassel, você constrói o retrato de um cineasta, o Jonas Mekas. A obra não é sobre a sua carreira, mas a situação era inevitável: você estava criando um longa diante grande cineasta. Qual foi o seu maior desafio neste momento? O que mais te inspira na vida e no trabalho de Mekas?

O maior desafio foi o mesmo que qualquer trabalho. Eles são todos grandes! hehehehe
Eu queria que o filme fosse meu e ainda retivesse a essência do homem, Jonas Mekas. Eu acho que o filme é mais do que um retrato de um cineasta – é o começo de um retrato de um ser humano “por inteiro”.

Quanto ao que me inspira no trabalho de Jonas, ele continua dançando!

2. Alfred Hitchcock, William Friedkin, Martin Scorsese, Otto Preminger… filmes de todos estes grandes são citados em suas obras. Qual é o seu cineasta preferido hoje?

Como um bom menino religioso, minha mãe me ensinou a não ter favoritos. Eu trato todos os meus filhos da mesma maneira.

3.A questão principal do Psicose aparece constantemente no seu trabalho: a identidade dupla. Você está sempre fazendo projeções duplas, imagens espelhadas … falando sobre duplicidade! Você poderia falar mais sobre isso?

Eu gostava de cachorros quando era jovem, mas certa vez um cachorro me assustou e eu tenho medo de TODOS os cachorros.

Se os animais têm “dois lados”, então acho que os humanos têm pelo menos duas caras – provavelmente mais. Alguma vez você já se apaixonou por alguém e anos depois você nem consegue pensar em seu rosto ou corpo sem vomitar?

4. Você brinca com sua imagem em algumas obras e questiona os mecanismos de construção da identidade. Esses mecanismos mudaram muito, certo? Como o Instagram e a era selfie refletem em seu trabalho ou nos problemas que você cria? O que você acha dessa nova maneira de lidar com as nossas próprias imagens?

Sim, fodeu meu mercado! E não só o meu – todo o “outro eu” lá fora, hehehe!
Instagram eu não faço, eu não posso nem soletrar isso. Selfie, hmmmmm, parece muito como ser pego se masturbando em público — outra coisa que eu não faço. Eu não posso nem soletrar masturbação! Haha

5. E os autorretratos dos artistas? Muitos, como você, sempre trabalharam com suas próprias imagens e com a questão da identidade. Como estão lidando com esse novo tempo? O Instagram de Cindy Sherman, por exemplo, é um trabalho em si.

Eu não saberia dizer. Não gosto de comentar sobre trabalhos de outros artistas, a menos que eles tenham uma faca na minha garganta!

6. Você está sempre lidando com imagens de pessoas famosas. Ainda pensando no mundo do Instagram: Você acha que os conceitos de celebridade mudaram?

Bem, Andy Warhol (que atualmente tem uma faca na minha garganta!) disse algo sobre 15 minutos de fama …Nossa! Como o tempo voa, não acha?

7. O retrato de Zidane que você fez com Philippe Parenno é lindo. Por que, na sua opinião, o filme é “um retrato do século 21”? Quais seriam as relações entre seus filmes e uma pintura de Leonardo da Vinci ou Rembrandt, por exemplo?

Aaaaaaaah, você me deixa vermelho. Eu sempre disse a Philippe que o retrato ficaria melhor e mais significativo ano após ano. São apenas 12 anos desde que o mostramos pela primeira vez – e acho que talvez em cerca de 1000 anos ele ficará ainda melhor.

8. Se você tivesse a oportunidade de seguir um personagem e fazer esse tipo de retrato novamente, quem você escolheria?

Provavelmente o Philippe Parreno.