O sistema da arte enfrenta, muitas vezes, dois dilemas: um institucional e outro mercadológico. Há desafios na criação e ampliação de espaços institucionais dedicados às artes visuais, com problemas de financiamento público e gestão de recursos, assim como há entraves e obstáculos na inserção mercadológica dos artistas e no crescimento sustentável do sistema. No entanto, há uma dimensão que pode passar desapercebida nessa dicotomia, a do financiamento privado da arte, em todas as suas esferas – educação, organização, produção e circulação.

Recentemente, a artista Nan Goldin, conhecida pela produção de potentes imagens cruas e icônicas da cena underground dos anos 1970 e 80 – a fotógrafa circulava e registrava sua vida entre uma população estigmatizada e marginalizada, como prostitutas, travestis, drag queens, gays, portadores de HIV –, tornou-se uma ativista feroz para encabeçar um movimento de protesto contra um dos maiores financiadores de museus e instituições artísticas dos Estados Unidos. A organização liderada por Goldin, P.A.I.N., foi fundada com o intuito de reagir à e combater a crise de opiáceos que assola o país. A família Sackler é dona da gigante farmacêutica Purdue Pharma, fabricante do OxyContin, ou oxicodona, um analgésico de altíssimo potencial viciante. Especialistas dizem que o composto, derivado do ópio, é três vezes mais potente que a morfina.

A droga é prescrita legalmente por médicos em casos de cirurgia, fraturas, dor crônica, mas rapidamente deixa os pacientes dependentes. A própria artista narra a adição imediata causada pelo remédio. “[OxyContin] Foi prescrito pela primeira vez numa cirurgia. Mesmo tomando de acordo com as indicações, eu fiquei viciada imediatamente. Era a droga mais limpa que eu já tinha visto. No começo, 40 miligramas era uma dose muito alta, mas conforme minha dependência aumentava, nunca era suficiente. […] a droga, como todas as drogas, perdeu o efeito”. Goldin ainda conta que, à medida que o abuso aumentava e o desespero crescia, seu isolamento tornava-se absoluto; finalmente, quando não tinha mais dinheiro para manter a dependência, recorreu ao Fentanyl, também usado como analgésico, mas com efeito mais rápido e curto – foi quando, então, ela teve uma overdose.

Goldin, tendo convivido com usuários e vítimas da epidemia e tendo sobrevivido ela mesma à dependência, partiu então para o ataque. Depois da recuperação em uma clínica em janeiro de 2017, fundou o grupo P.A.I.N. (Prescription Addiction Intervention Now, em uma tradução livre, intervenção imediata contra a adição a drogas legais). O objetivo da artista é chamar a atenção à epidemia que se espalha pelos Estados Unidos por meio das inúmeras filantropias da família, especialmente aquelas envolvendo o mundo da arte.

Os Sackler, por exemplo, financiaram a construção de uma ala inteira do Metropolitan Museum of Art, em Nova York, palco de um dos protestos do grupo ativista. Em 2015, declararam a doação de mais de 1 milhão de dólares a instituições artísticas por todo o mundo. Estima-se, porém, que o império Sackler seja, em grande parte, financiado pelo vício. A empresa, fundada ainda no século XIX, em Nova York, era uma pequena fabricante de medicamentos que, nos anos 1980, viu os negócios crescerem exponencialmente com a produção de analgésicos. O salto levou a Purdue Pharma, adquirida pela família na década de 1950, que antes produzia laxantes e antissépticos, a se tornar uma das maiores indústrias farmacêuticas do mundo. Em 2001, por exemplo, as vendas já superavam 1 bilhão de dólares e eram responsáveis por quase 80% da receita da empresa.

Em passagem recente pelo Brasil, Goldin falou fervorosamente ao público que enchia o Grande Hall do Instituto Tomie Ohtake sobre essa nova empreitada e propôs, pela primeira vez de forma aberta, um boicote aos museus que têm alas e programas financiados pelos Sackler. Os boicotes são ações de protesto comumente empregadas pelos artistas, principalmente em casos de impasses políticos – a Bienal de São Paulo já foi duramente criticada e boicotada, por exemplo, durante a ditadura militar ou pelo apoio e financiamento vindos de Israel (por artistas que apoiam o Estado Palestino). Contudo, um movimento organizado e articulado como o P.A.I.N., iniciado para responsabilizar uma família e uma empresa (e não um Estado), é algo inédito no sistema da arte. Além disso, o foco do combate reside em uma droga legalizada e comercializada irrestritamente, algo singular entre os atritos que historicamente inspiraram contestações e boicotagens. A briga, no entanto, é mais do que justificada: entre os dados mais chocantes levantados pela organização está o número de 43.000 mortos de overdose nos EUA em 2016 apenas em decorrência do abuso de derivados do ópio.

Assim, desde janeiro de 2018 Nan Goldin vem oficialmente lutando intensamente para que a Purdue Pharma (e a família que a controla) comece a custear programas de tratamento, educação e prevenção sobre os opiáceos. E mais, o grupo tem pleiteado que espaços de arte e instituições educativas recusem doações dos Sackler, denunciando-os e responsabilizando-os pelo agravamento da crise de saúde pública em torno do Oxy. A pressão exercida pelo P.A.I.N., seus aliados e outros envolvidos na questão tem crescido consideravelmente, com matérias jornalísticas, manifestações públicas e ações de guerrilha se espalhando por vários países. Espera-se, assim, que a crise seja gerenciada com um maior rigor na prescrição da droga, mais controle nas receitas, aumento do número de clínicas de recuperação e criação de campanhas de conscientização. A arte tem sua parcela de responsabilidade no combate a este cenário devastador, e Nan Goldin é a ponta de lança da batalha.

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