O ARTEQUEACONTECE conversou com a artista Laura Lima sobre sua mais nova instalação, Alfaiataria, em cartaz na Pinacoteca, e sobre sua exposição individual na Fondazione Prada, em Milão.

A mineira radicada hoje no Rio de Janeiro estudou filosofia e também frequentou a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, tendo iniciado sua produção nos anos 1990. O trabalho de Lima poderia, de início, ser genericamente categorizado como performance, ainda que não seja o corpo da artista a realizar as ações. No entanto, ela é contundente em classificar o que faz de forma distinta.

Eu brinco que não sou uma artista presente. Eu nunca chamei meus trabalhos de performance, eles são matéria. Ainda que a própria performance seja uma categoria extremamente ampla, ela também pode lidar com o fato de uma artista negá-la. Eu até seria supostamente a primeira artista que um museu compra uma performance, mas nunca chamei de performance mesmo naquela época“, afirma ela, referindo-se ao fato de o MAM-SP ter adquirido “Bala de Homem = Carne / Mulher = Carne” e “Quadris de homem = carne / mulher = carne”, em 2000.

Essa relação ambígua de ausência da criadora e presença de executores do trabalho se mantém até hoje. A artista envolve-se muito na preparação das obras, seja na investigação de determinado assunto, seja na colaboração com especialistas, seja na interlocução com os atores que darão vida às “coisas” que concebe.

O envolvimento no ‘pré’ está tanto em encontrar as pessoas que vão participar do projeto, mas também na organização com a instituição”, diz ela, que esteve em contato próximo com a Pinacoteca e com Leonardo Carrijo, um estilista que já colaborou com a instituição e que realizou a pesquisa sobre o material humano, os tecidos e o maquinário. Lima também teve um cuidado especial na escolha dos alfaiates que trabalhariam na instalação “Alfaiataria”, que traz profissionais da costura para o Octógono da Pinacoteca em um trabalho diário de interpretar os desenhos de Lima em peças têxteis. “Temos uma mulher alfaiate fazendo parte, também há um boliviano que está no projeto. É preciso ter uma delicadeza social, observar o contexto onde a obra está inserida. Nós focamos em profissionais que consigam dar conta de traduzir as anotações de cada retrato com essa engenharia que é a alfaiataria“.

Falando sobre como várias de suas obras centram-se na importância do “vestir” (como “Novos Costumes”, por exemplo) a referência de Lygia Clark é um contraponto imediato: “A Lygia estava interessada na experiência do sujeito, eu estou interessada em outro plano de ação, em objetos que são colocados sobre o corpo.” No caso da alfaiataria, por outro lado, o ponto principal de fato reside na tradução de seus desenhos. “Nós escolhemos juntos os tecidos, eles também opinam. Não há uma liberdade total, não dá para ser o que eles quiserem. Eu sei quem são os personagens, mesmo sendo desenhos abstratos“.

Na exposição montada na Fondazione Prada, em Milão, Laura Lima também lança mão deste mesmo dispositivo de cooperação com especialistas, dessa vez com astrônomos. Mas a artista não distingue o tipo de profissional com quem trabalha, uma vez que o que lhe interessa é o saber altamente qualificado e técnico, seja ele qual for. “Não vejo muita diferença entre os alfaiates e os astrônomos. Eles se debruçam sobre o tecido, a quantidade de possibilidade que eles têm é um instrumental que é muito próximo da astronomia. Em um plano geral, não há uma diferença – quando eu converso com os alfaiates, eu converso com pessoas que vão resolver minha obra num lugar onde eu já estou cega. Eu desejo algo, eu posso explicar o que eu quero, eu vislumbro. Com os astrônomos eu também digo, eu não quero uma aula para iniciantes, eu quero as matemáticas intensas que eles ja estão estudando“.

Em comum nestas obras também há o fato de haver muita preparação mas nenhum tipo de teste ou treino. “Eu nunca ensaio, não existe ensaio no meu trabalho. Eu vejo meus trabalhos pela primeira vez junto com o público“. Há nesta postura desapegada de Lima uma consciência brutal sobre a fragilidade da arte e de sua própria produção. Nesse sentido, a artista reconhece que há certo perigo em trabalhar com colaboradores que poderiam desviar e adulterar seus projetos. “É um risco, pode haver sempre uma surpresa. E eu sempre digo que, se for para inventar em cima dos meus trabalhos, que seja mais brilhante – tem que ser melhor que a minha obra”.

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