A 58a Bienal de Veneza foi aberta ao público dia 11/05/19, e o ARTEQUEACONTECE esteve lá para acompanhar a exposição e cobrir os melhores eventos de arte na cidade! Depois da lista dos pavilhões nacionais imperdíveis, é a vez de olhar para a curadoria da mostra, realizada pelo estadunidense Ralph Rugoff. O mote “May You Live In Interesting Times” – ou “Que você viva em tempos interessantes”, supostamente uma praga chinesa apropriada pelo ocidente e que, de fato, nunca existiu–, o curador articulou mais de 80 artistas em torno de questões centrais da vida contemporânea: violência, gênero, raça, pertencimento, fronteiras, visibilidade, crise, fake news. Essas tensões atuais vêm informando algumas exposições recentes, como a 56a Bienal de Veneza, curada por Okwui Enwezor, a 32a Bienal de São Paulo (intitulada Incerteza Viva por Jochen Volz), e a 14a documenta de Kassel.

No entanto, Rugoff apostou em nomes bem distantes do tradicional circuito ocidental eurocêntrico e norte-americano (apesar da presença de artistas de peso como Jimmie Durham, Carol Bove, Henry Taylor e Julie Mehretu), trazendo diversos artistas da Índia, Coreia, China, Indonésia e Vietnam; Quênia, África do Sul, Etiópia e Nigéria; além de representantes da América Latina (como México, Argentina e Uruguay) e do Oriente Médio (Jordânia, Turquia, Líbano e Irã, entre outros).

Essa é também uma Bienal marcada pela presença significativa de jovens artistas – quase um terço dos escolhidos pelo curador nasceram depois de 1980, com Augustas Serafinas sendo a mais jovem entre eles, nascida em 1990. Outro dado que chama atenção no rol de artistas é o número igualitário entre os gêneros – essa é a primeira Bienal de Veneza que conta com um equilíbrio numérico entre presenças masculinas e femininas na exposição, sendo também claramente uma das preocupações da curadoria trazer o feminismo e as lutas por igualdade como espécies de sub-temas.

Confira abaixo a seleção que o ARTEQUEACONTECE preparou das melhores obras da curadoria da Bienal de Veneza, começando pela proposição A de Rugoff, apresentada no Arsenale!

 

Zanele Muholi
Somnyama Ngonyama, Hail the Dark Lioness (2012-)

Autorretratos que intensamente encaram o visitante estampam as paredes de pinus construídas no Arsenale como base para a expografia da Bienal. Zanele Muholi vem trabalhando a (auto)imagem da mulher negra e lésbica desde a série Faces and Phases, criando espaços de visibilidade, valorização e potência para as mulheres. Muholi, inclusive, prefere ser chamada de ativista visual à categoria de artista, levantando as bandeiras de igualdade de gênero e raça em trabalhos de estética igualmente vibrante e cativante.

 

Christian Marclay
48 War Movies, 2019

Depois do sucesso de “The Clock” – vídeo-instalação que dura 24 horas, e cujas cenas retiradas de filmes da indústria cinematográfica mostram relógios que marcam a hora real do dia – Marclay apresenta na Bienal um novo trabalho realizado a partir de pesquisas sobre filmes de guerra. O artista apresenta todos os filmes simultaneamente um por cima do outro em retângulos concêntricos, deixando apenas um filete de imagem que dificulta muito a identificação de cada película. As trilhas sonoras tocam todas ao mesmo tempo, reforçando constantemente as tensões que os sons de guerra despertam.

 

Shilpa Gupta 
For, In Your Tongue, I Cannot Fit, 2017-18

A instalação imersiva de Gupta conta com 100 microfones que foram re-configurados para tornarem-se caixas de som, e sob eles 100 estacas de metal nas quais papeis nos revelam textos em diversas línguas. Nos fones, vozes declama os poemas descritos nas folhas brancas, escritos por poetas que foram presos por causa de suas posições políticas ou por sua produção literária. De pontos aleatórios o som emana e o restante do conjunto da obra ecoa as frases declamadas, criando uma emocionante onda de repetições e coros.

 

Martine Gutierrez
Indigenous Woman, 2018

As fotos da artista trans Martine Gutierrez exibidas na mostra vêm de uma revista editada, impressa, fotografada e escrita pela própria Gutierrez, que também protagoniza as imagens – no Arsenale, feitas junto a manequins que a ajudam a compor cenas clichês em publicações de moda ou na internet.

 

Hito Steyerl
This is the future, 2019

Valendo-se de Inteligência Artificial, a alemã criou uma vídeo-instalação baseada na premissa de um futuro distópico – a tecnologia prevê que não haverá mais natureza e, por isso, uma personagem decide enviar um jardim para o futuro. Pelas projeções de flores e plantas, escutamos música eletrônica, uma voz modulada narra as probabilidades de como o porvir se apresentará, e sacos de areia espalham-se pelo chão.

 

Julie Mehretu 
pinturas recentes

A obra de Mehretu sempre foi reconhecida pela abstração expressiva de evocação cartográfica, urbana e arquitetônica. Mas recentemente a artista vem experimentando novas formas de produção pictórica, valendo-se de imagens fotográficas encontradas na internet ou em pesquisas em arquivo para criar a base de suas pinturas. A primeira camada dos trabalhos vem de padrões ou cores encontrados em imagens de cunho político, como uma foto de uma manifestação em favor de Jair Bolsonaro, que é depois lixada em uma superfície mais lisa e atacada pela artista com spray e pinceladas, lembrando escritas amorfas, action painting, pixo e graffiti.

 

Alex Da Corte
Rubber, Pencil, Devil, 2018

O jovem americano Da Corte apresenta um grande vídeo em monitores dentro de uma sala colorida por neons e tinta laranja, e forrada por um carpete que carrega um desenho de um campo de futebol. Nas telas, cenas com personagens populares de programas de TV dos Estados Unidos – Pernalonga, Bart Simpson, Pantera Cor-De-Rosa, entre muitos outros – são dilatadas em tempos muito lentos, quase imóveis, e trazem ações meio surreais, meio absurdas. Cada sketch, espécies de capítulos de um livro, nos remete a referências da cultura de massa, mas contrastam com a velocidade acelerada dos meios de comunicação e da internet.

 

Tarek Atoui
The Spin, 2016

 

Depois de uma viagem de 5 anos ao longo do delta do Rio das Pérolas, na China, durante a qual registrou e mapeou as técnicas tradicionais da arquitetura e agricultura vernaculares das populações da região, Tarek Atoui compartilhou suas observações com artesãos e luthiers para que eles criassem objetos e elementos a partir de sua pesquisa. O resultado dessa colaboração é a instalação musical “The Spin”, na qual diversos meios analógicos – placas de cerâmica, galhos de árvore, lixas, – convivem com a tecnologia que permite que o artista coloque os instrumentos para tocar sem a presença de músicos, como autômatos.

 

Jimmie Durham
Musk Ox, 2017

Premiado com o Leão de Ouro pelo conjunto de sua obra nesta 58a edição da Bienal de Veneza, Jimmie Durham apresenta no Arsenale um conjunto de esculturas realizadas a partir de materiais muito familiares em sua produção. Ossos de crânios e chifres são combinados a materiais industrializados como canos hidráulicos e roupas, e elementos manufaturados, como um guarda-roupa antigo. Esses seres híbridos remetem à mesma escala dos animais “originais” e povoam o espaço expositivo como fantasmas dos bichos que um dia foram.

 

Tomás Saraceno