o Escritório de Arte Rosa Barbosa realiza a coletiva “Paisagens, horizontes e trocas”. Com curadoria de Theo Monteiro, a mostra reúne trabalhos de oito artistas contemporâneos: Guy Veloso, José Zaragoza, Leonora Weissmann, No Martins, Osvaldo Gaia, Rafael Zavagli, Renan Cepeda e Tatewaki Nio. A exposição ocorre no Jardim Europa, no antigo ateliê de Zaragoza, pintor e designer falecido em 2017.

“São nomes de distintas poéticas e suportes, mas que nem por isso deixam de possuir afinidades ou olhares complementares”, pontua Monteiro. Colocadas lado a lado, as obras dividem-se entre fotografias, esculturas, pinturas, objetos e vídeo, conjunto que tangencia as figuras e temáticas enunciadas pelo título que dá nome à exposição.

A paisagem surge no espaço expositivo não como um retrato fidedigno de uma natureza campestre, mas, sim, como uma composição metafórica criada pelos artistas e que, muitas vezes, parecem reunir cenas várias em uma só tela – ou em um único agrupamento, no caso de polípticos. Fazendo uso de tons azuis e esverdeados, o mineiro Rafael Zavagli cria paisagens a óleo, colagens de planos sobrepostos que confundem o espectador. São cenas silenciosas, marcadas por vidas que ali não estão expostas. A presença humana é revelada discretamente por meio de rastros deixados pelo artista, a exemplo de um barraco aparentemente iluminado por uma luz elétrica, que se destaca em meio à noite pintada.

Também mineira, Leonora Weissmann explora a paisagem em todas suas possibilidades nos trabalhos apresentados: desde os personagens nela presentes, por vezes reais, até em minúcias de detalhes arquitetônicos ou naturais. A artista não se prende a determinado estilo ou regra, pelo contrário, seu olhar voraz parece se interessar pelos mais diversos desses elementos, representados sempre em minúcias. “A variedade cromática e temática acaba sendo uma consequência disso”, pontua o curador.

A paisagem como resultado de uma construção humana surge ainda nas fotografias
de Renan Cepeda, que integra a mostra com trabalhos da série Vão de Almas. No
conjunto de retratos, o fotógrafo lança mão da técnica de light painting, uma
espécie de pichação com luz que realiza quando à frente de seus personagens,
descendentes de escravos, habitantes da comunidade de Kalunga, em Goiás. Nesses trabalhos, Cepeda faz fotos na total escuridão, iluminando partes da cena com o
auxílio de uma lanterna, revelando apenas elementos e figuras que lhes interessa.

Japonês radicado no Brasil há quase duas décadas, Tatewaki Nio integra a exposição com trabalhos de Neo-andina, série realizada em El Alto, cidade vizinha de La Paz que nasceu como subúrbio da capital boliviana. Pobre, árida e de aspecto quase rural, a região ganha as lentes do fotógrafo por suas grandes edificações kitsch e ultra-coloridas, cujas fachadas contrastam com o monocromatismo do lugar. Projetados pelo arquiteto Freddy Mamani, os edifícios abrigam Salões de Eventos, propriedades de uma burguesia ascendente que, em função da globalização, herda uma estética extravagante típica de lugares como Las Vegas e a impõe em diálogo com motivos locais em um claro símbolo de afirmação identitária e de status social.

No horizonte da paisagem contemporânea, o paulistano No Martins busca situar o
corpo negro, alvo de violências e preconceitos por parte da sociedade. Em uma
performance em vídeo, realizada em plena Praça da Sé, o artista se tranca em uma
jaula com os olhos vendados e ali permanece em um dia de frio intenso, chamando
atenção para a questão carcerária no Brasil, a qual o curador pontua como uma das
facetas mais perversas do racismo. “Perversa porque é, sobretudo, institucionalizada, fazendo parte do funcionamento de nossa justiça”, afirma. No que diz respeito às trocas, compõem a mostra trabalhos de dois artistas de Belém do Pará, Osvaldo Gaia e Guy Veloso. “A troca aqui é entendida não como uma relação comercial, mas como uma conexão com o entorno, com a vida, com a natureza e com o divino”, afirma Theo Monteiro.

A obra de Osvaldo Gaia toma como fundamento sua pesquisa e consequentes experimentações dentro do universo amazônico. A partir disso, o artista cria elementos que se identificam como estruturas escultóricas – objetos pouco usuais, que causam no espectador certa estranheza. Gaia mira na estética das raízes, canoas e igarapés, de onde vem sua inspiração, para dar vida a maquinários de formas elegantes, que convida o público a perceber como os povos da floresta se relacionam com o mundo que têm ao redor.

Através da fotografia, Guy Veloso aborda as trocas e mediações que ocorrem em manifestações religiosas populares. Na mostra, ele apresenta imagens da série Penitentes: dos Ritos de Sangue à Fascinação do Fim do Mundo, registros de transes que, apesar do caráter documental, são dotados de uma aura espiritual. A relação que estabelece com seus fotografados parece colocá-lo como alguém que compartilha da mesma fé – intimidade que é partilhada com seus espectadores, inclusive.

A coletiva Paisagens, horizontes e trocas homenageia ainda o pintor, designer e publicitário José Zaragoza, falecido em 2017. Natural de Alicante, na Espanha, o artista radicou-se no Brasil ainda nos anos 1950.  Ao longo de seus mais de 60 anos de carreira, transitou entre a figuração e o abstracionismo, focando especialmente na produção de desenhos e pinturas – duas das quais integram a exposição, montada em seu antigo ateliê, no Jardim Europa. Sediado em um edifício na Rua Amauri, no Jardim Europa, o espaço foi projetado pelo arquiteto Aurélio Martinez Flores.

Paisagens, horizontes e trocas
Curadoria: Theo Monteiro
Abertura: 30/03, 12h às 17h
Visitação: até 30/04/19; segunda a sexta, 11h-18h; sábado, 11h-14h
Ateliê Zaragoza: Rua Amauri, 76, São Paulo. Entrada gratuita