O ARTEQUEACONTECE entrevistou Rosana Paulino sobre seus trabalhos e sua produção, sua grande individual na Pinacoteca, sobre as questões urgentes que instigam sua pesquisa e que marcam a história recente e antiga do país. Confira abaixo os melhores momentos de um papo descontraído e fascinante com a artista!

 

Julia Lima: Como você começou a se interessar por arte?

Rosana Paulino: Eu e minhas três irmãs, muitas vezes, ao invés de brincar de boneca, desenhávamos. Cada uma tinha uma personagem, nós as desenhávamos e nossa mãe estimulava muito isso na gente. Onde eu morei tinha um tipo de argila muito plástica, era perto de um braço do Tietê, um riachinho. Então minha mãe pegava essa argila e dava pra gente brincar. A gente fazia de tudo, bichinhos, bonecos, deixava eles secarem no sol e depois pintava, agregava coisas, colocava pedrinhas, colocava flor. Nós brincávamos bastante. Minha mãe nunca gostou de brinquedos eletrônicos, brinquedos mecânicos, que o brinquedo brinca sozinho e a criança fica só olhando. Ela sempre nos estimulou a fazer as roupas das bonecas; quando era casinha, a fazer os móveis, os carros… Enfim, nós fomos muitos estimuladas nessa “manualidade”, e isso vai desenvolvendo o “fazer” mas também um senso estético. Esse interesse foi aumentando cada vez mais e foi uma das opções que apareceram na hora de prestar o vestibular. Acabei optando entre duas disciplinas, arte e biologia, e gosto das duas até hoje. Continuo seguindo muito a questão da biologia.

 

JL: Certamente, a biologia aparece claramente em alguns materiais apropriados, e aparece também simbolicamente eu diria. Não é só nos estudos botânicos ou no corpo humano, mas nas instalações que acumulam incontáveis objetinhos: às vezes alguns trabalhos me lembram coleções de museu de história natural, sabe?

RP: Eu acho que tem duas visões da biologia no meu trabalho: a gente vai ter os estudos de insetos, os estudos de morcegos, a biologia vista de uma maneira muito simbólica, muito pensando no crescimento pessoal. Tem uma série de desenhos chamada “Tentativas de criar asas”, um olhar mais bem humorado, quase irônico. Tem aqueles desenhos de células que tem a formação dos olhos, a formação do órgão sexual feminino, uma grande brincadeira. Até as tecelãs, que são aquelas mulheres-inseto que tiram de dentro de si mesmas a vida, né. E tem uma discussão da Biologia enquanto ciência mesmo, a biologia pra valer, porque eu vou olhar ali a questão das pseudo-ciências e como elas colaboraram para formar uma imagem da população negra, que é muito negativa, e vou discutir como as pseudo ciências também ajudaram a justificar a escravidão e consequentemente o racismo. É uma análise da história da ciência mesmo. Ciência enquanto ciência, enquanto história e como ela influenciou a sociedade.

 

JL: Como um mecanismo de dominação também, uma ferramenta. Como você mesmo falou, para justificar determinadas ações históricas.

RP: Sim, com certeza, ali é biologia mesmo, é ciência.

 

JL: E a própria expografia dessa sua individual reforça essa relação, é primeiro de uma maneira simbólica, depois mais literal. A própria maneira de expor os trabalhos, alguns dos suportes reforçam essa relação com a biologia.

RP: Com certeza, no caso de “História Natural”, que é o álbum, a ideia é mostrar mesmo como se ele fosse um livro de biologia, ele vem sempre mostrado dentro de uma vitrine. Isso foi uma idéia do Pedro Neri, de colocar aqueles desenhos juntos na parece com aqueles vidros enormes sem moldura, isso também reforça essa ideia de museu de história natural, de coleção.

 

JL: É curioso porque eu acho que isso cria uma tensão, um estranhamento entre o uso do tecido, da costura – que é algo tão afetivo, tão doméstico até –, com algo tão científico ou pseudo-científico, que parece mais frio, racional. Você vê essa tensão?

RP: Tem, mas eu acho que essa tensão vem do fato de eu não pensar exatamente costura mas eu penso em sutura. Essa “Parede da memória” é realmente uma costura, mas depois dos bastidores pra frente eu vou desenvolver o conceito de sutura para esses trabalhos, aí entra uma boa dose também de ironia, principalmente no caso dos bastidores. Quando a gente pensa, por exemplo, na mulher, a gente vai pensar o bordado, um ambiente protegido, e Deus sabe o que acontece dentro das quatro paredes, então aquelas bocas que não gritam, aqueles olhos que não veem, aquilo é uma ironia.

 

JL: Essa imagem do olho é muito forte, especialmente quando ele fica completamente obliterado pela linha. Mas tem também os corpos não se encaixam, há esse desencontro em alguns trabalhos, as partes não se encaixam, e aí eles estão suturados.

RP: Sim, é um assentamento né. No caso do “Assentamento”, quero mostrar com essa sutura o processo violento da escravidão, no qual a “opção” que essas pessoas tinham era se refazer ou morrer, não tinham escolha. A ideia ali são aquelas imagens que não fecham, é justamente mostrar o trauma da escravidão, porque essas imagens não vão se fechar nunca – esse refazimento completo é impossível. Esse é o trauma, a dívida que o Brasil carrega. E o que é pior ainda, o Brasil carrega essa dívida e não se responsabiliza, não assume na realidade. Quando a gente vai falar de políticas compensatórias, falam “ai é mimimi”. Parece que o Brasil nunca olhou para sua responsabilidade. A maior parte do tráfico aconteceu quando o Brasil já era nação. O Brasil tem uma responsabilidade e não assume. Nunca assumiu, e qualquer expectativa de mudança, de assumir, de discussão, continua sendo tratado de maneira violenta. Esse é um trauma principalmente da população negra mas não só dela, é um trauma do país enquanto país.

 

JL: É um trauma coletivo.

RP: E no caso da população negra, eu queria reforçar também um outro dado, que eu não estava interessada nos números. Eu sei que aproximadamente 5 milhões de escravizados adentraram o país, mas eu não estava interessada na questão dos números, eu estava interessada no trauma humano: como é que essas pessoas sobreviveram? Como é que elas fizeram? Como é estar no seu país, ser sequestrado e jogado no fundo de um tumbeiro, do navio negreiro, chegar num outro local, ter que se refazer? E ainda assim assentaram. O assentamento vem disso, assentaram uma nação. Eu estava interessada nisso. Entre a sutura, aquela maneira violenta como aquela população foi posta dentro desse novo ambiente, e aquela linha preta que, se você olhar de perto, é uma linha que lembra a linha dos pontos cirúrgicos. Por isso o uso dessa linha, por isso trazer para o primeiro plano aquilo que fica escondido. Porque a costura geralmente tende a ficar escondida, a gente não vê, então tem toda uma série de associações que eu faço com essa questão – tem mais a ver com a sutura do que com a costura.

 

JL: Me parece muito importante essa oposição entre costura e sutura que você coloca porque a costura, em teoria, é algo de uma criação, ou de reparação, que é pra ficar escondido. Quando você coloca esse verso pra fora, é para escancarar mesmo, é para evidenciar ao máximo esse trauma, essa cicatriz que não vai desaparecer.  

RP: É trazer para a discussão, o Brasil finge que isso não é importante, que esses 352 anos de escravidão não deixaram marcas num país – lógico que deixaram. Agem como se não pudessem fazer mais nada. E, na realidade, eu acho que são esses anos, essas centenas de anos, que vão formar o país como ele é hoje, no seio da desigualdade social do mundo. Não foi uma coisa que caiu do céu, isso tem um histórico que foi simplesmente varrido para debaixo do tapete e não foi discutido, e aí as pessoas não entendem porque o país não dá certo. Depois não entendem porque a sociedade tem problemas – óbvio que vai ter.

 

JL: E ainda ficam reforçando o mito da democracia racial, reforçando esses mitos de que agora está tudo bem, mas no fim isso deixa tudo pior ainda, porque não se discute abertamente sobre.

RP: O problema é que nunca esteve [tudo bem], as coisas não se formam porque Deus quer, mas no Brasil às vezes parece que é assim. As coisas tem um histórico por trás, tem toda uma política, ela foi resultado de alguma coisa. Acho que a ideia, quando eu trago essas imagens, quando eu trago essa maneira de pensar a imagem, das suturas, é justamente para enfatizar isso e pensar em cima.

 

JL: E você acha que o fato da sua exposição estar na Pinacoteca entre 2018 e 2019, nesse momento crítico que a gente está passando – você falou, claro, da questão política, a gente tem visto o pior se revelar, o véu está sendo removido e as pessoas estão perdendo o pudor de revelar certas posições – você acha que há uma sincronia com a exposição? Como foi para você montar essa mostra nessa fase da nossa história?

RP: Acho que entrou no momento certo, não podia ter entrado num momento melhor. Não dá mais para manter essa ilusão, esse véu está caindo, é hora de discutir se nós quisermos ser de fato um país, é hora de colocar as cartas na mesa e é isso aqui, a gente tem que sentar e discutir sim, não adianta mais ficar trazendo essa sujeira para debaixo do tapete. Eu acho que é um momento tragicômico, acho que a palavra é bem essa mesmo. Talvez fosse necessário a gente chegar no fundo dessa ferida para começar a aceitar que alguma coisa morreu enquanto país, não tem como fingir que as coisas não existem. Como os chineses falam: dentro de toda tragédia tem pelo menos alguma coisa de positivo, e eu acho que de positivo foi que  realmente caíram-se as máscaras: de que este é um país fascista, violento, que tem imensa dificuldade de lidar com justiça, com justiça social. Simplesmente não reconhece e isso não é a toa, é claramente resultado de 350 anos de escravidão. Enquanto nação, se nós não fizermos um exercício de olhar pra isso, nos reconhecermos também sob esse ponto de vista, a coisa não vai andar!

 

JL: Eu acho que chegar no fundo do poço tem essa vantagem, aí a gente pode pisar no chão, tomar impulso e começar a subir de volta.

RP: O duro é saber se já chegamos no fundo do poço (risos).

 

JL: Nós somos um país muito desigual, especialmente no que diz respeito à questão racial que perpassa sua produção, mas a questão de gênero também está presente. Existe um potente aspecto do feminino, uma força feminina muito grande no seu trabalho.

RP: Sem dúvidas, essas questões entre gênero e raça são o que me definem enquanto pessoa, porque eu sempre quis pensar qual é o meu lugar dentro dessa sociedade e eu não consigo fazer isso sem olhar através desses dois aspectos que são totalmente desvalorizados no Brasil. Tanto ser mulher, o que já é difícil – os homens acham desde a mais tenra idade que tem direitos sobre você e sobre seu corpo, e ser mulher negra agrava ainda mais a situação. Todo meu trabalho vai ter essa discussão. É proposital, eu quero trazer esses elementos para a conversa já quando eu começo o trabalho há uns 25 anos atrás, evocando a questão do feminino. No meu primeiro mês de faculdade, eu tive a sorte de ver a exposição do Bispo [do Rosário] que me encantou, me impressionou. Tinha também o Leonilson, que também utilizou muito o bordado e tecidos no geral. Era num outro momento, a gente não tinha essa afirmação que eu trago. Eu queria trazer cabelos, eu queria trazer agulhas, eu queria trazer esses elementos que são pouco valorizados também para tratar dessa desvalorização, não só do feminino, mas também da desvalorização do manual na arte brasileira.

 

JL: Sim, existe um preconceito contra o que eventualmente chama de artesanato, ou de arte têxtil, o bordado…

RP: Ainda tem! E eu sou formada num tempo que o conceitual ainda estava muito forte na universidade. Então o manual era uma coisa altamente negativa, derrogatória e eu tenho uma cultura onde a mão é muito usada, então eu quero trazer isso, por que não posso usar?

 

JL: Tem uma questão geracional aí. Na sua geração, o pessoal negava essa manualidade. Depois dos anos 80, nos anos 90 rolou de novo um abandono da pintura, do gesto, da manualidade. Você foi na contra-corrente: isso não te assustou um pouco?

RP: Olha, eu acho que eu sou muito cabeça dura, eu sou de Áries e sou filha de Ogum com Iansã, então todo movimento é pra frente, num sentido de briga mesmo. Se eu quero usar eu vou, por que não? Aí, quando se tem 20 e pouco anos, que é quando eu comecei a usar essas técnicas, era um momento que eu não estava nem aí mesmo, tinha uma coisa da juventude também. Hoje, olhando pra trás, eu vejo que era mesmo da minha personalidade, muito brigona, eu marcava terreno mesmo. Não era um pensamento elaborado como agora, é a maturidade. Na época era o seguinte: eu sou isso, venho desse grupo, vou usar e pronto. Agora eu consigo olhar pra trás e fazer uma análise mais lógica, mais racional, consigo colocar isso no papel. Mas é isso, não vou deixar quem eu sou do lado de fora. Não posso tirar a minha pele, tirar quem eu sou e dentro da sala de aula me tornar outra pessoa, isso não rola!

 

JL: Nos últimos anos, tem havido um esforço de reescrita da história para inserir mulheres artistas. Como você vê seu trabalho – não de hoje pra ontem, mas de hoje para amanhã – se encaixar dentro desse movimento de hoje para o futuro?

RP: Nunca tinha pensado nesse sentido, é um trabalho que responde muito a questões urgentes pra mim. Eu tinha uma urgência de lidar com algumas questões e procurei trabalhar com elas e meu trabalho nunca parou de acontecer, ele sempre rodou. Poderia não estar acontecendo aqui no Brasil mas estava lá fora. A primeira exposição não foi no Brasil, foi fora. Eu não penso nessa possibilidade, nunca pensei, assim como nunca parei pra pensar antes, isso vinha de uma urgência de discutir determinadas questões. Eu também não consigo parar agora pra pensar como é que fica, qual papel do desempenho, eu continuo com essa urgência de discutir determinados assuntos porque eles foram tão encobertos no Brasil, foram tão negados aqui, que eu percebo que temos um enorme atraso na discussão das questões ligadas a gênero, raça – não só dos negros, mas indígenas também –, a questão das minorias no geral, porque ainda é uma coisa que está engasgada na garganta de muita gente, da maioria do país.

 

JL: Talvez o trabalho mesmo seja a resposta, eu acho que você continua produzindo tão ativamente que talvez o próprio trabalho responda à essas ânsias do nosso momento atual e de indícios do futuro.

RP: Sim, acho que sim, porque é o que eu sei fazer, foi a linguagem que eu escolhi então é por aí que eu levo a discussão, que eu coloco isso na mesa. Depois a história trata de organizar isso.

 

JL: Duchamp dizia isso, que a história no futuro decide o que vai escrever.

RP: Isso, a história da arte depois trata de organizar isso, a gente quer mostrar que pra quem é artista não são tão importantes esses caminhos, como vai, como segue, pelo menos pra mim o crucial é o que está na garganta, o que está entalado aqui, e continua entalado.

 

JL: E é o que te move a produzir?!

RP: Sim, é o que eu sei fazer e a resposta é essa.

 

(com colaboração de Hugo Salgado)

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