15 momentos de crise no mundo e as respostas dos artistas

William Kentridge
William Kentridge

A busca pela união entre arte e vida levou artistas a pesquisar e promover alguns conceitos e ações que nos parecem cruciais agora: o público passa a participar da obra saindo de uma tradicional posição passiva (e, muitas vezes, anestesiada ou alienada);  o coletivo ganha força; e, o social importa mais do que nunca. Nascem, assim, novas formas de “esculturas sociais”,  na melhor forma prevista por Joseph Beuys, como respostas a catástrofes naturais, crises de saúde e problemas sociais. 

Daniel Arsham
Daniel Arsham


Vivemos numa  adversidade cujos resultados ainda são incalculáveis, mas já sabemos que será (já está sendo) devastador. Nesse momento é importante e reconfortante rever como artistas ativistas responderam a outras crises – sempre com beleza e resistência. Alguns respondiam a problemas práticos com o engajamento de muitos ou denúncias duras e necessárias, enquanto outros transformam desgraças em poesia para fazer o que os jornais e mídias de comunicação já não conseguem: sensibilizar-nos. Há, ainda, aqueles que anunciavam um futuro apocalíptico que parecia distante, mas está aqui e agora. Estamos vivendo nele e nada melhor do que lembrar do poder da nossa criatividade para ganhar força e seguir.

CRISES AMBIENTAIS E DE SAÚDE 

We Shall Bring Forth New Life, de Alfredo Jaar
We Shall Bring Forth New Life, de Alfredo Jaar
We Shall Bring Forth New Life, de Alfredo Jaar
We Shall Bring Forth New Life, de Alfredo Jaar

1.Catástrofes de Fukushima e região 
O chileno Alfredo Jaar é conhecido por suas instalações, fotografias, filmes e projetos comunitários que tratam de representar eventos devastadores, como genocídios, epidemias e crises de fome. Jaar criou um memorial para as vítimas do terremoto no leste do Japão, em março de 2011, tsunami que se seguiu e o subsequente incidente nuclear em Fukushima – imensa tragédia que resultou em quase 20.000 mortes. O projeto chamado We Shall Bring Forth New Life (Umashimenkana) toma como referência um poema de Sadako Kurihara (1913–2005), “uma extraordinária poeta e ativista anti nuclear”, de acordo com o artista. Em 1945, Kurihara estava morando em Hiroshima quando a bomba nuclear caiu sobre a cidade, mas ela sobreviveu. Naquela mesma noite, ela ajudou uma vizinha que deu à luz um bebê e mais tarde escreveu este poema magnífico sobre a necessidade de trazer vida nova, mesmo diante de uma tragédia incomensurável. Neste trabalho, Jaar presta homenagem a ela e a uma dúzia de crianças que morreram na escola em Ishinomaki durante o desastre de 2011. Infelizmente, eles foram mal informados sobre os protocolos de segurança e morreram quando o tsunami atingiu sua escola. O artista usa os quadros-negros que encontrou no local que, segundo o artista, continham os sonhos das crianças.

Remembering, de Ai Weiwei
Remembering, de Ai Weiwei
Remembering, de Ai Weiwei
Remembering, de Ai Weiwei

2. Terremoto em Sichuan

Na tarde de 12 de maio de 2008, um tremor de magnitude 8 sacudiu Sichuan. O um terremoto devastador que deixou cerca 80.000 mortos – é considerado o pior em mais de 30 anos no país. Muitas dessas vítimas eram crianças, pois cerca de 7 mil escolas desabaram durante a aula. As construções eram públicas e tudo indica que falhas nas obras foram as causas para a gravidade do desastre. O artista chinês Ai Weiwei começou a investigar o caso e publicou em seu blog uma lista com os nomes das vítimas – informação que o governo chinês se recusava a divulgar. Em seguida o artista fez inúmeras em homenageando estas crianças.  Entre elas está a instalação Remembering: Weiwei usou 90 mil mochilas escolares para escrever a frase “Ela viveu feliz por sete anos neste mundo”, em Mandarim,  na fachada do museu Haus der Kunst em Munique.

Straight, Ai Weiwei
Straight, de Ai Weiwei

Para a instalação Straight, Ai Weiwei usou 150 hastes de vergalhão de aço recuperadas das escolas que desabaram como resultado do terremoto. O artista e sua equipe recuperaram e endireitaram cada viga meticulosamente e manualmente. 

Sandra Gamarra
Asi en la tierra como en el cielo, de Sandra Gamarra

3. Rompimento da barragem em Mariana 

Interessada em pesquisar os gêneros da pintura retrato, paisagem,  natureza morta e pinturas históricas ou religiosas) e questões sociais, políticas e ecológica da atualidade, Sandra Gamarra fez recentemente uma série de pinturas para discutir  o nascimento do conceito de paisagem na pintura ocidental e a visão que temos até hoje sobre a natureza. Entre elas, está Asi en la tierra como en el cielo II, uma paisagem inspirada pelo  rompimento da barragem em Mariana, em novembro de 2015 – desastre ambiental deixou 19 mortos, 362 famílias desabrigadas. Gamarra faz uma interessante relação entre o nascimento do conceito de paisagem na pintura ocidental e a visão que temos até hoje sobre a natureza. “Na época em que surgiram os gêneros da pintura, lamentavelmente, já havia uma série de crenças em torno da natureza que refletem na representação da paisagem e nos problemas atuais. Por exemplo, a ideia de que a natureza é infinita ou que a natureza se recria sozinha. Deus a criou, ela vai continuar. As pessoas não entendem que precisam protegê-la, pois a ideia de que a natureza é infinita está impressionantemente arraigada no inconsciente. Também existia a ideia de que a natureza era ruim. Que era preciso cultivá-la, organizá-la, domesticá-la. Era bruta, má, selvagem, assim como as pessoas que a habitam. Além disso, existia a crença de que Deus criou você fora dela e te inseriu ali. Estamos sempre do lado de fora, não fazemos parte dela. E há um horizonte pacífico, um lugar onde se pode chegar. A paisagem sempre está por se conquistar. Há um aqui e um lá; e o pintor e o espectador que está também fora. E essa visão de ser externo à paisagem é muito perigosa.  Quando pesquiso todo esse pensamento que está na ideia de paisagem ocidental, percebo porque estamos onde estamos. Há, ainda, outro ponto: as primeiras pinturas eram usadas quase como títulos de propriedade. Se eu sou dono dessa terra, levo meu pintor para registrar o território, porque é meu”, explica a artista.

Chéri Cherin
Chéri Cherin
Chéri Cherin
Chéri Cherin

4. Proliferação da AIDs

 A miséria e crises de saúde na África são temas comuns entre os artistas da região. Entre os mais renomados estão o congolês Chéri Chérin que denuncia vários problemas sociais e políticos do país. Em algumas pinturas Chérin ressalta a propagação da aids no Congo e nos mostra como os hospitais são usados ​​apenas pelas pessoas mais ricas, enquanto os cidadãos recorrem a profissionais locais para obter assistência médica. Outro artista da República do Congo que chama atenção para a crise de saúde (não somente da AIDs)  e também para questões ecológicas, é Chéri Samba.

Chéri Samba
Chéri Samba

Com estilo figurativo, direto, bem humorado e provocativo, Samba retrata com audácia uma turbulenta, agitada e resolutamente África contemporânea. Entre as características da sua pintura, estão os comentários em francês como parte da composição – muitas vezes Samba usa balões como nos quadrinhos para expressar sentimentos e falas dos personagens. 

Untitled (Portrait of Ross in L.A.), de Félix González-Torres
Untitled (Portrait of Ross in L.A.), de Félix González-Torres


Outro artista conhecido por apontar para a doença é o cubano Félix González-Torres. Sua instalação mais famosa, intitulada Untitled (Portrait of Ross in L.A.), é uma representação metafórica do parceiro do artista, Ross Laycock (1959 – 1991). A instalação consiste em 79 kg de doces, correspondendo ao peso corporal ideal de Ross. Os espectadores são convidados a comer as balas e a quantidade decrescente equivale à perda de peso e à dor de Ross antes de sua morte.

5. Furacão Katrina  e Furacão Andrew

Muitos artistas se sensibilizaram com o desastre causado pelo furacão Katrina que causou aproximadamente 1800 mortes, especialmente em Nova Orleans e no sul da Flórida em 2005. Um dos projetos mais bonitos é Little Music, criado por Jorge Macchi e Edgardo Rudnitzky. A performance coletiva aconteceu no Bayou Saint John, um canal que liga o rio Mississipi ao lago Pontchatrian: os artistas criaram 5 pedalinhos cujas rodas em movimento acionaram uma kalimba gigante ( uma versão modernizada da mbira africana) instalada na parte de trás do assento. As pás têm dentes que ativam as teclas de metal do instrumento como uma caixa musical. Desta forma o próprio público produzia músicas que traziam à tona a forte relação da cidade com os sons e ritmos vinculados à  cultura africana. 

Waiting for godot, do Paul Chan
Waiting for godot, do Paul Chan

Em Waiting for godot, o artista americano Paul Chan retoma a peça de Samuel Beckett para mostrar a “terrível simetria entre a realidade de New Orleans pós Katrina e a essência desta obra que expressa com severa eloquência a crueldade e humor de seres humanos enquanto esperam por socorro, comida e um amanhã”. Para realizar o projeto, Chan passou 9 meses trabalhando com a comunidade e pesquisando com artistas e ativistas.  Durante a peça o ator Wendell Pierce recita o dramaturgo:  “Em um instante, tudo desaparecerá e ficaremos sozinhos mais uma vez, no meio do nada”. 

Daniel Arsham
Daniel Arsham
Daniel Arsham
Daniel Arsham

6. Furacão Andrew
Já o americano Daniel Arsham ficou traumatizado pelo Furacão Andrew que quase o matou em 1992 e  por isso o tema de seu trabalho está sempre voltado para uma memória do presente em um futuro apocalíptico. O fato de Arsham ter testemunhando a força e a fúria da natureza o levou a criar instalações com vidros estilhaçados ( como se tivessem sido destruídos pela tempestade) que formam objetos como telefones, computadores e máquinas fotográficas destruídos pelo tempo, além de figuras protegidas por tecidos em meio a uma ilusória ventania.

Mel Chin
Fundred Dollar Bill Project, Mel Chin
Fundred Dollar Bill Project, Mel Chin
Fundred Dollar Bill Project, Mel Chin

7. Envenenamento de chumbo em Nova Orleans

Após algumas visitas em Nova Orleans, Mel Chin percebeu que a cidade mais devastada pelo furacão era também atormentada por outro elemento destrutivo e invisível – o chumbo tóxico, não está apenas no solo e nas casas, mas no sangue, ossos e cérebros das crianças. O artista descobriu que nada estava sendo feito com o propósito de encontrar uma solução para esta crise de saúde e que eram preciso 300 milhões de dólares para tratar toda a cidade.  Como ele não poderia arrecadar um valor tão alto, propôs uma ação coletiva para fazer notas de 100 dólares: nascia o Fundred Dollar Bill Project.  A ideia é coletar US $ 300 milhões em moeda artesanal, levar o montante para Washington e pedir ao Congresso para trocá-lo por dinheiro real para financiar os tratamentos. O objetivo é utópico, mas o projeto está diretamente ligado à uma das principais funções da arte relevante no mundo contemporâneo: criar educação e consciência de um problema. Ao participar da ação de Chin, a população – principalmente estudantes – aprendem sobre o envenenamento por chumbo, seu impacto na sociedade e o que fazer com isso.

Mel Chin
Escultura e realidade virtual criada por Mel Chin
Escultura e realidade virtual criada por Mel Chin
Escultura e realidade virtual criada por Mel Chin
Vírus Mel Chin
Seres de um tempo futuro criados por Mel Chin

8.  Mudanças climáticas
Em 2018 o mesmo Mel Chin “inundou” a Times Square com uma obra arte de realidade virtual para alertar o mundo sobre as mudanças climáticas.  Turistas e nova-iorquinos tiveram a oportunidade de experimentar uma instalação que os levavam, virtualmente, para uma NY completamente submersa pelas marés crescentes. Era uma visão assustadoramente profética da cidade invadida pelas mudanças climáticas. Chin se uniu à Microsoft para criar uma experiência única que dava vida à sua escultura Wake, de 60 pés de altura, que estaria naufragada sobe à superfície de uma Times Square imaginária inundada e acompanhada por inúmeros navios, criando um engarrafamento náutico bem acima das avenidas Enquanto você assiste, os navios acabam parando e se enferrujando. Em paralelo, no nível da rua, o público pode ver minúsculos plânctons e outras vidas marinhas microscópicas flutuando – um novo ecossistema cheio de vida, nascido dos efeitos catastróficos das mudanças climáticas.A previsão de Chin dialoga, nesse sentido com o trabalho de Daniel Arsham, no qual o presente vira arqueologia de um futuro apocalíptico.

O Grito, de Edward Munch
O Grito, de Edward Munch

9. Erupção do Krakatoa

Uma das telas mais famosas do mundo tem origem numa catástrofe natural: de acordo com recentes estudos meteorológicos, provou-se que as famosas nuvens laranjas e o céu apocalíptico que aparece atrás do personagem desesperado em O Grito, de Edward Munch, seriam representações das lavas do vulcão Krakatoa que entrou em erupção em 1883.  A tragédia provocou, ainda, subsequentes tsunamis e o resultado foi a morte de pelo menos 36 mil pessoas. Passada a pior parte, uma enorme quantidade de dióxido de enxofre (SO2) pegou carona nos ventos de grande altitude, e a substância se espalhou por toda a atmosfera. Reações químicas posteriores com o novo “ingrediente” aumentaram a concentração de ácido sulfúrico (H2SO4) em nuvens Cirrus, que passaram a refletir a luz do Sol com mais intensidade.O resultado foi uma queda de 1,2 °C nas temperaturas médias do Hemisfério Norte no verão daquele ano e meses com o pôr do Sol mais bonito da história registrada (a estrela chegou a ficar púrpura ou lavanda em certas regiões).

David Koloane
David Koloane

CRISES SOCIAIS 

10. Apartheid 

São muitos os artistas que discutem as crises geradas pelo Apartheid na África do Sul. Entre as figuras centrais e fundamentais desses tenebrosos anos, está David Koloane – como pintor, professor e ativista. Numa época em que artistas negros da África do Sul eram banidos de escolas de arte e museus e tinham poucos espaços de exibição, Koloane fundou ou ajudou a fundar instituições de arte comunitárias para preencher a lacuna e seu próprio trabalho virou referência aos jovens artistas ao combinar conteúdo polêmico e abstração, vertentes da arte que frequentemente são assumidas como mutuamente exclusivos. O tema das pinturas de Koalane era o mundo que o rodeava: o panorama da vida urbana negra, circunscrita brutalizada pela violência, mas vital e resiliente. Compunha imagens sombrias em um estilo expressionista esfumaçado,  “transformando fatos sociológicos em metáforas poéticas e expandindo incidentes históricos em dramas cósmicos:, como afirma o crítico de arte Holland Cotter para o New York Times. Vale lembrar que Koalane entrou pela primeira vez em uma galeria de arte apenas em 1972, quando já tinha 34 anos. Na época poucos espaços exibiam obras de artistas negro e mesmo assim havia restrições. O trabalho deles só era mostrado se eles produzissem a chamada “arte do município”:  pinturas deveriam que seguir um estilo figurativo e mostrar cenas da vida cotidiana em assentamentos negros, com a pobreza “encoberta” em cenas animadas e cores alegres.

David Koloane
David Koloane

Mas David Koloane traça seu próprio caminho e fundou , ao lado de Sandra Burnett e Robert Loder, o Fordsburg Artists’ Studios, também chamado de Bag Factory, possibilitando uma mistura racial que as leis do apartheid teriam impedido.Entre os alunos, estavam nomes que até hoje se destacam como Kay Hassan, William Kentridge, Sam Nhlengethwa, Mmakgabo Helen Sebidi e Penny Siopis. 

Mmakgabo Helen Sebidi
Mmakgabo Helen Sebidi
William Kentridge
Felix in Exile, de William Kentridge
William Kentridge
Felix in Exile, de William Kentridge

Sebidi aprendeu com a avó técnicas tradicionais de pintura em parede e cerâmica, mas foi a convivência com outros artistas e um ambiente politizado em Joanesburgo que impactaria na temática de seus trabalhos. Ela desenvolveu um traço próprio e retrata experiências cotidianas misturadas às sabedorias ancestrais.  Mostra o sofrimento infringido pelo contexto do apartheid, especialmente para mulheres negras. Kentridge é um dos mais reconhecidos artistas do país e aponta com maestria as feridas do regime de segregação racial implantado na África do Sul, entre 1948 e 1994. Sobre o filme Felix in Exile, que pertence ao acervo do MoMA, o próprio artista declara: “Os filmes que eu faço nascem da uma sociedade brutalizada e marcada pelo Apartheid. Para fazer este  filme usei muitas fotografias de pessoas que morreram meses antes da primeira eleição democrática da África do Sul em 1994”. Não é preciso um olhar muito atento para os frames do filme (acima) para perceber semelhanças com o que vivemos agora.

The Dust Channel, de Roee Rosen
The Dust Channel, de Roee Rosen
The Dust Channel, de Roee Rosen
The Dust Channel, de Roee Rosen
The Dust Channel, de Roee Rosen
The Dust Channel, de Roee Rosen

11. Xenofobia e crise dos refugiados 

A crise mundial dos refugiados é um assunto antigo, mas ganhou força a partir de 2015 e começou a marcar presença em obras de todas as mais importantes exposições e bienais. Entre os trabalhos mais interessantes, vale conhecer The Dust Channel – uma ópera cinematográfica criada pelo artista israelense Roee Rosen apresentada na Documenta 14, em Kassel. Rosen cria a história de um casal burguês com fixação por aspiradores de pó. A obsessão pela limpeza, no entanto, pode ter uma conotação mais pesada: veja aí questões de xenofobia que pairam pela Europa. Armado de um humor negro peculiar, Roee Rosen critica a sociedade israelense e fala sobre prazer e perversão ( as cenas na casa são intercaladas por fantasias sexuais, frames de filmes pornô e entrevistas) . Vale conferir, ainda, como artistas como Erkan Özgen, Mounira Al Sohl, Adam Szymczyk e Christoph Büchel trataram a questão que ainda permanece grave.

Romuald Hazoumè
Romuald Hazoumè
Romuald Hazoumè
Romuald Hazoumè
Romuald Hazoumè
Romuald Hazoumè

12. Crise de petróleo na Nigéria

Romuald Hazoumè tem forte conexão com o povo e cultura Iorubá (grupo étnico do oeste da África) na qual as máscaras são protagonistas. Com pequenos gestos – posicionando ou adicionando um ou dois elementos – revela rostos e quebra convenções de conhecimentos ancestrais. As sagradas máscaras ganham ar contemporâneo no melhor estilo ready-made quando ele usa objetos de seu cotidiano como cordas, funis e galões – fazem referência ao transporte ilegal de petróleo da Nigéria e denuncia o perigo deste sistema lucrativo para a população. Há, ainda, uma crítica ao lixo que estamos produzindo e depositando no planeta. Hazoumè é também conhecido pela obra La Bouche du Roi na qual usou os mesmos galões e outros materiais reciclados para reproduzir o Brookes – um navio inglês que transportava escravos no séc. 18.

Theaster Gates
Biblioteca do Stony Island Arts Bank, de Theaster Gates
Dorchester Projects, de Theaster Gates
Dorchester Projects, de Theaster Gates
Instalação e performace de Theaster Gates durante a Documenta de Kassel 13

CRISES FINANCEIRAS 

13. Bolha imobiliária de 2008

Unindo várias facetas das artes, planejamento urbano e trabalho social, Theaster Gates é, hoje, uma das maiores referências da chamada “estética social” ou “nova arte pública”. Depois da crise imobiliária de 2008, Gates começou um de seus mais célebres trabalhos, o Dorchester Projects: o artista restaura prédios vazios no sul de Chicago e os transforma em instituições culturais. O projeto começou com duas casas na Avenida Dorchester, chamadas de Archive House e Listening House, onde ele promove uma série de encontros com membros da comunidade usando a criatividade como antídoto para superar situações de pobreza e desamparo.  Gates organiza eventos que envolvem música, leituras e sessões de cinema, além de promover jantares – rituais que o artista chama de “soul food dinner”. Em 2013, o artista comprou um banco construído nos anos 1920s por um dólar e o transformou em no centro cultural Stony Island Arts Bank onde é uma extensa biblioteca de discos e vinis ligados à cultura afro-americana. O espaço também abriga exposições e uma residência para artistas. O artista ganhou destaque, ainda, em Kassel durante a Documenta 13, em 2012, quando recuperou uma casa abandonada e destuíra e a ocupou com uma série de encontros e performances.

Laboratorio de invención social (o posibles formas de construcción , de colectiva), de Gabriela Golder
Laboratorio de invención social (o posibles formas de construcción , de colectiva),
de Gabriela Golder

14. Crise econômica na Argentina 

As sucessivas crises econômicas na Argentina já inspirou muitos artistas locais. Fugindo de um previsível questionamento do sistema de valores frágil que obriga a população a se acostumar com fases difíceis,   Gabriela Golder inspirou-se num ato de resistência, superação e esperança para criar a videoinstalação Laboratorio de invención social (o posibles formas de construcción colectiva). Vivendo e sobrevivendo às constantes crises econômicas, as fábricas locais quebram e são tomadas (legalmente) pelos funcionários que as recuperam por meio de um sistema de autogestão. A artista investiga a ação e filma os trabalhadores em seus oficio: mãos, rosos, máquinas ocupam a tela principal, enquanto dois vídeos menores  trazem relatos desses trabalhadores a respeito de suas motivações e novas  condições de trabalho.

Migrant Mother, de Dorothea Lange
Migrant Mother, de Dorothea Lange

15. Grande Depressão

Considerada o pior e o mais longo período de recessão econômica do sistema capitalista do século XX, a chamada “Grande Depressão” teve início em em 1929, com a queda da Bolsa de Valores de NY, e que persistiu ao longo da década de 1930, terminando apenas com a Segunda Guerra Mundial. O período foi marcado por altas taxas de desemprego, quedas drásticas do produto interno bruto de diversos países, bem como reduções dramáticas na produção industrial, preços de ações no mundo inteiro. Neste período, o governo americano implementou uma medida de alívio chamada The Federal Art Project: empregar cerca de 10 mil artistas e artesãos – eles bancaram a produção de 2.556 murais, 17.744 esculturas, 108. 099 pinturas e 240.000 impressões fotográficas. Desta forma, os artistas poderiam criar sem medos básicos de sobrevivência. Muito desses artistas partiram em jornadas pelo interior do país para retratá-lo – havia, ainda, uma necessidade de identificar o que era a nação americana e ressaltá-la (afinal, eram anos de guerra mundial!). A fotógrafa Dorothea Lange fazia parte do time e ela ficou famosa justamente por retratar a vida camponesa naquele período.  Entre suas imagens mais famosas está A Mãe Migrante, de 1936. Diz a lenda que trata-se  Florence Owens Thompson, uma mulher de 32 anos e sete filhos para criar sozinha pois o marido morrera 5 anos antes. Ela estaria em busca de um emprego ou de ajuda social para sustentar sua família.