Parece que Cássio Vasconcellos, o primeiro nome do GOL MOSTRA BRASIL e é, agora, representado pela galeria Nara Roesler, estava prevendo a crise mundial o coronavirus que está, de fato, obrigando o mundo inteiro a parar e refletir sobre nossos hábitos de consumo e exagerados; sobre como estamos ocupando o mundo de uma forma complexa e destrutiva; sobre como é preciso voltar atrás, voltar para a natureza e voltar no tempo ( pré revolução industrial) para pensar sobre esvaziar nossas cabeças e almas e repensar tudo de novo. 

Imagem da série Coletivos, de Cássio Vasconcellos

Muito conhecido pela série Coletivos, na qual produz imagens aéreas ( muito antes da febre dos drones) manipuladas expondo padrões, repetições, excessos e aglomerações pessoas e bens de consumo, Cássio Vasconcellos começou, há 5 anos, uma viagem pitoresca pelo Brasil fotografando florestas em todo o país: Parque Estadual da Serra do Mar, Ubatuba, Floresta da Tijuca, Serra dos Órgãos, Parque Nacional do Itatiaia, além de selvas no Paraná , Santa catarina, Espírito Santo, Bahia e Amazonas.  “A floresta é muito difícil de ser retratada. Às vezes é maravilhosa quando você está nela, mas é impossível passar aquela exuberância e contexto para a imagem.  É preciso pesquisar muito para achar a composição rápida e não perder o encantamento. Por isso, precisei ir em muitas florestas para encontrar imagens que tocassem as pessoas de verdade. Hoje vivemos bombardeados de imagens o tempo todo e é muito difícil alguém se comover com uma imagem. Eu não queria fazer apenas uma foto bonita da floresta; queria criar uma estética própria e emocionar o público”, explica o artista.

Imagem da série Díadres e Faunos

Uma série é exatamente o oposto da outra e, de certa forma, complementar: “Coletivos é composta justamente pelo excesso de coisas, como se dá a ocupação humana e tudo o que a gente precisa consumir para essa ocupação do mundo. A foto dos aviões, por exemplo, fala muito sobre a conexão e sobre esse mundo globalizado.  Em Coletivos falo sobre questões humanas de forma mais árida, são vistas do alto e de longe. Quando vou para floresta, o olhar é para dentro e debaixo. Em Viagem pitoresca pelo Brasil quero voltar no tempo, reconhecer a natureza intocada por esse exagero no qual vivemos. É uma forma de me esvaziar um pouco”, explica o artista.

Sua primeira individual como artista galeria abriu este mês na filial do Rio de Janeiro, onde Cássio apresenta pela primeira vez a série Dríades e Faunos. Como uma continuação de Viagem pitoresca pelo Brasil, a nova série traz imagens das florestas brasileiras inspiradas nas gravuras feitas a partir das expedições artísticas e científicas que ocorreram no Brasil na primeira metade do século XIX – em especial uma gravura feita em 1822 pelo Conde Clarac.”Na verdade, ele fez primeiro uma aquarela, entre 1816-1819, e apresentou em Paris. O sucesso foi tão grande que resolveram fazer essa gravura. Esta foi a primeira imagem da floresta brasileira e eu já vi várias outras, mas não consigo achar uma mais bonita que essa. Já tinha visto reproduções, mas quando a vi ao vivo, no Itaú Cultural, simplesmente não conseguir sair da frente dela”, revela o artista que desenvolveu uma técnica especial – alterando a sensibilidade e o intervalo de exposição da câmera – para criar fotografias da floresta que parecem as pinturas de Clarat, Debret, Rugendas, e Martius, entre outros. 

Imagem da série Díadres e Faunos

É interessante notar, aliás, que a fotografia foi inventada oficialmente em 1839, pouquíssimo tempo antes das pinturas dos viajantes que trazem uma impressionante riqueza de detalhes. Todos sabemos que o nascimento “libertou” da fotografia a pintura da representação da realidade e, ao logo dos anos, a própria fotografia passou a se inspirar na pintura, fazendo com que os meios se “esbarrassem” e dialogassem ao longo da história da arte. E aí entra um “jogo” interessantíssimo entre as mídias e estéticas proposto por Vascocellos em Dríades e Faunos: em cada uma das fotografias das florestas ele coloca, digitalmente, a representação fotográfica de seres humanos pintados por William-Adolphe Bouguereau.

Imagem da série Díadres e Faunos

“As pinturas para as fotos são da primeira metade do séc. 19, antes da invenção da fotografia, e as pinturas inseridas nela são da segunda metade do século. Ou seja, quando Bouguereau criou essas pinturas a fotografia já havia sido inventado e isto o influenciou, claro. Por isso, seus quadros são tão minuciosos e realistas que parecem reproduções fotográficas. Assim eu confundo um pouco o espectador, pois o que é foto parece pintura e o que é pintura é tão perfeito que achamos que são fotos”, explica. As mulheres seriam as Dryads ( na mitologia grega, Dríades são divindades que nascem junto a uma árvore, passando a viver nela, ou em seus arredores para protegê-las) e os homens são os Faunos os homens. 

Vasconcellos também brinca com a passagem do tempo: volta ao passado e, em seguida, nos trazem para o presente, voltando novamente para a história e fazendo com que o espectador fique sem muita noção do tempo linear como o conhecemos.  “Eu desenvolvi um processo fotográfico usando uma tecnologia 100% atual, para criar aspectos de uma imagem antiga. 

Além de representar uma intensa conexão com a natureza, a nudez também serve para manter a neutralidade e o suspense em relação ao tempo – roupas fariam com que o público detectasse facilmente o período das pinturas escolhidas. “Sempre gostei de gerar dúvidas em meu trabalho. Tudo é construído, mas é perfeitamente possível de existir”!

Gravura da floresta brasileira pelo Conde Clarac disponível no Itaú Cultural
Compartilhar