4 pequenas histórias das amizades mais emblemáticas entre artistas

Para além da admiração e afinidade, conheça como amizade desses artistas impactou suas produções e a História da Arte

Tempo de leitura estimado: 5 minutos

Especialmente hoje, no Dia Internacional do Amigo, queremos te convidar a conhecer um pouquinho de quatro histórias cativantes por trás de amizades icônicas do mundo da arte. Mas além das afinidades pessoais, apresentamos onde as produções artísticas deles se encontram.

Yayoi Kusama e Donald Judd

Yayoi Kusama e Donald Judd
Yayoi Kusama e Donald Judd no Japão, 1978. © Fundação Judd. Cortesia da Fundação Judd.

Nascidos em extremos opostos da Terra com apenas um ano de diferença, os caminhos da artista japonesa Yayoi Kusama e do estadunidense Donald Judd se cruzaram quando ainda jovens no final dos anos 1950 na cidade de Nova York. 

Na época, o artista recém-contratado pelo ArtNews havia escrito uma resenha elogiosa sobre a primeira exposição solo de Kusama em Nova York, mas a relação entre os dois artistas não ficou apenas no âmbito profissional. 

Talvez, se você estivesse passeando pelo centro de Manhattan em 1962, poderia ter visto os dois carregando uma poltrona enorme pelo quarteirão. Acontece que no início da década eles passaram a morar no mesmo prédio, separados por um andar, e a poltrona que eles carregaram até lá veio a se tornar a obra Accumulation No. 1 da artista. Em uma entrevista de 1988 desenterrada pela Fundação Judd, Donald conta: “O quarto andar ficou vago e ela [Kusama] me contou sobre isso. E então eu peguei o loft e morei lá por 10 anos ou mais por causa dela. Ela era a vizinha de baixo.”

O relacionamento deles – principalmente de amizade, mas às vezes romântico – prosperou pelas décadas seguintes, afinal as investigações artísticas coincidiam em direções semelhantes, tendo a repetição como linguagem e o interesse pelas discussões de espacialidade.  

E embora tenham se separado geograficamente quando Kusama voltou para seu país natal em 1973, os dois permaneceram em estreito contato por meio de cartas até a morte de Judd em 1994. 

Basquiat e Andy Warhol

A história dessa amizade icônica se iniciou em 1982 quando o negociante de arte Bruno Bischofberger levou Basquiat para um almoço na casa de Warhol e os apresentou. Na época, enquanto Warhol era uma figura global estabelecida, Basquiat era 32 anos mais novo e tinha acabado de começar a se destacar com o grafite em Nova York.

No livro e documentário “Diários de Andy Warhol“, o artista conta que nesse primeiro contato, ele se lembrou de já ter dado esmola de uns 10 dólares e ficou envergonhado de ter sido um valor baixo para o novo amigo. Mas certamente o caso estava superado para o grafiteiro que poucas horas depois da visita retornou com um retrato dos dois ainda molhado como presente. 

Basquiat
Dos Cabezas, 1982. Basquiat

Aos poucos eles passaram a trabalhar juntos, fundindo os dois estilos: a reconhecível técnica pop art de Warhol justaposta a abordagem crua e imprevisível de Basquiat. Dentre as diversas colaborações, uma das peças mais conhecidas é Ten Punching Bags (Last Supper), uma declaração lúdica contra a opressão ideológica no mundo da arte.

É muito difícil tentar encaixar essa complexa relação em qualquer categoria. O fato deles existirem em dois mundos completamente distintos dentro da arte e da sociedade, constantemente os tensionava. Mas, ao contrário do que possa parecer, a amizade não nasceu apenas da ambição profissional. De acordo com aqueles que eram mais próximos da dupla, a admiração era mútua e genuína, e Warhol teve um papel quase parental na vida de Basquiat.

O companheirismo durou até a inesperada morte de Warhol em 1987. A perda deixou um enorme vazio na vida de Basquiat, a ponto de estimular um comportamento destrutivo que acabaria por reivindicar sua vida apenas um ano depois. 

Leonora Carrington, Remedios Varo e Kati Horna

O forte vínculo deste trio surrealista se formou em meio a um círculo de diversos artistas expatriados da Europa que se refugiaram numa Colônia no México em 1942, no auge da Segunda Guerra Mundial. Dentro desta comunidade, a amizade entre a britânica Carrington, a húngara Horna e a espanhola Varo foi particularmente significativa e teve um forte impacto nos seus respectivos trabalhos. Stefan van Raay, curador da exposição de 2010, Surreal Friends, explica: “elas criaram uma família substituta entre elas mesmas”. 

Ah! Vale indicar aqui o livro homônimo que acompanhou a mostra e conta as histórias individuais das três mulheres e seu relacionamento uma com a outra.

Mas de volta a nossa história, o México, então, ofereceu liberdade para o trio explorar sua arte. Por meio de suas espiritualidades individuais e distintamente femininas, elas encontraram uma fórmula poderosa de subverter o patriarcado, e por isso, diversas vezes foram chamadas de “as três bruxas”. 

Talvez, relacionar o trabalho de Horna com o de Varo e Carrington possa parecer tênue num primeiro momento. Além da linguagem, a paixão pela temática da alquimia e feitiçaria não era o centro de sua produção. No entanto, quando suas fotografias retratam as amigas no cavalete, recebemos uma visão das experiências e emoções que moldaram as pinturas. Segundo pesquisadores das surrealistas, sem isso, seria difícil de decodificar os mistérios e motivos simbólicos das obras de Carrington e Varo. 

Kati Horna
Sem título (Remedios Varo usando uma máscara de Leonora Carrington), 1962. Kati Horna

Vincent van Gogh e Paul Gauguin

Durante apenas nove semanas do outono de 1888, uma pequena casa cor de girassol em Arles, no sul da França, foi o lar de Vincent van Gogh e Paul Gauguin. O neerlandês havia alugado a residência no intuito de realizar seu sonho de “Ateliê do Sul”, um espaço para os colegas pintores viverem e colaborarem enquanto estudam a paisagem circundante. Apesar da construção não existir mais, Van Gogh a imortalizou em várias pinturas, incluindo A Casa Amarela (1888) e O Quarto (1888).

Tudo havia começado com a ajuda do irmão mais velho de Vicente, Theo, que forneceu um subsídio mensal de 250 francos em troca de pinturas de Gauguin por mês. Fortemente influenciado pela proposta do marchand, Gauguin aceitou o convite da residência criativa. Logo a aventura exigiu muito companheirismo da dupla que dividia as contas, visitava bordéis, e pintava ao ar livre nos campos em derredor. O período foi altamente produtivo para ambos: Van Gogh fez 36 telas e Gauguin completou 21.

Ok, provavelmente, você já sabe como essa curta história termina, afinal foi material de grandes cinebiografias de Hollywood. Depois de uma grande discussão, acredita-se que Van Gogh mutilou a própria orelha esquerda em um ataque de raiva, levando Gauguin a embarcar rapidamente em um trem para Paris. Os dois nunca mais se viram, mas mantiveram o contato por meio de cartas.

Mas o que você talvez ainda não saiba, é que depois de tudo isso, Van Gogh retratou sua amizade e o momento de solidão por meio de duas pinturas feitas em dezembro daquele ano. A primeira, Cadeira de Van Gogh, ele inclui seu cachimbo e próprio nome ao fundo e no título, sendo assim, ela torna-se uma espécie de autorretrato. O mesmo pode-se entender de Cadeira de Gauguin, onde a vela acesa no assento simboliza a ausência do amigo que partiu.

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