A arte de Abed Al Kadiri em uma Beirute despedaçada

Saiba quem é o artista que teve sua exposição totalmente danificada após o incidente que ocorreu em Beirute na semana passada

Em uma semana em que as atenções estiveram voltadas às explosões que ocorreram em Beirute, deixando boa parte da cidade devastada, muitos mortos, feridos e mais de 300 mil desabrigados, o mundo da arte viu museus, galerias e ateliês dali em pedaços. Algumas das cenas mais emblemáticas foram da Galeria Tanit, onde Abed Al Kadiri apresentava a individual Remains of The Last Red Rose. Telas estonteantes do artista nascido ali em 1984 foram jogadas no chão com a força da onda de choque vinda das explosões, ficando entre os restos das paredes e vidros.

A situação pavorosa fez com que muitos descobrissem um artista sobre o qual nunca tinham ouvido falar, pois os quadros entre os destroços mostravam uma qualidade impressionante. Muito conhecido no circuito de toda a região como um personagem muito importante no desenvolvimento e na escalada das artes plásticas por ali, ele estudou Literatura Árabe e Belas Artes na Lebanese University, tendo desenvolvido não só as suas habilidades como artista, mas também um olhar e um repertório apurados para o processo curatorial.

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Quando o conflito entre Líbano e Israel estourou, em 2006, Abed ainda era estudante. Assim que a guerra terminou, ele fez suas malas e foi morar no Kuwait, onde passou a trabalhar como crítico de arte para diversos veículos. Foi assim durante quase quatro anos, quando, em 2010, fundou uma galeria no país, chamada FA Gallery.

Seu desempeno e suas conquistas fizeram com que recebesse muita atenção da cena por ali, o que destinou ele a ser nomeado diretor da Contemporary Art Platform Kuwait (CAP) um ano depois. A CAP é uma plataforma de fomento às artes visuais que acabava de nascer com a intenção de desenvolver mais o circuito. Ali, Al Kadiri fez a curadoria de diversas exposições, além de ter desenvolvido programas de educação e estabelecer muitos intercâmbios com galerias na região, e também Ásia e Europa.

Já em seu trabalho como artista, Al Kadiri coloca luz sobre questões que o circundam como cidadão do Oriente Médio e também como indivíduo. Os temas são variados, focando na censura, na ocupação, na migração, na globalização e também em seus descontentamentos.

Em uma série específica que realiza desde 2014, intitulada States of Anxiety, ele cria a partir de mídia mista, usa tinta e cinzas de cigarro em tecido para criar retratos distorcidos, quase invisíveis por meio de sua abstração. Essa série aborda uma preocupação que permeia muito o trabalho de artistas da região, pois é algo que os inquieta como pessoas em suas singularidades: o fardo psicológico de viver nos tempos contemporâneos, rodeado de conflitos.

Em outros trabalhos bem conhecidos de Al Kadiri, ele faz referências às ilustrações de Al Wasiti, prestando uma homenagem ao artista nascido ao sul de Bagdá, no Iraque, no século 13. Al Kadiri investiga com profundidade as relações que estão no conjunto de trabalhos do iraquiano. É nesse olhar para um tempo tão distante que o contemporâneo busca relações entre passado e presente, estabelecendo ligações muito dinâmicas e vividas sobre como tanto ele como Al Wasiti observam a comunidade ao seu redor.

Em uma dessas telas, apresentada na Beirut Art Fair de 2017, feira na qual seus trabalhos têm sido destaque nos últimos anos e da qual foi curador para projetos especiais no ano passado, ele expõe seus sentimentos e pensamentos sobre a primeira ver que viu al-Baghdadi, líder do ISIS morto no ano passado, discursar. Ali, ele notou o quanto aquela fala seria uma alavanca para mais dor e sofrimento aos povos da região.

Entre as convulsões sociais internas de seu país, os conflitos da região e os embates com países ocidentais que se utilizam de táticas neocolonialistas para controlar as riquezas produzidas por ali, Al Kadiri se destaca como um artista que documenta a História de seu tempo.

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