Anna Maria Maiolino abre exposição antológica no Instituto Tomie Ohtake

Individual traz obras sobre as condições da mulher, os traumas latinoamericanos e o poder da materialidade e gestos simples

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Anna Maria Maiolino_Tomie Ohtake
Entrevidas, da série Fotopoemação, 1981 de Anna Maria Maiolino

“Do ponto de vista plástico, a Anna trabalha basicamente com a ideia de ponto e linha. A linha vai se expandindo, vira a trama, potencialmente o mapa, ou vai se acumulando e rolando até virar um emaranhado ou uma topologia. Pode mudar a linguagem ou matéria, mas em termos de construção, esses elementos estão sempre muito claros. Isso ajuda também para que os trabalhos de momentos e linguagens tão diferentes convivam bem juntos. Por isso também pensamos na ideia do espiral para construir a exposição: os trabalhos mudam muito, mas têm vários fundamentos que são recorrentes”, explica o curador Paulo Miyada responsável por idealizar a mostra Anna Maria Maiolino – psssiiiuuu…, que abre amanhã, dia 7 de maio, no Instituto Tomie Ohtake

Maior exposição da artista feita no Brasil, a individual tem forma de antologia, reunindo cerca de 300 obras que revelam diferentes momentos, reflexos e intenções da  “vida-obra”, como a própria artsita define, de Maiolino. O próprio nome da individual já traz sugestões: psssiiiuuu… é uma figura de linguagem comum, com pequenas alterações, em diferentes línguas e pode significar um “assobio, chamado, flerte, pedido de silêncio, segredo ou sinal”. Trata-se de uma onomatopeia que expressa a multiplicidade e a não territoriedade – duas caracteristicas comuns no trabalho da artsita que nasceu na Itália e foi para o Rio de Janeiro fugindo da guerra, e que morou também em Nova Iorque e Buenos Aires. 

Curada por Paulo Miyada, a individual é composta por pinturas, desenhos, xilogravuras, esculturas, fotografias, filmes, vídeos, peças de áudio e instalações que figuram mapas físicos e mentais de sua vida como artista mulher; expressões de traumas latino-americanos; e, a simplicidade e poesia de formas e gestos atávicos. É concebida como uma espiral onde técnicas, linguagens e temas aparecem e desaparecem ao logo das décadas. Para facilitar o entendimento mais amplo das questões abordadas pela artista, foi dividida em três capítulos:  

Anna Maria Maiolino_Tomie Ohtake
Anna, 1967, de Anna Maria Maiolino

ANNA

Na primeira sala, o público poderá conferir um conjunto de obras mais bibliográficas e íntimas, diretamente ligadas à condição de uma artista mulher que é, também, filha, mãe, cidadã, amante, amiga, escritora e imigrante.  Os primeiros trabalhos são os da série Mapas Mentais, onde a artista cria uma cartografia construtivista de sua vida indicando os principais acontecimentos e sentimentos: guerra; fome; América do Sul; alegria, amigos, Rubens (Rubens Gerchman foi seu primeiro marido), trabalho, filhos, Nova Iorque, separação, solidão, poesia, etc. 

Anna Maria Maiolino_Tomie Ohtake
Capítulo I, da série Mapas Mentais, 1971, Anna Maria Maiolino

Maiolino mapeou seus deslocamentos físico e psíquico durante toda a vida apontando para questões do universo feminino de forma íntima e política; delicada e radical. E esse gesto está bastante claro neste núcleo de obras que giram em torno da ideia de território e identidade. Trata-se de uma mulher segmentada (não por acaso, esse é o nome de uma das esculturas da sala) que pode ser uma ou muitas –  que deseja e é desejada, que cuida, que silencia e que grita, que desaparece e emerge novamente com toda potência e vitalidade que lhe é natural e transforma a produção artistica em algo quase vital para sobreviver.

“Em 1968, Rubens Gerchman, seu então marido, ganhou um prêmio e foi para Nova Iorque. A Anna foi junto com os dois filhos pequenos e esse foi o momento de maior estrangulamento da sua produção e do reconhecimento dela como artista. Os recursos eram pequenos e eles não tinham rede de apoio. Ou seja: ela ficou totalmente responsável pelos trabalhos domésticos e ainda precisou trabalhar como designer para ajudar a manter os custos das crianças. Ela não conseguia produzir. Nesse momento, o Hélio Oiticica fala para ela ‘fazer o que der’. Então ela começou a desenhar nesses pequenos papéis enquanto estava em deslocamento no ônibus”, revela o curador diante da série de desenhos chamada Entre Pausas. “Anna não expõe um eu narcísico, mas um eu relacional nesses multiplos papéis que ela acumulou ao longo da vida”, completa. 

Anna Maria Maiolino_Tomie Ohtake
Série Entre Pausas, de Anna Maria Maiolino
Anna Maria Maiolino_Tomie Ohtake
Série Entre Pausas, Anna Maria Maiolino

Um trabalho importante é o poema Secret Poem, da série Mapas Mentais, feito em 1971 – a artista se autocensura riscando todas as palavras do poema. “Havia aqui uma dupla resistência: de um lado havia a censura da liberade de expressão do momento; do outro o próprio sistema da arte julgando os temas femininos como algo menor, óbvios e banais – era uma forma de desqualificar o trabalho. Apesar disso ela nunca abriu mão de colocar sua vida em primeiro plano. No fundo a postura é: a vida importa e ela é integral ao trabalho”, explica Miyada. 

Por um fio, da série Fotopoemação, 1976, Anna Maria Maiolino
Por um fio, da série Fotopoemação, 1976, Anna Maria Maiolino

Nesta seção, é possivel destacar algumas obras icônicas como Por um fio, da série Fotopoemações, na qual a artista se retrata ligada, por um fio,  à filha e à mãe; e o registro da performace Entrevidas – ela distribuiu ovos pela rua de seu ateliê no Rio de Janeiro, criando uma espécie de campo minado, e caminhou entre eles combinando as ideias de risco e cuidado. 

O ovo, aliás, é uma das constantes no trabalho de Anna. Miyada explica: “O ovo é um elemento porte porque ele acumula pelo menos três papéis. Primeiro, o ovo é um ponto. Depois, ele é símbolo do nascimento, da fertilidade, da geração de vida – algo fundamental para a existência dela e de muitas mulheres. E, por último, o ovo é uma forma excepcional, é um dos gestos mais simples e primeiros da espécie. Não estamos tratando da forma simples, por elaboração lógica, como é a geometria quadrada. O quadrado é simples porque se forma  por uma equação de dois pontos, mas ele é totalmente complexo em todos os outros sentidos. O ovo é o oposto: ele é simples como relação entre matéria, crescimento e as forças ao seu redor. São as formas simples e as forças que formam os seixos, os planetas e as formas do corpo que interessam. E o ovo é o arquétipo de tudo isso.”

Anna Maria Maiolino_Tomie Ohtake
Schhhiiii…, 1967, Anna Maria Maiolino

Aqui vale conferir, ainda, trabalhos como Corpo/Paisagem, também da série Fotopoemações, onde Anna investiga e fotografa as próprias rugas e marcas vendo-as como registros de uma paisagem ou mapa da passagem do tempo e da experiência do envelhecimento; e a instalação Aqui & Lá, criada pela primeira vez em 1994 e remontada na Documenta de Kassel. 

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O Herói, de Anna Maria Maiolono

Não, não, não

O segundo espaço reúne obras ligados à macropolítica. São trabalhos que denunciam e sugerem discussões sobre o totalitarismo, censura, repressão, desigualdade, a fome e a miséria – temas muito presentes em toda a América Latina, especialmente durante os regimes ditatoriais, mas não somente. O maior destaque é sua mais recente instalação: O amor se faz revolucionário, que parte de uma vontade de homenagear as  Mães de Maio – mulheres que perderam os filhos durante a ditadura militar argentina e se organizaram para protestar na frente da Casa Rosada com os nomes dos filhos bordados em lenços nas cabeças. Anna esculpiu rostos em cerâmica e os dispôs nas paredes de uma pequena sala onde é possível ver, pendurados no teto, tecidos brancos. “Aqui também são mapas de traumas, cortes, escapes e aprisionamento”, ressalta Miyada.  

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Arroz e Feijão, de Anna Maria Maiolino
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SOS no Trópico de Capricórnio, da série Mapas Mentais, 1974, Anna Maria Maiolino

Outro trabalho imperdível é o lendário Arroz e Feijão, criado em 1979, quando um grupo de artistas gerenciava um espaço na Aliança Francesa, em Botafogo. Anna comenta a dificuldade que aqueles artistas tinham de trabalhar juntos porque já tinham dez anos de AI 5 e 15 anos de regime militar. Foi tanto tempo de autocensura e paranória que eles estavam desacostumados a falar, a conversar, a negociar coisas básicas. Além disso, o mercado e as instituições de arte estavam desmantelados.

O resultado? Estavam totalmente precarizados, sem pagar alulguel e… passando fome. Ela monta essa instalação pela primeira vez respondendo a isso: na mesa central, coloca os pratos de terra com pratos de arroz e feijão que vão crescendo e, na lateral, ela monta outras mesas onde serve arroz e feijão. O espaço da mesa é, vale lembrar, reparador dos dois traumas: enche a barriga e é o melhor lugar para se estabelecer uma conversa. “Estamos acostumados com uma ideia de solidariedade onde você doa o pouco que te sobra. Eu acho que a Anna, por toda a trajetória de vida, está mais próxima de uma versão mais radical e revolucionária da solidariedade, que é compartilhar a fome. Você não tem o suficiente e outros também não. Então, vamos não ter juntos. Porque não estar juntos é melhor do que não ter de forma mesquinha e segregada”, pontua o curador.

O herói, de 1966, traz a imagem do ditador latino-americano cujo rosto transforma-se em uma caveira, indicando a morte que o cerca, e exageradamente condecorado – uma forma de apontar para a corrupção, pois o excesso de medalhas provavelmente não tem a ver com mérito, e sim vaidade; não é um reconhecimento, e sim demonstração de poder. Enquanto na série Andaços e In-Moto ela cria uma espécie de sismógrafo que retoma notícias sobre execuções de milícias, violência dentro de presídios e feminicídio no Brasil. 

Esta área abriga, ainda, obras que estiveram na exposição Aos Poucos, que Maiolino realizou em 1978 na Petit Galerie, no Rio de Janeiro. Entre os trabalhos, está Solitário ou Paciência, um jogo de paciência sem algumas cartas que sugere ao público a impossibilidade da reparação histórica diante dos anos de ditadura, tanto pela falta de vontade coletiva quanto pelas “cartas” que se perderam e não podem ser repostas.

Sete Segmentos, 2004, Anna Maria Maiolino
Sete Segmentos, 2004, Anna Maria Maiolino
Anna Maria Maiolino_Tomie Ohtake
Entre Si, da série Hilomorfos, Anna Maria Maiolino

Ações Matéricas 

Last but not least, a terceira sala é uma apresentação de trabalhos antigos e recentes onde a matéria e o gesto são tomados como ponto de partida, unindo a produção artistica e as ações cotidianas à ideia de nascimento da humanidade. Pressionar, moldar, cortar, agarrar, escorrer e rolar são algumas das ações básicas que Maiolino emprega enquanto lida com argila, tinta, vidro, concreto e outros materiais, resultando em uma prática visual e escultural fortemente ancorada na escala do corpo. “Mexer na argila, palpá-la e deixar a sua marca – são gestos muito atávicos. Antes do ser humano ser verdadeiramente humano, do ponto de vista evolutivo, ele já estava em contato com essas ações. É muito primevo mesmo”, explica o curador. “Quando você vê esse trabalho sendo preparado a imagem mais presente é de uma cozinha: todo mundo mexendo, apertando, juntando, contanto história ou brigando. É uma experiência coletiva de gestos simples”, completa. Não perca as obras da séries Da Terra – Errânicas Poéticas, uma espécie de coleção de diferentes topografias de argila; e, o conjunto de esculturas amórficas de metal fundido Entre si, da série Hilomorfos – a hilomorfia é uma teoria aristotélica de que tudo só existe pelo encontro da ação com a matéria; do gesto com a substância; do movimento com a consistência.

Fica ainda mais óbvio aqui como o trabalho de Anna é, de fato, espiralar. O tempo linear concebido pelo ocidente é quebrado (ou melhor, retorcido); as linguagens se interceptam; e, os temas oscilam entre protagonistas e coadjuvantes, mas estão sempre presentes. 

Anna Maria Maiolino_Tomie Ohtake
Sem título, da série Da Terra – Errânicas Poéticas, 2018, Anna Maria Maiolino
Anna Maria Maiolino_Tomie Ohtake
Sem título, da série Cobrinhas, 2018, Anna Maria Maiolino

Serviço:

Anna Maria Maiolino – psssiiiuuu…

Local: Instituto Tomie Ohtake

Endereço: Av. Faria Lima, 201 – São Paulo

Data: de 07 de maio até 24 de julho de 2022

Funcionamento: de terça a domingo, das 11h às 20h

Ingresso: grátis

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