Quem olha para Cecilia Vicuña, hoje com 72 anos de idade, vê uma senhora bela e simpática, mal pode imaginar a história de luta e resistência que a acompanha. Com sua atuação artística multifacetada, apresenta as algumas das questões que mais causam ansiedade no mundo contemporâneo: a destruição ecológica, os direitos humanos e e uma espécie de homogeneização cultural. A artista nasceu e cresceu em Santiago e se exilou no início dos anos 70, após o golpe militar contra o presidente eleito Salvador Allende, que instaurou a ditadura cruel de Pinochet.


Quipu Austral


Suas obras são fluidas e falam muito do movimento, por vezes começam como poemas, transformando-se em imagens que desembocam em filme, música, escultura ou performance coletiva. Essas ações efêmeras e específicas do local na natureza, ruas e museus se desdobram em uma certa ação ritualística muito importante para a artista que tem em si uma espiritualidade inerente. Segundo ela, seu trabalho é “impermanente e participativo”, sendo atos transformadores que preenchem a lacuna entre arte e vida, o ancestral e a vanguarda.

Quipu Womb, 2017

O trabalho artístico e a vida de Vicuña foram moldadas pelo exílio de seu país natal, o Chile e pelas conturbações que foram vividas por ela quando ainda estava por lá lá. Seu trabalho dialoga de forma veemente com questões cruciais de nossa época, mas carregam uma certa efemeridade poética que é sustentada por inquietações políticas, ecológicas e sociais.

Em 1967, no Chile, a artista foi fundadora do Tribu No, um grupo que criou ações poéticas anônimas em toda a capital do país. Em 1974, exilado em Londres, cofundou o Artists for Democracy para se opor às ditaduras no em países subdesenvolvidos.

Disolución, Concón, 2009

A artista já expôs em algumas das mais importantes instituições do mundo, como o The Institute of Contemporary Arts (ICA), em Londres; o Whitney Museum of American Art e o MoMA, em Nova Iorque, e o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ). Dentre sua produção editorial, estão mais de duas dezenas de livros de arte e poesia.

Em Artists for Democracy: Archivo de Cecilia Vicuña, a crítica de arte e curadora Lucy R. Lippard, escreve: “Poucos artistas tão afetados por uma vida inteira de circunstâncias políticas encontraram maneiras tão poéticas de reagir aos ventos do terror, da mudança e da esperança”. De fato, Vicuña entrelaça várias sensibilidades no encontro dos fios que compõem os tecidos que materializam algumas de suas obras mais conhecidas e que ressignifica em vários pontos o que é uma mulher de muita fibra.

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