Arjan Martins apresenta individual na Gentil Carioca

Artista pesquisa os fluxos do Atlântico, apresentando personagens que já foram marginalizados e hoje assumem um novo papel na sociedade

Arjan Martins, Sem Título [Untitled], 2019
Arjan Martins, Sem Título [Untitled], 2019. FOTO: Cortesia o artista e A Gentil Carioca

Se há um único elemento que nos une, deve ser água – geograficamente, politicamente, economicamente, biologicamente ou metaforicamente. Se pelos mares viajavam homens e ideias, é nos mares que se encontram boa parte das nossas memórias. De forma fluida e, ao mesmo tempo, aterrorizante. Não à toa, caravelas, bússolas, mapas e coroas aparecem com frequência nas telas do carioca Arjan Martins, que apresenta Descompasso Atlântico, sua segunda individual na Gentil Carioca.

Arjan pesquisa os fluxos humanos do Atlântico em busca de histórias de resistências e conexões simbólicas, políticas, culturais e existeciais que se deram a partir desses deslocamentos – especialmente no caso dos negros de ascendência africana.  Seja pela escravidão pela necessidade do refugio, africanos seguem obrigados a abandonar seus lares: se antes eram amontoados em grandes barcos à força, hoje eles lotam pequenos botes para sobreviver; se antes encontravam a morte por maus-tratos, hoje são engolidos por ondas impiedosas – há mais de três séculos, portanto, o Atlântico é um grande cemitério. 

Arjan Martins, Sem título, 2021
Arjan Martins, Sem título, 2021. FOTO: Cortesia o artista e A Gentil Carioca

Representa rostos dissolvidos, quase líquidos, para falar sobre identidade sem expor seus personagens: desde mulheres com bacias de frutas até garotas à frente de protestos do #blacklivesmatter, passando por personagens de capas de discos e filmes – todo pode ser assunto desde que sejam figuras que outrora foram marginalizadas mas hoje assumem um papel bastante diferente na sociedade. Eles habitam o cotidiano, caminham, trabalham, estudam, lembram e sonham,  apesar de ainda sofrerem violências ( físicas e morais) diariamente. Arjan reconhece, portanto, que suas existências vão além da tarefa de se lembrar do trauma e elabora, como define o curador Paulo Miyada, um “retrato multitemporal e pluri geográfico da negritude enquanto memória, presença, luta e imaginação”.

Paralelamente à exposição montada na galeria, como ação externa e pública da mostra, Arjan criou uma instalação de birutas, aparelhos destinados a indicar a direção dos ventos, que fundem-se as bandeiras marítimas e seus códigos internacionais para transmitir mensagens entre embarcações e portos.  Desta forma, relaciona símbolos marítimos com o tráfico de pessoas escravizadas, revelando no nosso dia-a-dia as questões sociais não resolvidas da nossa história. 

Arjan Martins, Sem título [untitled], 2021. FOTO: Cortesia o artista e A Gentil Carioca
Arjan Martins, Sem título [untitled], 2021. FOTO: Cortesia o artista e A Gentil Carioca

 Em tempo: a exposição está virtualmente integrada ao Galleries Curate, uma plataforma que reúne um grupo de galerias contemporâneas de todo o mundo, com o objetivo de discutir como lidar com novos desafios da atualidade. O primeiro “capítulo”, chamado de RHE ( “fluir” em grego),  é costurado por artistas e exposições que abordam um tema em comum: a água. 

Descompasso Atlântico
Data: Até 25 de junho
Local: Gentil Carioca Endereço: Rua Gonçalves Lédo, 17 – Centro, Rio de Janeiro