Arquiteto ex-escravizado ganha estátua em São Paulo

O artista Lumumba Afroindígena e a arquiteta Francine Moura irão criar uma estátua de Tebas para celebrar o mês da Consciência Negra

Trabalho do artista Lumumba Afroindígena, responsável pela estátua de Tebas
Trabalho do artista Lumumba Afroindígena, responsável pela estátua de Tebas

Junho deste ano entrou para a história. Não só pelo o ápice da primeira onda de contágio do COVID-19 , mas também pela morte de George Floyd e intensificação do movimento #blacklivesmatter no mundo inteiro, inclusive no Brasil, que levou o mundo da arte a fazer uma revisão de sua própria história. Parte desse movimento consistiu num questionamento sobre estátuas públicas: cidades do mundo eternizaram figuras contraditórias e, muitas delas, escravocratas. O resultado? Alguns manifestantes que lutavam pela igualdade racial e pelo fim da violência gratuita e exagerada contra pessoas racializadas começaram a derrubar ou fazer interferências em estátuas que fazem menção a figuras racistas, genocidas e/ou colonizadoras.  

Como já sabemos, o Brasil foi o último país a abolir a escravidão. Portanto, não é de se estranhar que tenhamos muitas estátuas que precisam ser re-avaliadas. A grande dúvida, no entanto, é o que fazer com estas obras: Destruí-las? Substituir por novas? Eliminar qualquer sinal de sua existência e apagar nosso passado violento sob o risco dele se repetir? Artistas, curadores e ativistas se dividem quando a questão é levantada. Mas há um consenso: precisamos imortalizar e celebrar novos heróis, construir novos signos e, talvez,  mudar a forma de pensar das próximas gerações. 

No Brasil, quem deu o start para esse novo mundo foi a cidade de São Paulo: para comemorar o mês da Consciência Negra, a Secretaria Municipal de Cultura encomendou ao artista Lumumba Afroindígena  e a arquiteta Francine Moura uma estátua do arquiteto Joaquim Pinto de Oliveira, conhecido como Tebas, que será inaugurada na Praça Clóvis Bevilácqua – face leste da Praça da Sé. 

Originário da cidade de Santos, Tebas foi trazido para a capital pelo mestre pedreiro português Bento de Oliveira Lima, seu senhor, em 1740, com exímia habilidade na técnica da cantaria – arte de talhar blocos de rocha bruta para constituir sólidos geométricos, normalmente paralelepípedos, de variável complexidade, para utilização na construção de edifícios ou de muros.Rapidamente Tebas passou a ser disputado pelos templos católicos, na São Paulo do Brasil-Colônia. A ideia das ordens religiosas era substituir a taipa de pilão para adornar com detalhamento mais requintado as fachadas das igrejas do triângulo histórico paulistano. 

O local escolhido para a estátua não foi aleatório, Tebas construiu a primeira torre da Matriz da Sé em 1750 e, em 1769, reformou a mesma Torre da Sé. No mesmo ano, um feito inétido: o arquiteto negro comrou a própria alforria, aos 57 anos de idade, 110 anos antes da abolição da escravidão no país! 

Nos anos seguintes, ele foi responsável pelos ornamentos originais dos conventos da Ordem 3ª do Carmo; Ordem 3ª do Seráfico Pai São Francisco; e, Mosteiro de São Bento. Em 1791, o arquiteto ainda construiu uma fonte pública conhecida como o “Chafariz de Tebas”, no Largo da Misericórdia, onde, atualmente, está o cruzamento das ruas Direita, Quintino Bocaiúva e Alvares Penteado, na região central de São Paulo. 

A obra tem o objetivo de firmar e reverberar a expertise e modernidade do legado de Tebas, revelar de modo artístico a sua produção tecnológica sofisticada para a época e propor  uma reflexão que recobra a relevância da ocupação territorial preta em área central da cidade. “A obra suspensa no ar dará uma ideia de ascensão, como se ela emergisse para fora, do período da escravidão, desse universo perverso, ao mesmo tempo em que temos a presença do high tech, que faz um contraponto ao componente perecível, da corrente de ferro comum, que ficará na base da estrutura ao inox que é um material mais contemporâneo”, contextualizam os autores. Um legado que precisa ser perpetuado.

Joaquim Pinto de Oliveira, conhecido como Tebas
Joaquim Pinto de Oliveira, conhecido como Tebas