Carla Chaim apresenta nova produção artística em individual Febre

Artista radicaliza em Febre e traz um corpo que sangra como protagonista de sua terceira individual na Galeria Raquel Arnaud

Tempo de leitura estimado: 3 minutos

Carla Chaim
Vista geral de Febre na Galeria Raquel Arnaud

Foi sentada desenhando no chão que Carla Chaim começou a perceber que seu próprio corpo fazia parte daquele espaço, daquele desenho. Tendo o corpo como instrumento de trabalho, suas obras expandem os limites entre a performance e o desenho, ao mesmo tempo em que projetam afinidades entre a dança e as artes visuais.

Durante os anos de 2006-2011 a artista teve seu ateliê localizado no centro de São Paulo, o que fez com que índices da brutalidade da cidade fossem incorporados a materialidade de suas obras. É neste período em que ela começa a trabalhar com grids, tonalidades de cinza e a compreender os limites do corpo em sociedade. Sintomas que permanecem vivos até os dias de hoje em sua poética.

Carla Chaim
Vista geral de Febre na Galeria Raquel Arnaud

Desde seus primeiros trabalhos, é possível notar a criação de um sistema coreográfico na elaboração dos desenhos. A experiência corporal é o motor de sua investigação, seja pautada pela regra ou pela improvisação. Como coloca André Lepecki, em Coreopolítica e coreopolícia de 2013, a coreografia “é, antes de tudo, a matéria primeira, o conceito, que nomeia a matriz expressiva da função política.”

É por este conceito coreográfico que Febre é anunciada. Trata-se de um corpo em pausa pela pandemia, porém em movimento pelas tensões políticas que nos são contemporâneas. Deste modo, a artista questiona: “Que corpo é esse que deixa seu gesto, sua marca como cicatriz, corte e arranhões no mundo e vai embora? O que acontece com esse corpo que golfa suas vivências? Que mundo é esse, tão atormentado?”

Carla Chaim
ELA, 2020, de Carla Chaim
Carla Chaim
Mão dormindo, 2021, de Carla Chaim

A presença do corpo que arde em Febre é tão expressiva que poderíamos dizer que esta é uma exposição de performance, mesmo expondo apenas desenhos, pinturas e vídeos. Arranhar, cortar, bater e amassar são alguns dos verbos que se repetem nas coreografias que constituem os trabalhos em exposição. E se antes as cores preto e branco davam o tom deste corpo coreografado, agora elas estão acompanhadas da cor vermelha. Do vermelho que transborda sobre o asfalto da cidade que sangra.

A coreografia de um sistema regrado, com trabalhos que partem do ato de desenhar concomitantemente com as duas mãos, passa a conviver junto a coreografia de um sistema descontrolado. Raiva, indignação e tristeza são algumas das sensações que estão presentes no processo criativo de Febre. Nas palavras da artista, “Acredito que o corpo é uma entidade viva que está sempre em modificação e é colocado a prova como estado de transgressão também na arte”.

Carla Chaim
Vista geral de Febre na Galeria Raquel Arnaud

Mas a dobra na produção de Carla Chaim vai além da coreografia e da paleta cromática, ela ainda se faz presente nas pinturas de óleo sobre linho e no modo como a maioria dos trabalhos estão dispostos no espaço. Há uma espécie de galeria dentro da própria galeria, estruturada por grids de madeira que suspendem os trabalhos. Uma estrutura que permite que o espectador veja também o verso das obras.

A respeito das pinturas de óleo sobre linho, vale mencionar a série “Tapas”, de 2020. São trabalhos que imprimem as marcas dos dedos das mãos da artista após o ato de tapear. Uma série que, pelo tamanho das telas, sugere a expressão de um tapa na cara. É com este gesto que Febre faz o corpo arder ao sussurrar nos ouvidos de seus visitantes: se o sangue está literalmente escorrendo nas ruas, por que com a arte haveria de ser diferente?

Carla Chaim
Tapas, 2020, de Carla Chaim

Febre

Local: Galeria Raquel Arnaud

Endereço: R. Fidalga, 125, São Paulo

Data: Até o dia 18 e dezembro

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