Central Galeria abre primeira individual de Sergio Augusto Porto

Novo artista representado pela galeria, Sergio Augusto Porto foi um dos pioneiros da arte conceitual no Brasil dos anos 1970

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Série Reflexos, do Sergio Augusto Porto
Série Reflexos, do Sergio Augusto Porto

50 anos em 5 – essa era a promessa de Juscelino Kubitschek. Quase da noite para o dia o então presidente do Brasil transformou um campo de barro e árvores contorcidas na mais nova capital do país, um marco do modernismo no mundo inteiro. Imagina ter apenas 14 anos e chegar nesse lugar marcado por transformações gigantescas e diárias?  Foi o que aconteceu com o artista Sergio Augusto Porto, que abre hoje a sua primeira individual na galeria Central apresentando obras criadas desde os anos 1970 até 2021, sob curadoria de Diego Matos – todas “impregnadas” por sua vivência única ligada às paisagens de Brasília e, mais tarde, do Rio de Janeiro que, na década de 1970,  foi marcado pela construção do Aterro do Flamengo, a finalização do MAM RJ e a ocupação urbana na Barra da Tijuca com base no projeto de Lucio Costa.

Subverter a paisagem constantemente – essa sempre uma premissa natural no trabalho de Sergio, que estudou arquitetura e urbanismo na UNB e acabou desenvolvendo um olhar afiado para as linhas do mundo.  Seu interesse pelos efeitos dos espelhos na paisagem começou quando observava o lago Paranoá, Sergio teve a ideia de inserir um elemento naquela árida paisagem para “quebrar” a linha do horizonte. Fincou dois espelhos no solo em diagonal jogando o reflexo do horizonte para o alto, numa diagonal. Nascia a série Reflexos, composta por diversos experimentos com luz, sombra, reflexos e transparências. 

Série Reflexos, do Sergio Augusto Porto
Série Reflexos, do Sergio Augusto Porto

Sem dúvidas o contexto de Brasília afetou seu trabalho e de vários outros artistas pioneiros da arte conceitual que estudavam e criavam na nova capital, como Alfredo Fontes, Cildo Meireles, Guilherme Vaz, Luiz Alphonsus, Thereza Simões e Umberto Costa Barros. Membros do chamado Grupo de Brasília, eles foram influenciados pela paisagem árida e, ao mesmo tempo, hipnotizante. Cildo retoma a atmosfera da região em Blindhotland, enquanto Sergio cria uma série de fotografias e pinturas que fazem referência ao típico horizonte do cerrado, onde o azul intenso do céu encontra o barro vermelho. No políptico Brasília | paisagem fragmentada, ele não quebra apenas o horizonte, despedaça também a moldura.

Sergio Augusto Porto
Políptico Brasília | paisagem fragmentada, de Sergio Augusto Porto

Outro ponto importante é que eles estudaram no colégio Ciem, instituição vinculada à UNB que tinha um material de pesquisa importante. A escola assinava todas as publicações de arte e, por isso, a turma de Brasília acabou tendo um acesso precioso aos movimentos do resto do mundo. “Eu ficava mergulhado na biblioteca, lia tudo sobre minimal art, arte povera e land art“, revela o artista que, muitas vezes inconscientemente, criou tantas vezes obras que amplificaram o zeitgeist da época. 

Sergio Augusto Porto
Sergio Augusto Porto

“Foi na virada dos anos 1960 para os anos 1970, em pleno recrudescimento da ditadura civil-militar brasileira, que a arte experimental realizou um movimento conceitual e material de dentro para fora e de fora para dentro: ampliou-se o lugar de realização dos trabalhos, constituíram-se situações fora do controle e da contenção institucional, realizaram-se experimentações sem domínio dos resultados e, de forma radical, promoveu-se uma ruptura escalar da natureza da obra de arte”, apontou o curador. 

Quando a turma de Brasília chega no Rio de Janeiro, há uma  aproximação com Frederico Moraes, no MAM que ainda estava inacabado, e uma vontade de sair para fora da zona de controle do museu.”Frederico conta que uma das atividades do curso era pegar materiais diversos e levá-los para lugares distantes. A ideia era trabalhar com resquícios de construção. E o Sérgio viveu esse contexto”, ressalta Diego. À medida que as proposições dessa geração ganharam escala urbana, Sergio passou a criar situações e a realizar intervenções efêmeras na paisagem que, por sua vez, foram registradas de forma visionária e singular, desdobrando-se em instalações, fotografias e objetos. Revela-se aí, portanto, um desejo de pensar a escultura por meio das diversas possibilidades e caminhos estéticos oferecidos pela fotografia e pelo audiovisual. Foi com uma projeção, aliás, que Sergio foi premiado na 12a Bienal de São Paulo, em 1973. 

Depois de Brasília, ao retornar para o Rio de Janeiro em 1971, o artista continuou a ver e vivenciar paisagens em ampla mutação, especialmente no Aterro do Flamengo e na Barra da Tijuca. E foi na Barra, inóspita naquela época, que ele realizou a instalação Projeto para uma auto-estrada/Faixa-relevo,  revelando seu olhar singular para locais limítrofes entre o natural e o construído; entre a realidade e a representação; entre a linha do desenho e a percepção visual. Trata-se de uma “radicalização do espaço da experiência como ficção”. 

Projeto para uma auto-estrada/Faixa-relevo, de Sergio Augusto Porto
Projeto para uma auto-estrada/Faixa-relevo, de Sergio Augusto Porto

 “A presença da natureza era muito potente tanto em Brasília quanto no Rio de Janeiro, foi inevitável olhar para o meio ambiente. Primeiro eu comecei a inserir objetos na paisagem, depois passei a tentar aprendê-la de alguma forma”, relata Sergio que participou da Bienal de Veneza de 1976 com uma instalação composta por folhas e gravetos que o artista coletou em diferentes parques do Rio de Janeiro. “Foi um sucesso, todo mundo queria levar para casa as folhas do Brasil, se eu soubesse teria levado sacos de folhas para distribuir”, brinca o artista. “Nasceu ali uma preocupação genuína com a natureza mas o conceito de arte ecológica ainda não existia”, conclui. 

Instalação de Sergio Augusto Porto para a Bienal de Veneza de 1976 trazia uma pioneira relação com o meio ambiente
Instalação de Sergio Augusto Porto para a Bienal de Veneza de 1976 trazia uma pioneira relação com o meio ambiente
Para a instalação de na Bienal de Veneza de 1976, Sergio Augusto Porto coletou folhas de diferentes parques do Rio de Janeiro
Para a instalação de na Bienal de Veneza de 1976, Sergio Augusto Porto coletou folhas de diferentes parques do Rio de Janeiro

Ao longo dos meses daquela Bienal de Veneza, as folhas foram apodrecendo – processo que marcou outro aspecto precursor do trabalho de Sergio: a desmaterialização da obra veio para desvincular a arte da ideia de objeto e autoria. Obras perecíveis e efêmeras passaram a fazer parte do seu rico repertório. São criadas para se desfazer e se transformar, caso das gigantescas  pedras de gelo que ele levou para a praia ou a que expôs na galeria Ipanema, com a intenção de vê-las se convertendo em água, se transfigurando.  

Sergio Augusto Porto: de dentro para fora, da experiência à imagem

Data: Até dia 25 de setembro

Local: Central Galeria

Endereço: R. Bento Freitas, 306 – Vila Buarque

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