Cinco obras de arte e ativismo para “celebrar” a República

Neste 15 de novembro apresentamos artistas ativistas que nos convidam a problematizar a presença dos monumentos coloniais

1628, de Gian Spina
1628, de Gian Spina

Ano que vem comemoramos o ducentenário da Independência do Brasil, mas como tudo neste país é complexo, só nos tornamos uma República sessenta e sete anos depois. Se no dia 7 de setembro de 1822 Dom Pedro I deu o grito de “Independência ou morte”, foi somente em 15 de novembro de 1889 que deixamos de ser governados por um imperador; sendo o último país da América a concretizar este feito. Vale também lembrar que fomos o último país do continente a abolir a escravidão, apenas um ano antes de nos tornarmos República. Todavia, nossa história enquanto um país livre, por assim dizer, é jovem e leva consigo marcas latentes da colonização. 

Felizmente, cada vez mais, estudos decoloniais nos convidam a revisitar a história para recontá-la desde o ponto de vista do subalterno.  Não há dúvidas de que estamos vivendo o início de um longo período de revisão histórica – tanto nos países que foram colônias, como nos que foram impérios.

Um movimento emblemático desta virada é retirada dos monumentos coloniais dos espaços públicos, como por exemplo da estátua de um general escravista nos EUA em 2017 e de um traficante de escravos na Inglaterra em 2020. No Brasil, artistas e ativistas também aderiram às manifestações que pediam uma revisão histórica dos heróis homenageados em nosso país e conseguiram a promessa de novas estátuas de outro tipo de heróis. Carolina Maria de Jesus, Adhemar Ferreira da Silva, Itamar Assumpção, Madrinha Eunice e Geraldo Filme. Ações que só foram possíveis graças a  reorganização da sociedade civil.

Pensando nisso, selecionamos cinco trabalhos de arte e ativismo que nos convidam a refletir sobre a presença dos monumentos que reforçam narrativas coloniais na cidade de São Paulo: Qual o impacto destes monumentos na construção da história do Brasil? O que estas imagens têm a agregar à cidade quando não contextualizadas? Quais os limites entre arte e ativismo? Por que este debate está acontecendo? Qual sua importância? 

1628, 2018, de Gian Spina

Baseado no texto do jesuíta Antonio Ruiz de Montoya, o filme 1628, realizado pelo artista Gian Spina em 2018, combina relatos de histórias de genocídio indígena protagonizadas por bandeirantes e imagens de monumentos dedicados a estes. Colocando em perspectiva a historiografia apologética colonial construída durante a primeira metade do século XX, o trabalho problematiza o quão contraditório e grave é a permanência do discurso dos bandeirantes enquanto heróis paulistas.

Ensacamento,1979, de 3NÓS3

Formado pelos artistas Hudinilson Jr. (1957-2013), Mario Ramiro (1957) e Rafael França (1957-1991), o grupo 3NÓS3 realizou em 1979 um trabalho que segue atual nos dias de hoje. Ensacamento consistiu a ação de ensacar com plástico preto 68 cabeças de estátuas públicas durante a madrugada. Após o ato, o grupo fotografou suas intervenções e ligou para a imprensa simulando discursos de vizinhos indignados com o suposto vandalismo. Em alusão à prática de sufocamento utilizada pelos militares, o trabalho põe em diálogo a brutalidade da Ditadura Militar e a violência praticada pelos homens homenageados nos monumentos paulistas. 

ensacamento, de 3NÓS3
ensacamento, de 3NÓS3
Ensacamento,1979, de 3NÓS3b
Ensacamento,1979, de 3NÓS3

Ibiritaquera, Pedro França, 2020

O artista construiu uma maquete e criou um filme com o objetivo de propor um restauro da várzea no entorno do “Monumento às Bandeiras”, em São Paulo, com o objetivo de repensar o significado da obra de Victor Brecheret para a História do Brasil. 

Ocupando parte da área original do parque do Ibirapuera desde 1954, o monumento homenageia os Bandeirantes, portugueses e brasileiros caçadores de gente e de minérios que conduziram expedições ao interior do continente ao longo do século 17. 

É importante notar que o monumento foi instalado no eixo entre o litoral paulista e a floresta amazônica e que os cavalos apontam para o norte, aludindo ao trajeto dos bandeirantes. Antes, a região do Ibirapuera (palavra tupi que significa “madeira podre”) era parte da várzea do rio pinheiros – uma região pantanosa e lamacenta que foi drenada na primeira metade do século XX, quando os rios urbanos eram a associados a doenças. 

Pedro França
Projeto para restauro da várzea no entorno do “Monumento às Bandeiras”, de Pedro França

O projeto de restauro da várzea  no entorno do monumento aconteceria, de acordo com Pedro França, com base em 4 pontos:

1.Retorno: Girar o monumento em 180º. Apontando a cabeça dos cavalos de volta para o litoral. Os cavalos voltam a apontar para o mar!

2.Desmontar a infraestrutura de asfalto, cabos, encanamento, postes, sistemas de drenagem etc. repondo parte dos buracos resultantes com terra e refazendo a conexão com córregos e rios. Com o tempo, a vegetação úmida da várzea deve retomar a região.

3.Parte dos detritos removidos da infraestrutura devem ser empilhados em uma das bordas dessa nova área, criando um volume semelhante ao do monumento às Bandeiras – sua “sombra”. Com o tempo, as águas subterrâneas sobem e as pedras afundam. O mato cresce e a várzea retoma a região. 

4. O novo pântano se torna um espaço aberto, sem função específica. Não é um parque. É um buraco no mapa.

Tanto o filme quanto a maquete do projeto de restauro da várzea no entorno do Monumento às Bandeiras poderão ser vistos na individual do artista que abre esta semana na galeria Jaqueline Martins.

Brasil Terra Indígena,  Denilson Baniwa, 2020

Inaugurando a exposição Vozes contra o racismo, realizada a céu aberto na cidade de São Paulo em 2020, o artista Denilson Baniwa apresentou o trabalho Brasil Terra Indígena. Com imagens de plantas, seres espirituais e animais primordiais indígenasBrasil Terra Indígena foi projetado sobre o Monumento às Bandeiras. Conforme coloca o curador da mostra, Hélio Menezes, “As obras são realizadas por artistas que têm disputado também no campo da representação visual, outras narrativas sobre a história do país, outras narrativas sobre a construção de imaginários, de estereótipos e de usos da cidade.”

Brasil Terra Indígena, de Denilson Baniwa
Brasil Terra Indígena, de Denilson Baniwa

Fogo no Borba Gato, Revolução Periférica, 2021

Realizada pelo grupo Revolução Periférica no dia 24 de setembro deste ano, a ação consistiu em atear fogo na estátua de Borba Gato, localizada no bairro de Santo Amaro. Como destaca Paulo Galo, liderança do movimento dos Entregadores Antifascistas e membro do grupo, com este ato “abrimos o debate sobre monumentos que homenageiam racistas”. Mesmo não sendo um trabalho de arte, a ação gerou imagens impressionantes que podem ser interpretadas desde um ponto de vista estético e conceitual.  

Fogo no Borba Gato, por Revolução Periférica
Fogo no Borba Gato, por Revolução Periférica