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“Manhaba’u: onde toca o invisível” de Gustavo Caboco na Millan

22 junho @ 10:00 20 julho @ 19:00

Gustavo Caboco, As águas nos chamaram e o pajé Maruwai conversou com as mães das nascentes, 2023. Foto: Ana Pigosso

Gustavo Caboco (1989, Curitiba/Roraima, Brasil) apresenta sua nova exposição na Millan: Manhaba’u: onde toca o invisível, na qual manifesta seu pensamento sobre a memória e a luta indígena histórica e contemporânea. Ao reunir pinturas, bordados, objetos e instalações, na maioria inéditos, o artista propõe reflexões sobre o tempo e a memória da Terra, as relações de consumo e a crise climática, as histórias dos fios e da costura como forma de resistência do povo Wapichana. Seu trabalho destaca o que ele denominou “coma colonial”: violências e legados colonialistas escancarados que, no entanto, por serem naturalizados, costumam passar despercebidos. A exposição inaugura no sábado, 22 de junho, e fica em cartaz até 20 de julho.

Um dos cocuradores do Pavilhão Hãhãwpuá — que representa o Brasil na Bienal de Veneza, atualmente em cartaz na Itália —, Gustavo Caboco é um artista do povo Wapichana cuja produção se desdobra nas áreas das artes visuais, do cinema e da literatura. Manhaba’u é exemplo de como essas diferentes linguagens se entrecruzam em sua prática.

Entre os pontos de partida dessa nova exposição está o livro Literatura do invisível. Publicado pelo selo independente Picada (fundado pelo artista), o título teve seu lançamento na Flip 2023, onde Caboco foi um dos autores convidados. Trata-se de um ensaio-manifesto que propõe um diálogo com os diversos seres literatos da Terra, lidando com questões dos direitos indígenas e ambientais. “Nesse contexto expositivo, a publicação torna-se objeto-curatorial e embasa o pensamento expográfico e a seleção de obras apresentadas”, explica o artista.

O enfoque na perspectiva wapichana é perceptível em obras concebidas especialmente para a mostra. Na obra Kynharyd, fio forte e a saúde das mulheres, criada em conjunto com sua mãe, Lucilene Wapichana, Caboco relaciona a saúde da Terra e dos pés de algodão com a saúde da mulher indígena. Os bordados da série AMAZAD retratam figuras femininas “prenhas do planeta Terra”, como ele define. “Se a Terra é mãe, existe também uma mãe da Terra, e essas doenças do consumo, das medicinas e vazios, estão representadas na obra.”

A fricção entre o modo de vida capitalista e as comunidades indígenas de Roraima perpassa a instalação Roraimarte II e a série de pinturas Povo da mercadoria. Aqui, Caboco aborda o extrativismo e o apagamento cultural, apresentando elementos da terra convertidos em produtos industrializados.

Em Costura é resistência indígena, seis objetos do ateliê de costura de Lucilene Wapichana são preservados em resina com suas respectivas fichas catalográficas. Apoiadas sobre bases de madeira (troncos de castanheira amazônica recuperados da apreensão de desmatamento ilegal), essas peças contribuem com a historiografia da luta das mulheres indígenas. Se a introdução da máquina de costura nas comunidades wapichana foi uma imposição colonialista, a criação de fios, os fusos e o tecer sempre fizeram parte das tradições desse povo. Nesse sentido, a apropriação da costura tornou-se um método de resistência e autonomia.

Manhaba’u: onde toca o invisível trata de “pensar o invisível a partir de meu lugar de origem, mas também nos conectar com essas linhas invisíveis que nos tocam, buscando, assim, propor ações de formação e fortalecimento de nossa presença e relação com a Terra”, resume Gustavo Caboco.

A exposição abrange os desdobramentos de diversos projetos recentes do artista. Em uma parceria com o SDCELAR, do British Museum, na Inglaterra, o artista investigou a presença de objetos wapichana em instituições museológicas e promoveu o Ateliê lavrado, em 2023, fortalecendo o saber da costura e o diálogo da comunidade em aldeias no Brasil. Gustavo Caboco assina a curadoria do Pavilhão Hãhãwpuá, o pavilhão do Brasil na 60ª Bienal de Veneza, na Itália, ao lado de Arissana Pataxó e Denilson Baniwa.

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