Paz Errázuriz começou a fotografar na década de 1970, em plena ditadura militar chilena. Com sua câmera, registrou os habitantes do país, sobretudo grupos que não se enquadravam nos padrões sociais. Em sua produção, que se estende até os dias de hoje, captou as contradições de sua terra natal, tornando-se um dos principais nomes da fotografia chilena. A retrospectiva abre no dia 17 de março, no IMS Paulista, e Errázuriz não virá mais para o evento de abertura, devido à crise da epidemia do Coronavírus; a mostra, no entanto, continuará em cartaz para alegria do público paulistano e que estiver visitando a cidade.

Primeira grande retrospectiva de Paz Errázuriz, a exposição reúne cerca de 150 fotografias produzidas da década de 1970 até os anos 2010. Dividida em dez eixos temáticos, a seleção evidencia as relações de empatia e confiança estabelecidas pela fotógrafa ao longo de sua carreira. Nascida em Santiago em 1944, a artista começou a trabalhar como professora primária. Com o golpe de Estado, parou de lecionar. Na década de 1970, de forma autodidata, passou a fotografar. Em 1981, fundou a Associação de Fotógrafos Independentes (AFI), uma importante organização de profissionais, que documentava a resistência ao regime. Nesse primeiro período, registrou as ruas de sua cidade natal e também cobriu manifestações contra a ditadura, em especial as atividades do grupo Mulheres pela Vida.

Os registros de eventos políticos, no entanto, não foram o principal tema abordado pela fotógrafa. Com o tempo, Errázuriz optou pelo retrato como principal forma de expressão, mirando suas lentes em indivíduos cujas vidas eram formas de resistência às normas vigentes e ao conservadorismo do período. Para realizar os retratos, a artista cultiva uma relação de confiança com os fotografados, retornando várias vezes aos mesmos cenários. Um dos locais que Errázuriz conviveu por bastante tempo foi o hospital psiquiátrico Philippe Pinel de Putaendo, a 200 quilômetros de Santiago.

Outra série importante de sua carreira, também presente na retrospectiva, é O pomo de adão. Errázuriz registrou a rotina de transexuais que trabalhavam em bordéis de Santiago e Talca. Ela retrata o cotidiano das protagonistas, com imagens delas andando pelas ruas, preparando-se para o trabalho, maquiando-se e habitando seus pequenos quartos, numa rotina de resistência à constante violência policial à qual eram submetidas. Nessa série, Errázuriz questionava a moral de uma sociedade extremamente autoritária, refletindo sobre os papéis de gêneros, a desconstrução do ideal de masculinidade e o próprio conceito de minorias, como afirma: “Eu reverto o termo minoria. Eles são definitivamente maioria. Os supersofisticados e superprivilegiados são, na verdade, a minoria.”

Em cartaz até 26 de julho, a retrospectiva traz ainda outros trabalhos importantes de Errázuriz, como os registros de uma comunidade de cegos ou seus retratos de pessoas idosas nuas, presentes na série Corpos; um trabalho com a etnia indígena Kawésqar, que habitava a costa dos arquipélagos da Patagônia ocidental; e o trabalho sobre o universo do boxe, no qual conseguiu acesso à Federação de Boxe Chilena, onde produziu a série A luta contra o anjo. Em todos, ela apresenta um olhar comprometido com os sujeitos, prestando atenção especialmente às formas de resistência do cotidiano, em uma sociedade privada de liberdades. “Fico feliz por ter permanecido no Chile durante a ditadura. Não foi fácil, mas, por outro lado, estava em minhas mãos organizar meu trabalho, minha maneira de viver. Isso me ajudou a clarear o pensamento e me deu coragem para fazer o que fiz como cidadã e artista”, afirma.

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Paz Errázuriz: coleções Fundación MAPFRE
Abertura: 17/03/2020.
Visitação: até 26/07/2020; terça a domingo, 10h-20h; quintas, 10h-22h.
IMS Paulista: Avenida Paulista, 2424, São Paulo. Entrada gratuita.

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