Muitas vezes os livros de arte que consumimos partem da visão e perspectiva de críticos, curadores e pesquisadores que se dedicam a estudar a história da arte, a vida e obra de criadores, movimentos estéticos específicos e as principais transições entre eles. Só que nos esquecemos que os próprios artistas podem ser fontes muito ricas de escrita sobre seus próprios trabalhos, seus contextos e suas épocas!

A partis da década de 1950, os artistas passara a, cada vez mais, escrever textos e ensaios sobre suas produções e seu meio, proliferando uma forma única de abordar a história da arte pelo ponto de vista dos próprios criadores. Com isso em mente, a crítica de arte Glória Ferreira decidiu organizar uma espécie de antologia dos textos produzidos nos anos 1960 e 1970 por artistas e grupos brasileiros e estrangeiros que trabalham/trabalhavam em diferentes suportes. O resultado, alcançado em colaboração com Cecilia Cotrim, foi uma publicação que ajuda a entender as tantas quebras e rupturas que se operaram no campo da arte naquelas décadas, contribuindo para uma reflexão sobre os pensamentos estéticos contemporâneos.

A coletânea traz tanto escritos por vezes considerados clássicos até agora indisponíveis no Brasil, quanto ensaios que, na reflexão particular do artista, indicam uma nova abordagem da sua produção. São 50 textos escolhidos por sua relevância para a produção do entendimento da arte contemporânea, ou para sua própria construção.

Os ensaios foram reproduzidos na íntegra, sem edições ou cortes, e o livro segue a ordem cronológica de suas publicações originais, nos casos em que já haviam circulado em revistas, jornais, ou outras coletâneas. Em destaque, por exemplo, está o hilário manifesto do Grupo Rex, editado em 1966 no jornal Rex Time, organizado por Carlos Fajardo, José Rezende, Wesley Duke Lee, Nelson Leirner

Outro ponto interessante de “Escritos de Artistas” são os possíveis diálogos que se estabelecem ao colocarmos lado a lado textos de Lygia Clark e Alan Kaprow, por exemplo – personagens que não se aproximariam de maneira natural pela distância geográfica, poética, material, etc. Outros capítulos interessantes da antologia incluem cartas, entrevistas e anotações guardadas por anos, sempre acompanhados de comentários de Ferreira e pequenas introduções do contexto do artista e de sua publicação. Essa é uma leitura essencial para quem quer entender a arte contemporânea e a rica produção dos anos 60 e 70 a partir da voz de quem estava ali, produzindo in loco, em tempo real.