Mulheres Artistas na Bienal de São Paulo

por Julia Lima

Tempo de leitura estimado: 3 minutos

A 33a Bienal de São Paulo, intitulada “Afinidades Afetivas”, foi organizada a partir de um modelo inusual de curadoria: sete artistas foram convidados a atuar como co-curadores da mostra, cada qual montando uma exposição separada dentro do pavilhão Ciccillo Matarazzo. A expografia definiu essas mostras como ilhas de um arquipélago, navegamos entre uma e outra. Além disso, o curador geral Gabriel Pérez-Barreiro selecionou 12 projetos individuais para compor a Bienal, incluindo monografias sobre três importantes artistas latino-americanos preteridos pela história da arte hegemônica oficial.

Dentre esses artistas está o primeiro grande destaque da bienal, apresentado entre grandes vazios do segundo andar: o trabalho de Lucia Nogueira. A artista goiana radicada em Londres não teve muito espaço em terras brasileiras, com poucas mostras dedicadas à sua produção. Em Afinidades Afetivas, uma série de obras da década de 1990, principalmente esculturas e instalações, ocupa uma pequena área cinza dividida em nichos e saletas. As articulações inusitadas de objetos do cotidiano e as simples operações que os subvertem criam potentes mas silenciosas peças que transitam entre o humor sarcástico, o flerte com a violência e a crítica social. Os títulos empregados por Nogueira muitas vezes fazem o papel da “sacada”, ou da dedução dos sentidos estranhos empregados pela artista.

Em frente a este conjunto, do outro lado do pavilhão, encontra-se a coletiva “Sempre/Nunca”, de Wura Ogunji. A artista-curadora nigeriana selecionou seis artistas de diferentes lugares – África do Sul, França, Líbano, Nigéria, Estados Unidos – para criar trabalhos inéditos, pensados para o contexto da Bienal. Quando perguntada sobre sua escolha de trazer apenas artistas mulheres durante a coletiva de imprensa, Ogunji disse que essa é uma pergunta importante, mas que se recusa a responder por que. Em entrevista ao ARTEQUEACONTECE, a artista contou que aprendeu a responder perguntas fechadas com respostas abertas. Para ela, nos casos de sexismo e racismo, não enfrentamos apenas o problema da existência dos preconceitos, mas que nos prendemos e nos limitamos a essas discussões, e deixamos de falar sobre o que importa. “Próxima pergunta”, em geral, é o que Ogunji devolve a quem se arvora a interrogá-la sobre a presença feminina em sua mostra.

Sobre a experiência de curar uma exposição, a artista que coordena e conduz um espaço em Lagos, na Nigéria, contou que selecionou nomes que responderiam de maneira bonita e íntegra ao convite e ao contexto. São artistas que já tinham algo em comum em diálogos estabelecidos, com obras que também se preocupam com o público, tanto quanto com o tema estabelecido por ela. Lhola Amira, por exemplo, realiza aparições no pavilhão, convidando pessoas negras a sentar-se em uma cadeira alta para que ela possa lavar seus pés com água e sal. A ação é um convite à cura de traumas e dores passadas causadas pelo genocídio escravocrata praticado nas Américas por séculos. A meta de Lhola é atender 1876 pessoas, e este número não é aleatório – marca o ano da lei do ventre livre, quando filhos de escravos passaram a ser livres no Brasil.

Outra forte presença feminina na mostra é a artista-curadora Claudia Fontes, com uma abordagem bem diferente de Ogunji. Também localizada no segundo andar, Fontes escolheu uma imagem poética como fio condutor de sua curadoria. “O Pássaro Lento” é o mote escolhido por ela, assim como o nome do conto que ela comissionou ao escritor argentino Pablo Martín Ruiz. É também o título de sua obra “Nota al pie”, que traz 5500 peças de cerâmica quebradas ligadas às 5500 palavras que formam o conto de Ruiz. Toda a exposição parece um exercício literário, uma criação narrativa estranha que brinca com a ideia de tradução, tema do conto e motivo pelo qual o coletivo Outranspo foi convidado a transcriar cada trabalho da exposição em pequenos poemas impressos nas legendas das obras.

Um momento curioso na exposição é o projeto de Luiza Crosman. A jovem artista instalou um painel solar no teto do prédio da Bienal para alimentar as baterias que mantêm um computador ligado, minerando criptomoedas como Etherium e Bitcoin. Ainda um mistério para a população em geral, essa nova economia virtual é alvo de especulações do mercado e motivo de altos ganhos de empreendedores da tecnologia. Crosman decidiu usar o valor minerado ao final do período expositivo para realizar algum outro projeto artístico seu que será definido no futuro, e ainda aconselha a administração da Bienal a manter os painéis solares para pagar a conta de luz da Fundação. Utilizar-se do sistema da arte para produzir riqueza não é uma grande inovação, mas é um recurso interessante empregado por uma jovem artista.

Em 2017, durante a documenta 14, em Kassel, na Alemanha, a artista Danai Anesiadou decidiu que seu trabalho para a mega-exposição seria expor 1 kilo de ouro refinado em uma estrutura selada a vácuo (obra que depois passaria a ser de sua propriedade). Junto do objeto, pendurado a uma altura inacessível ao público, Anesiadou publicou uma carta na qual dizia que esperava que o ouro pudesse ser uma reserva financeira, um elemento de real valor que ela poderia trocar de volta por dinheiro para financiar uma obra ou exposição futura, em seus próprios termos, e não submetida às regras da instituição. Na mesma medida, a ação de Crosman também faz uso de uma grande mostra, que traz reconhecimento e expectativas, para gerar renda para futuros projetos realizados de forma independente, sem as amarras da Bienal.

Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support