Entender como a arte contemporânea se configurou ao longo da história recente e ganhou os contornos e as características que vemos hoje nem sempre é tarefa fácil. Porém, o livro “O Retorno do Real”, de um dos mais importantes críticos de arte da atualidade, Hal Foster, traça as mudanças dos símbolos e signos no decorrer do tempo, conformando o corpo da arte de hoje. Na introdução da publicação – lançada originalmente em 1996 e hoje em sua 3a edição no Brasil – Foster nos ajuda desvendar sua interpretação da História da Arte como uma disciplina que não é estática e inanimada, mas sim uma entidade viva, sujeita ao modelo psicanalítico lacaniano que serve de mote para o título. Partindo do fato de que a problemática maior da arte vem deslocando-se das questões intrínsecas à forma para os problemas discursivos que envolvem a própria arte, o autor traça as mudanças nos modelos críticos e os retornos de práticas históricas por meio de diferentes modos de ver e de definições expandidas da arte: Foster pauta a sua pesquisa na noção de retorno ou repetição que empresta da psicanálise de Lacan.

Apesar serem conceitos bem complexos – são duas noções que estruturam o livro, a da paralaxe (pontos de vista que se alternam) e a de deferred action, que é traduzida como reação tardia (ou, no original, aprés-coup, termo cunhado por Lacan) – Foster consegue usá-los como metáfora crítica para contar sobre a gênese das novas vanguardas. A ideia de aprés-coup, por exemplo, parte da constatação de que os traumas psicanalíticos não são experimentados apenas uma vez e que podem ressurgir ou re-emergir em momentos posteriores ao do trauma fundador. Da mesma maneira, na arte contemporânea, o real sempre volta, isto é, estamos sempre repetindo padrões e revivendo traumas, reconstruindo o passado no presente. Porém, de acordo com Foster, esse movimento não é mera repetição dos avanços e rupturas do passado, mas sim uma “recepção com resistência” de algo que foi reprimido historicamente nas primeiras vanguardas.

O crítico de arte Hal Foster

As análises psicanalíticas esclarecem que cada novo ciclo histórico e artístico é revolucionário porque consegue reacender a chama radical que inspirou os movimentos anteriores, mas vai ainda mais longe e rompe ainda mais profundamente com o status quo. Foster elenca alguns desses turning points, que incluem obviamente as posturas dos próprios artistas, que mudaram sua maneira de pesquisar e produzir arte. Enquanto os artistas do modernismo, por exemplo, fundavam novos princípios estéticos, os artistas das neovanguardas (para usar um termo do autor) passaram a refundar a própria noção do que era e é a arte, incluindo assuntos antes considerados alheios ao campo. 

O real, então, passa a tornar-se o assunto principal da arte, que passa por sua vez a abarcar cada vez mais outros campos de conhecimento. Hal nota que é apenas com a virada etnográfica da arte contemporânea que o debate se reorienta de elaborações específicas sobre o suporte (pintura, escultura, desenho) para projetos sobre questões singulares, criando um peso igualmente excessivo sobre artistas e público – de projeto a projeto, é preciso lidar com a abrangência total do discurso e da profundidade histórica das diversas representações culturais: “como um antropólogo que mergulha em numa nova cultura a cada nova exposição”. Isso representa, de um lado, um arcabouço muito maior para artistas e, de outro lado, um público muito mais bem informado. 

O livro nos ajuda a navegar essas noções inauguradas nas últimas décadas na arte contemporânea e sustenta de maneira muito clara que o papel do artista mudou de maneira inegável na produção atual. A mudança está na forma tanto quando no próprio conteúdo da arte contemporânea, que passa a se preocupar com estudos antropológicos e de arquivos, etnográficos e históricos. Foster conclui sua argumentação colocando o artista como um etnógrafo, como aquele cuja paixão pelo real se deve, à necessidade de redefinir a experiência individual e histórica em termos de traumas – raciais, sociais, econômicos. Em termos concretos, vemos o crescimento vertiginoso de obras que se ocupam da colonialidade, dos processos de escravização de povos do continente africano, das crises de refugiados na Europa, dos escândalos financeiros nos países em desenvolvimento.

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