Performance de Joseph Beuys inspira coletiva de artistas brasileiro em Londres

Trabalhos da coletiva fazem conexões com obra e vida do artista alemão e questiona o legado europeu no Sul Global

Allan Pinherio
Allan Pinherio

Era 1974 quando Joseph Beuys voou para a América. Da porta da aeronave, carregado por uma maca,  ele foi direto para a galeria onde passaria três dias envolvido por um pedaço de feltro convivendo com um coiote. De lá,voltou direto para avião, mais uma vez sem tocar em solo americano. Durante a performance I like america and america likes me, o artista alemão se recusava a pisar naquela nação que considerava dividida. 

Crochê de Vilão
Crochê de Vilão

Pensando neste gesto icônico e questionando que tipo de legado um artista europeu poderia deixar para um grupo de criativos sul-americanos, o artista Dan Coopey idealizou a coletiva I Like South America e South America Likes Me, reunindo obras de 11 artistas brasileiros na galeria Belmacz, em Londres, que apontam para temas que envolvem a ideia de rebeldia, narrativa construídas, senso de coletividade, entre outros. 

Assim como Beuys, as obras da mostra chegaram do outro lado do Atlântico de um jeito diferente: burlando processos burocráticos e oficiais, as peças viajaram dentro de uma mala criada por Randolpho Lamonier e Nolo. 

Outro destaque da seleção de artistas feita por Dan é o Crochê de Vilão, conhecido por criar gorros de crochê ultra-requisitados nas comunidades das favelas brasileiras, unindo uma linguagem complexa e sofisticada a elementos e personagens da cultura popular – pense num “palhaço tenebroso” dando risadas sinistras ou no Tio Patinhas, sinônimo de ganância, mantido sob a mira de uma arma. “O crochê é frequentemente ensinado em programas de educação prisional e agora tem um pequeno, mas dedicado, seguidores entre os jovens que vivem nas periferias das maiores cidades do Brasil.Esses jovens transformaram as roupas de crochê em um símbolo poderoso e político de resistência”, descreve o texto da mostra.

Bruno Baptistelli
Bruno Baptistelli

Ao descobrir que a morte de Beuys caiu na mesma data que seu pai, Bruno Baptistelli fez uma nova série de desenhos, intitulada JB-GB, especialmente para a exposição. O artista joga com as ideias verdades e narrativas construídas ao misturar a fatídica data e outros números que conectam os dois homens. Desta forma o artista reformula os mitos e mistérios que envolvem a vida e obra de Beuys, numa hábil mistura de conceitualismo e autobiografia.

A indisciplina e a ideia de democracia são, por exemplo, alguns dos pontos que marcaram a trajetória de  Beuys – ele foi demitido da faculdade onde lecionava por protestar com os alunos contra a política da universidade de limitar o acesso aos cursos da Academia de Belas Artes. Nesse sentido, vale destacar as gravuras em madeira feitas por Andréa Hygino a partir de carteiras escolares extintas. “Arranhar-se em carteiras de crianças é em si um ato de rebeldia, mas também uma forma de autoexpressão, até mesmo de expressão artística, por isso me parece uma imagem pertinente para discutir o subfinanciamento da educação pública no país, uma imagem coletiva de resiliência formada por muitas mãos”, ressalta Dan. Beuys concordaria.

Randolpho Lamonier e Nolo
Randolpho Lamonier e Nolo