Pílulas AQA: confira as notícias mais importantea da semana

Diálogos entre artes plásticas, a moda, a música e o cinema; espaços culturais abrindo enquanto outros fecham; obras que questionam a história, o sistema de educação e o número de vidas perdidas para o coronavirus; recordes e novidades dos leilões – um resumo da semana

Joiri Minay
Joiri Minay

Tropicália 

Nos últimos meses, os monumentos tornaram-se protagonistas nos debates sobre a natureza da memória histórica. Esta semana abriu uma exibição, organizada pelo Museu de Arte Contemporânea da Universidade do Sul da Flórida, em Tampa, que apresenta intervenções de artistas desafiando as narrativas do passado apresentadas por memoriais públicos. Entre elas, está a estátua de Cristóvão Colombo atrás do Bayfront Park Amphitheatre, em Miami, que foi coberta por um tecido tropical pela artista dominicana-americana Joiri Minaya.   A estampa escolhida pela artista faz referência aos estereótipos criados em relação ao povo latino-americano, especialmente os caribenhos. 

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Espaço C.A.M.A.

Ocupação moderna

Construída entre 1936 e 1938 pelo renomado arquiteto e artista Flávio de Carvalho, a Vila Modernista possuía dezesseis casas, uma diferente da outra. De lá para cá, o mercado imobiliário tomou um rumo estranho e esta pequena joia da arquitetura brasileira, que fica entre a Rua Ministro Rocha de Azevedo e  Alameda Lorena, foi engolida e apagada pelos prédios do bairro. Felizmente as casas estão sendo ocupadas por uma turma artsy que certamente saberá valorizar seus traços e histórias. Ano passado a Sé Galeria se estabeleceu em uma das edificações e, nesta sexta-feira, dia 29 de janeiro de 2021, diretores de cinco espaços independentes abriram o ESPAÇO C·A·M·A : Ana Elisa Cohen e Felipe R Pena (Cavalo), João Azinheiro (Kubikgallery), Rodrigo Mitre (Periscópio), Adriano Casanova (CASANOVA) e Julia Morelli ( 55SP) idealizaram primeiramente uma plataforma digital lançada em Novembro de 2020. 

No mesmo mês, porém, surgiu a oportunidade de alugar uma das casas da Vila Modernista onde eles pretendem fazer exposições individuais e coletivas com curadores convidados. “Haverá sempre duas exposições diferentes, uma no térreo e outra no segundo andar, com artistas representados pelas galerias e, duas vezes por ano, vamos convidar curadores para idealizar projetos que podem incluir outros nomes”, explica Casanova. O primeiro a assinar uma mostra no espaço é Germano Dushá. Fique de olho e marque sua visita! Alameda Lorena, 1257, casa 4 / E-mail para agendamento:  info@c-a-m-a.com /  Telefone: (11)93719-5046

Instalação da Bandeira da Mangueira
Instalação da Bandeira Brasileira

Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua

A partir de hoje, dia 29 de janeiro de 2021,  o MAM do Rio de Janeiro passa a exibir, no Salão Monumental,  o trabalho Bandeira Brasileira, idealizado por Leandro Vieira. Inspirados pelo carnaval ( que não acontecerá) e pela mostra Hélio Oiticica: a dança na minha experiência, em cartaz no museu,  Vieira organizou também uma programação de palestras que começará no dia 19 de fevereiro.  O ciclo de debates sobre Performances do Carnaval pretende discutir, com a  ajuda de convidados,  os temas Mestre-sala e porta-bandeira; Alfabeto percussivo; Paleta de cores e enredo; e, Estereótipo do corpo feminino negro. Programe-se. 

Quase-oração
Quase-oração

História sem fim

Está cada vez mais difícil acreditar e assimilar a absurda e abusiva situação do Brasil durante a pandemia do coronavírus. Até quando vamos contar nossos mortos? Para tentar expressar a monstruosidade do número de mortos no nosso país, um grupo de amigos de Porto Alegre se uniu para criar uma performance coletiva de resistência  – como aquelas da Marina Abramović, mas agora é performada por um grupo de 60 pessoas e representa a dor de uma nação. A proposta: contar os mortos no Brasil  em lives consecutivas  no Instagram, no perfil @quaseoracao, que acontecem durante 24 horas desde segunda-feira dia 25 de janeiro de 2021. Os números não devem parar de crescer tão cedo e , portanto, a performance não teria fim, mas o grupo decidiu que vão parar quando chegarem no número 200 mil. 

“A ideia é tentar mostrar como este número é gigantesco, cruel e desumano. Precisamos de muitas pessoas contando sem parar durante muito tempo para chegar nele!”, explica Diego Groisman, um dos idealizadores do projeto que contou com a participação de alguns artistas como Rafael Pagatini, Daniel Escobar, Santiago Pooter, David Ceccon, Clarisse Tarran, entre outros. “As lives são feitas em duplas, sendo que cada pessoa conta por um tempo enquanto o outro escuta. Nossa vontade era também trazer a força do coletivo e da parceria, mesmo que isolados fisicamente”, completa Groisman. A frieza da contagem mostra a própria desumanização dos números em relação às vidas perdidas. Acompanhe! 

José Roberto Aguilar
José Roberto Aguilar

 Sétima arte 

Quer dar um apoio ao cinema nacional e, ainda, garantir uma bela obra de arte? A chance é agora: Bárbara Paz, diretora do filme  BABENCO – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou, produzido pela HB Filmes, organizou uma campanha para levantar fundos para “levar” o filme ao Oscar! 

A HB Filmes é uma produtora independente e, por isso, é necessário criar uma campanha competitiva que gere visibilidade e potencialize as chances de indicação do filme nas categorias: Melhor Documentário e Melhor Filme Internacional. Babenco não era apaixonado somente pelo cinema, mas também pelas artes visuais. Por isso, alguns artistas doaram trabalhos que estão à venda para colaborar no processo de arrecadação da verba necessária. Além disso,  parte da própria coleção do cineasta está disponível. Quer contribuir para a campanha? Clique aqui e faça parte.

 Retrato de um jovem segurando um roundel, de Sandro Botticelli
Retrato de um jovem segurando um roundel, de Sandro Botticelli

Martelo batido 

A tão esperada venda dos Old Masters da última quinta-feira, dia 28 de janeiro, na Sotheby’s de New York, fechou a noite com uma das maiores vendas no seu segmento. Entre os destaques, está a obra de Sandro Botticelli, Retrato de um jovem segurando um roundel. A previsão era que ela fosse leiloada por US $80 milhões, mas foi vendida para um comprador russo com um lance de US $92,2 milhões, confirmando a aposta de segundo trabalho mais caro já leiloado na história dos Old Masters – perdendo apenas para Salvator Mundi, de Leonardo da Vinci, que foi arrematado por US $450 milhões e quebrou todos os recordes de resultados de leilões de arte e gerou uma das guerras de lances de salões mais emocionantes da história.

Man Ray
Man Ray

Oportunidade rara 

Os amantes de Man Ray estão agitados: Foi anunciado, esta semana, que as obras de Lucien Treillard, assistente do surrealista, serão leiloadas pela Christie’s no dia 2 de março. Serão 203 obras que vão desde retratos de socialites, musas e artistas contemporâneos a Man Ray até readymades de seu amigo Marcel Duchamp. A expectativa é que o grupo de obras arrecade US $3,6 milhões.

Treillard, que faleceu em 2003, conheceu Man Ray por meio de Georges Visât, litógrafo e editor de arte. Contratado em 1960 para trabalhar com o artista americano expatriado, que passou a maior parte de sua carreira na França, Treillard teve uma relação de mais de uma década com Man Ray, que durou até a morte do artista em 1976. Treillard muitas vezes ajudou a encontrar materiais para os ready-mades de Man Ray e organizou exposições dedicadas a ele. Hoje, ele é conhecido por promover o legado do artista, facilitando reimpressões, negociando empréstimos para exposições e ajudando a colocar obras de arte nos arquivos. Muitas das obras na venda da Christie foram detidas pela Treillard por décadas! Animados?

Ethan Jakob Craft
Ethan Jakob Craft

Má educação

Um dos assuntos mais comentados esta semana foi a educação: a volta às aulas físicas no Brasil irá acontecer na fase mais crítica de contágio da pandemia. Neste contexto,  a obra Vinci of Debt’ (ou “Da Vinci da Dívida” em uma tradução livre) idealizada por Ethan Jakob Craft, foi avaliada em quase US $470 milhões, tornando-se a obra de arte mais cara do mundo contemporâneo”, ao fazer uma grande crítica ao sistema de ensino superior nos EUA.

Trata-se de uma instalação com 2.600 diplomas universitários amarrados em formato de espiral, como se fosse um caleidoscópio. A ideia é apresentar as dificuldades de se conseguir fazer faculdade no país sem se endividar com os empréstimos estudantis –   o preço médio de quatro anos de um curso universitário nos EUA é de US $180 mil. A obra foi exposta no terminal Grand Central, em NY, e patrocinada pelo grupo Anheuser-Busch, como uma ação de marketing da cervejaria Natural Light, bebida preferida dos universitários estadunidenses.

Jerry Saltz
Jerry Saltz

Caiu na rede 

O crítico de arte Jerry Saltz tornou-se  assunto após declarar em um tweet: “Um bom crítico sempre põe mais na escrita sobre uma obra de arte do que o artista dedica em fazê-la”. Alguns não concordaram e fizeram questão de expor suas opiniões abertamente.  Saltz mais tarde voltou atrás no comentário, escrevendo: “Acabei de cometer um erro na escolha de palavras em um tweet sobre as diferenças entre fazer arte e fazer crítica. Eu fui espancado. Com razão”. Na sua opinião, qual é afinal o papel de um crítico de arte? 

Inverno 2021, Dior Men
Inverno 2021, Dior Men

Tramas e pinceladas 

O mundo da moda provou, mais uma vez, que os flertes com as artes visuais dão match! Kim Jones, diretor criativo da Dior, convidou o pintor escocês Peter Doig para desenhar a coleção de outono/inverno e criar o cenário do desfile. Doig é conhecido por usar referências históricas – que incluem trabalhos de artistas como Edvard Munch, H. C. Westermann, Caspar Friedrich, Claude Monet e Gustav Klimt – com elementos contemporâneos que dialogam com o cinema, a música e a arquitetura. O resultado foram looks que reinterpretam o militar misturados com peças que traziam personagens criados por Doig e respingos de tinta. 

Centre Pompidou
Centre Pompidou

Vamos sentir saudades!

Pensando em viajar para Paris depois da vacinação?Então corre com o plano porque a partir de 2023, infelizmente, um dos nossos programas culturais preferidos na cidade da luz vai ter que ser cancelado! Nesta segunda-feira, dia 25 de janeiro, Roselyne Bachelot, Ministra da Cultura da França, anunciou que o @centrepompidou fechará para reforma em 2023, e permanecerá fechado por pelo menos 4 anos.

Em declarações ao jornal francês Le Figaro, Bachelot disse que o fechamento do centro idealizado por Renzo Piano e Richard Rogers em 1977 terá que cessar as atividades para reparar e substituir seus componentes visivelmente envelhecidos. O Pompidou, conhecido por sua estética radical “ao avesso”, deixa à mostra sua superestrutura e serviços mecânicos colocados em seu exterior – uma inovação estética que exige cuidado especial para envelhecer bem. Desde sua inauguração, o “boubou”, como a instituição é chamada carinhosamente , continua a ser o maior museu de arte moderna da Europa. É também o lar de uma vasta biblioteca pública e utilizada como espaço de pesquisa musical e acústica.

Bauhaus Archive, em Berlim
Bauhaus Archive, em Berlim

O futuro é carbon free

Dezenove organizações artísticas na Alemanha estão participando de um projeto patrocinado pelo governo para obter uma compreensão mais profunda de suas pegadas de carbono e como podem ser contidas. Esta semana o Artnet News anunciou que uma avaliação de seus resultados será compartilhada na primavera. “Na Alemanha, discutimos esses assuntos por anos, mas a ação real tem sido lenta”, disse Marion Ackermann, diretora geral das coleções estaduais, de Dresden. “Esta crise [de saúde] atual tem sido uma grande chance de apertar o botão de reset em nossas estratégias.”

Alguns dos edifícios históricos e construções do pós-guerra são afetados, por exemplo, por ineficiências de energia. Entre as questões que os organizadores do estudo esperam abordar está a frequência com que os museus devem fazer empréstimos internacionais; se os couriers são sempre necessários; e quando e com que frequência os curadores devem viajar. A esperança é que o relatório ofereça uma imagem clara dos impactos ambientais de uma ampla gama de instituições, de funções e escalas variadas, traçando um caminho que pode ser percorrido por outras.

Novo clipe de FKA twigs celebra ativismo negro em torno da escultura de Kara Walker
Novo clipe de FKA twigs celebra ativismo negro em torno da escultura de Kara Walker

Unidas contra o racismo

Esta semana a cantora e bailarina FKA twigs lançou o videoclipe da música Don’t Judge Me, criada em parceria com Fred Again e Headie On. As imagens foram feitas em torno da escultura Fons Americanus, criada por Kara Walker, para a Tate Modern, e incluem personalidades negras notáveis.  A obra faz referência ao monumento Victoria Memorial, que fica em frente ao Buckingham Palace, e questiona as narrativas de poder e construção de monumentos. Walker usa diferentes elementos de importantes obras da História da Arte para criar uma  alegoria ao livro O Atlântico negro: modernidade e dupla consciência, de Paul Gilroy, explorando as histórias interconectadas da África, América e Europa por meio de fatos, ficção e fantasia. Assista!