Priscyla Gomes cura mostra que discute o corpo feminino como território

Exposição estabelece um diálogo entre Maria Martins e a produção nacional contemporânea

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Rosana Paulino
Rosana Paulino

Por muito tempo acreditei ter sonhado que era livre – o título da escultura de Maria Martins diz muito sobre sua vida e obra. Diz também sobre o atual mercado de arte nacional e, por isso, foi o ponto de partida para a exposição de mesmo nome curada por Priscyla Gomes, no Tomie Ohtake, composta por trabalhos de 24 artistas que instigam reflexões acerca do corpo feminino como território. 

Yacuña
La mujer salvaje, de Yacuña

Refém de sua própria liberdade – ela era “muito estrangeira” para a arte brasileira, “muito brasileira” para a arte internacional; muito burguesa para o meio artístico, muito transgressora para a burguesia -, Maria teve sua obra pouco compreendida em vida. É o caso de muitas artistas mulheres de diferentes gerações apresentadas aqui. “Há um discurso e uma demanda sobre representatividade, mas os trabalhos são pouco entendidos em suas subjetividades”, explica Priscyla.  

Claudia Andujar
Claudia Andujar
Rivane Neuenschwander
Rivane Neuenschwander

Maria era sensual e selvagem, pagã e perigosa. Movida pelos instintos, e não pela razão que predominava no mercado masculino, branco e heteronormativo de sua época, ela tratava de estados estranhos à razão nos quais a dor, o vigor, o misticismo e o desejo se fundam. E tudo isso incomodava. A obra que nomeia a exposição era uma escultura em bronze produzida em 1947 que foi adquirida para o acervo da Wellesley College – uma universidade liberal que tinha como mote a formação de mulheres. No entanto, a peça logo foi classificada como inapropriada para as estudantes e tirada de exibição. Sem saber o que fazer com a escultura, os dirigentes do espaço chegaram a usá-la como cabide e, por fim, a posicionaram num lago no campus. Com o tempo foi esquecida, degradada e desapareceu. 

Gokula Stoffel
Gokula Stoffel

A história em torno da escultura de Martins serve para abrir uma discussão não só sobre a recepção desses trabalhos incompreendidos e/ou censurados das mais diversas formas – assunto bastante evidente no caso de Anna Maria Maiolino, que ganhou uma exposição no segundo andar do instituto – mas também sobre como temáticas mais íntimas, ligadas ao universo doméstico, são reduzidos pelo circuito. O objetivo da curadora é apresentar múltiplos entendimentos e explorações do corpo feminino como âmago de desejos, sabedorias e memórias; como metáforas, metamorfoses e paisagens construídas, muitas vezes, pela ficção. 

A mostra é dividida em 3 salas que apontam para subtemas. Na primeira, o espectador vai se deparar com trabalhos mais íntimos, onde acontecem metamorfoses do próprio corpo – caso dos trabalhos de Juliana Cerqueira Leite, Lidia Lisbôa, Rosana Paulino, Yacunã Tuxá, Rivane Neuenschwander e Val Souza. Vale destacar, ainda, as pinturas de Larissa Souza, onde uma mulher seminua posa sobre bandeiras do Brasil e a carta que Raphaela Melsohn escreveu para Maria – objeto posicionado ao lado de fotografias da escultura Por muito tempo acreditei ter sonhado que era livre em diferentes lugares dentro do campus da  da Wellesley College. 

Leda Catunda
Língua, de Leda Catunda

A segunda sala representa o embate explosivo entre diferentes corpos, destacando as pinturas expressionistas de Maya Weishof, a instalação Poltrona tentáculo de ovo, onde Melsohn trava um diálogo com Lygia Pape; e, a escultura da série Urna, na qual Cerqueira Leite imprime as marcas do próprio corpo. O terceiro e último espaço propõe visões de corpo-paisagem, como se o encontro fosse tão forte e violento que esse corpo se desmaterializasse. É o caso das telas de Gokula Stoffel, com membros agigantados e cores que camuflam a figuração, e dos trabalhos de Tomie Ohtake, Claudia Andujar e Rebeca Carapiá.  Entre todas as artistas da obra, vale pensar em Rosana Paulino com mais atenção: a feminilidade, sexualidade, metamorfose e as especificidades de ser uma artista mulher trabalhando desde os trópicos – tudo está tão presente no trabalho de Maria como em Rosana. Entretanto, de um lado temos uma mulher da elite inserida na sociedade e política branca lutando pelo reconhecimento nacional apesar de todas as facilidades; do outro uma mulher racializada que por si só chegou ao ápice do sistema, representando as mulheres brasileiras na Bienal de Veneza. Nada mudou, mas caminha para frente.

Serviço:

Por muito tempo sonhei que era livre 

Local: Instituto Tomie Ohtake 

Endereço: Av. Brigadeiro Faria Lima, 201- Pinheiros, São Paulo – SP

Data: De 19 de maio a 17 de julho de 2022

Funcionamento: De terça a domingo, das 11h às 20h. 

Ingresso: Grátis

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