Quem é a estilista que apontam como mais vanguardista do que Dalí?

Elsa Schiaparelli é uma das figuras mais artísticas da indústria da moda e tem ampla retrospectiva em cartaz em Paris

Schiaparelli
Elsa Schiaparelli e Salvador Dalí. Autor desconhecido, 1950

Muito provavelmente ao ouvir a palavra surrealismo, logo te vem à mente os grandes relógios derretidos de Salvador Dalí. Mas por que não as grandes produções da colaboradora do pintor e também vanguardista, Elsa Schiaparelli? O motivo certamente perpassa os mesmos lugares da constante indissociação entre o nome da estilista italiana e sua rivalidade com a Coco Chanel, ou ainda das barreiras que tantas outras poderosas artistas mulheres enfrentaram com o movimento surrealista.

Parece que restringir o enorme sucesso de uma mulher ao universo da moda e ao seu famoso rosa-choque – os auges da construção patriarcal de feminilidade – é mais fácil do que reconhecer suas contribuições num espaço onde a concorrência é majoritariamente masculina. Mas fato é, que Schiaparelli construiu um legado inegável sendo pioneira ao borrar os limites entre arte e moda, e hoje é objeto da grande retrospectiva Shocking! Les Mondes Surréalistes D’elsa Schiaparelli no Musée des Arts Décoratifs em Paris, onde muitos apontam suas roupas como mais vanguardistas do que as próprias pinturas de seus contemporâneos.

Hoje em dia já nos acostumamos a ver os principais designers de moda como artistas que apresentam desfiles altamente conceituais. Mas na época, os seus projetos colaborativos com artistas como Bebe Berard, Jean Cocteau, Salvador Dalí, Vertes, Van Dongen e com fotógrafos como Hoyningen Huene, Horst, Cecil Beaton e Man Ray, foram libertadores e visionários ao expandir os limites criativos para além das usuais preocupações comerciais do mundo da moda. E mais, enquanto o movimento dos pintores é acusado de ser uma fuga e alienação do contexto em que surgiu, Schiaparelli aproxima todo esse imaginário dos sonhos para perto do corpo físico, devolvendo-o à realidade concreta do dia-a-dia.

A parceria com Dalí começou no final de 1936 e foi muito frutífera. Uma das célebres peças herdadas desta relação foi o chapéu da coleção Outono/Inverno 1937–8, inspirado em uma fotografia feita por Gala, esposa do pintor, que o retratava com um sapato na cabeça e outro no ombro. Outra foi a Skeleton, um vestido preto com representações acolchoadas de ossos humanos, um dos destaques da coleção de verão de 1938. O vestido foi um presente de Edward James, grande patrocinador do do movimento surrealista, para a atriz Ruth Ford.

“Mas por que a estilista teria escolhido o surrealismo dentre tantos movimentos de arte que a cercavam?”, você pode se perguntar. Além dos laços sociais com os artistas parisienses desse meio, a estética surrealista parece ter nascido em seu inconsciente como a melhor tradução de seus sentimentos desde criança. Em sua autobiografia de 1954, Shocking Life, Schiaparelli conta que se sentia muito feia quando era pequena. Por isso, pediu ao jardineiro da família que lhe desse as sementes de suas flores favoritas e, sozinha, plantou-as na boca, no nariz e nas orelhas na expectativa de que florescesem e embelezassem seu rosto. Claramente, em vez disso, ela quase se sufocou.

Se estiver passando pela capital francesa, não deixe de conferir de perto esse entrosamento entre artes visuais e moda com as mais de 500 peças reunidas no Musée des Arts Décoratifs.

Serviço 

Shocking! Les Mondes Surréalistes D’elsa Schiaparelli

Local: Musée des Arts Décoratifs
Endereço: 107 Rue de Rivoli, 75001 Paris, França
Data: Até 22 de janeiro de 2023
Funcionamento: De sexta a quarta-feira, das 11h às 18h. Às quintas-feiras, das 11h às 21h. Fechado às segundas-feiras
Ingresso:  €11. Menores de 18 anos e cidadãos da UE entre 18 e 25 anos: entrada gratuita.

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