Raul Mourão abre individual na galeria Nara Roesler em Nova Iorque

Obras feitas majoritariamente durante o isolamento social sugerem uma potente oposição entre peso e leveza, rigidez e movimento, política e humor

Raul Mourão
Raul Mourão

“No início do isolamento social eu estava triste e com medo, morando no ateliê, e minha reação foi produzir intensamente. Eu fazia quase 40 desenhos por dia como uma espécie de diário para enfrentar, confrontar tudo isso”, explica o artista Raul Mourão. Hoje ele abre a exposição Empty Head, sua primeira individual na sede em Nova York da galeria Nara Roesler, com duas séries de esculturas cinéticas criadas e produzidas no último ano e dois trabalhos feitos anteriormente mas que ganharam ainda mais força durante estes duros tempos. 

As esculturas cinéticas de grande formato já são conhecidas pelos fãs de Mourão, mas aparecem aqui mais ruidosas e, talvez, perigosas. “As últimas esculturas de aço corten feitas neste último ano são mais pesadas, têm peso e matéria, mais linhas e um embaralhamento visual bastante ameaçador. Se antes eu desenhava [tridimensionalmente] as estruturas de uma casa, agora é uma máquina cheia de engrenagens”,  explica. “Eu estava rabiscando com raiva, não estava dançando leve”, conclui. O peso das esculturas de aproximadamente 1 tonelada, portanto, nos faz pensar não só na força física, mas nos leva a refletir sobre relações de movimento e estabilidade, peso e leveza, violência e cuidado, e, por fim, vida e morte. O título da série é Rebel, uma homenagem à casa de música experimental Audio Rebel, no Rio de Janeiro. 

Raul Mourão
Raul Mourão

Em oposição às esculturas monumentais, o artista apresenta um conjunto de obras cinéticas mais frágeis e delicadas. Garrafas de vinho que lembram sua adolescência entram no jogo de equilíbrios das estruturas pendulares. “A gente delira no mundo grande e vive no pequeno. Eu já tive essa pira de só fazer obras enormes para interferir na cidade como o Richard Serra, mas aí de repente me pego bebendo um copo de água ou uma cerveja da garrafa, estamos próximos desses objetos cotidianos”, explica.  

Portanto, se a primeira série tem escala pública, externa, fabricação industrial, peso imponente; é perigosa e assustadora – se você não tomar cuidado pode se machucar com ela; a segunda se apresenta mais leve, delicada, frágil, traz um componente humano, é bem humorada.  

O equilíbrio de suas esculturas está sempre em risco e depende do toque preciso do espectador para se mover e não cair! Mourão ressalta que, muito mais do que trabalhos cinéticos, esses são objetos interativos, cuja dinâmica depende do toque e da interação do público, mas de forma diferente do que foi proposto por Hélio Oiticica, Lygia Clark e Lygia Pape. “Na época deles o sistema da arte era muito visual e por isso eles sugeriram que o público experimentasse as obras com o corpo inteiro. O meu trabalho propõe uma interação “pós-corpo”: é preciso usar o olho, o corpo e, ainda, a razão. Você precisa pensar sobre física, inércia, equilíbrio”, expõe o artista. E esta postura racional inclui ser consciente e cuidadoso em relação à obra e ao próprio corpo interagindo com ela, pois as esculturas maiores podem te machucar e um simples toque mal calculado pode destruir as menores. “Isso é também um comentário sobre a urgência de cuidar do próprio sistema de arte que muitos tentam destruir. Essa luta foi travada desde o nascimento da arte, mas agora ganhou potência. Portanto, quero que o espectador tenha consciência que ele precisa cuidar disso a cada toque”, propõe. 

The New Brazilian Flag # 3
The New Brazilian Flag # 3

As obras de Raul definitivamente não são feitas só para ver em segundos ou pelo Instagram, é preciso olhar, pensar, tocar, sujar a mão e olhar de novo. O engajamento do observador, para o artista, é uma metáfora de seu próprio engajamento na sociedade. Um trabalho que revela essa intenção é The New Brazilian Flag #3, um trabalho que nasceu no carnaval de 2018 como uma forma de ressignificar a bandeira do Brasil. “A ideia é falar sobre esse vazio do Brasil e questionar como devemos reagir. O que colocar nesse buraco? Como preencher esse azul?”, ressalta o artista que, em fevereiro de 2018, já previa o abismo para onde o país correria em velocidade máxima nos anos seguintes. A obra faz parte de uma série de onze trabalhos que apareceram numa live do Caetano, num show da Adriana Calcanhotto e na capa do mais novo álbum do BaianaSystem. Mourão também criou um múltiplo a partir da obra para ajudar a financiar seu projeto com o também artista Cabelo, o Rato BranKo. Trata-se de uma edição de 666 exemplares que custa 666 reais. “O número da besta e do apocalipse é uma referência direta à família Bolsonaro, porque eles não são só incompetentes. Se fossem só incompetentes seria fácil. Afinal, a incompetência é o nosso normal. O problema é que eles são macabros, são adoradores da morte, diabolicamente ruins, “. Apesar de ser anterior à pandemia, ganha mais força agora. 

Bang Bang
Bang Bang

Para finalizar, ele apresenta o filme Bang Bang, para o qual o artista contratou um atirador profissional para mirar nas mesmas garrafas de suas delicadas esculturas. A plasticidade da produção cuidadosa em câmera lenta parece acertar o nosso peito sugerindo uma reflexão sobre a violência que assola o Brasil, seja em sua forma mais literal ou institucional. “Fiz esse trabalho pouco depois da censura à exposição Queermuseu, no Centro Cultural Santander. Naquele momento, ficou evidente a perseguição e o sistemático ataque às manifestações artísticas no Brasil. Eu tinha acabado de voltar de NY [o artista morou lá por 3 anos] e me deparei com esta forma de operar/governar pelo caos, pelo absurdo e pela truculência”, explica. O vídeo pode ser lido, portanto, como uma resposta ao momento no qual a arte se tornou alvo de forças violentas. Como bem descreveu Luisa Duarte, num texto sobre o filme publicado no livro do artista, “(…) a escultura de Raul nada mais é do que a prova da chance de uma potência oriunda do encontro de opostos. Essa enunciação visual de um equilíbrio possível entre diferentes – as formas geométricas universais e a gambiarra instaurada pelas garrafas vazias – e a beleza dali derivada é a prova de que, no território da arte, é tecida a chance de inaugurarmos, diariamente, aquilo que no chamado mundo real por vezes nos parece inviável”.

Raul Mourão
Raul Mourão

Serviço

Raul Mourão: Empty Head
Local: Nara Roesler de Nova York 
Data: Até 19 de junho de 2021