Sesc Pompéia abre individual de Alfredo Jaar

Interessado pelas políticas e ambivalência das imagens, Jaar cria instalações que buscam desvendar o que é involuntariamente não dito ou deliberadamente ocultado

Sombras, de Alfredo Jaar
Sombras, de Alfredo Jaar

Nos últimos dias o mundo se emocionou diante de imagens do povo afegão tentando fugir de seu país pendurados em aviões norte-americanos. Era 2001 quando os EUA começaram a bombardear Cabul como uma resposta ao 11 de Setembro, bombardeio em NY e Washington orquestrado por Osama Bin Laden, líder da rede Al-Qaeda, que, na época, recebia apoio e asilo do Talebã que governava o Afeganistão. Os EUA e aliados iniciaram, então, a Guerra do Afeganistão para tirar o Talebã do poder e restabelecer a democracia naquele país. Quase 20 anos depois, entretanto, no dia 15 de Agosto de 2021, o grupo islamita voltou ao comando e o medo fez com que os civis lotassem o aeroporto de Cabul para escapar do país junto com os norte-americanos que começaram o processo de retirada definitiva negociada com os radicais.

Foram as fotografias e vídeos revelando o desespero da população que colocaram em xeque a postura de Joe Biden de “abandonar” o povo afegão. E é sobre esse lugar poderoso da imagem nas formas de estruturação do mundo que fala o artista chileno Alfredo Jaar na mostra Lamento das Imagens, curada por Moacir dos Anjos, no Sesc Pompéia. “As imagens  são importantes tanto para controlar as pessoas, quanto para emancipá-las. Portanto, você irá encontrar vários trabalhos que vão explorar esse lugar ambivalente da imagem” ressalta o curador. 

Por uma trágica coincidência, ou prova da pertinência e relevância do trabalho de Jaar, a instalação principal que nomeia a exposição é composta por uma tela branca cujo objetivo é cegar teporariamente o espectador e três textos introduzem as implicações políticas sobre o controle da feitura e a circulação de imagens – sendo um deles referentes à estratégia adotada pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos em relação ao que poderia ser publicamente visto dos ataques aéreos desferidos sobre Cabul, em 2001. “Para garantir o controle sobre a narrativa dos fatos, o governo estadunidense comprou os direitos exclusivos sobre todas as imagens de satélite do Afeganistão e de países vizinhos naquele período, incluindo as geradas por empresas privadas.. O resultado desse monopólio de imagens foi a emergência de dúvidas sobre o que se passou de fato em Cabul durante o bombardeio, sendo impossível verificar a veracidade do que era comunicado pelo país agressor. À imprensa, restou exibir imagens de arquivo para comentar os ataques ao Afeganistão”, explica o curador.  Ofuscação que serve, portanto, de metáfora de processos de ocultação de imagens e da consequente necessidade de combater a violência que se instaura na região. “Ele trabalha tanto com uma elaboração mais racional destas questões que envolvem as políticas das imagens e sistemas de controle, quanto com a imersão do corpo no trabalho e uma experiência sensorial. 

Lamento das imagens, de Alfredo Jaar
Lamento das imagens, de Alfredo Jaar

A relação entre texto, imagem, imaginação e formas de controle social é constante e profunda. Se um texto pode insinuar o que enunciaria uma imagem ausente e o que significa sua própria falta; como em Lamento das Imagens ou O som do Silêncio; um conjunto delas pode resultar em uma narrativa sobre a forma manutenção de desigualdades no mundo – caso de Geografia = Guerra, Fora de equilíbrio e Caminhando sobre as águas; e, ao mesmo tempo, uma única imagem, com Um milhão de pontos de luz, pode nos lembrar dos quase 4,8 milhões de africanos. Em outros momentos, textos são transformados em imagens. A frase-obra Outras pessoas pensam, por exemplo, foi tirada de um texto de John Cage que fala sobre a necessidade de incluir o outro, reconhecer o pensamento do outro e sua subjetividade. Na época do texto,  Cage fala sobre a necessidade de reconhecer o outro – sua fala e sua capacidade de raciocinar e pensar, o que ia de encontro com o pensamento colonizador, patriarcal, europeu e ocidental. “Esses povos teriam o domínio da razão e do conhecimento e os outros, os subordinados e colonizados, eram vistos como incapazes de pensar. Eles simplesmente sentiam. É uma fase que nos convida a quebrar essa lógica, é a negação de qualquer subjugação de indivíduo”, explica Moacir.  A frase de Cage tem ligação direta com a obra Roteiros, Roteiros, cuja palavra repetida foi tirada do Manifesto Antropófago escrito por Oswald de Andrade e sugere a possibilidade de  criar novas narrativas para o país.  “O manifesto buscava repensar a ideia de Brasil a partir da metáfora da antropofagia. Em um dos curtos parágrafos, Oswald condensava, repetindo sete vezes a palavra roteiros, a importância de reescrever, coletivamente, uma história que era contada por outros. Ênfase transformada, neste trabalho, em imagem iluminada, evocando a necessidade urgente de imaginar o Brasil de novo. Agora. De recriá-lo comendo as próprias entranhas, se necessário for. ´A alegria é a prova dos nove´, dizia o autor. Mas toda alegria não compartilhada será sempre pouca. É preciso inventar um país que não existe ainda, no qual a alegria seja de todos. É preciso sonhar outros roteiros”, reflete Moacir.

As duas principais instalações da mostra, além de Lamento das Imagens, nascem de uma única fotografia e são como uma espécie de homenagem a dois fotojornalistas.  Em Sombras, ele se debruçou sobre uma fotografia feita pelo holandês Koen Wessing, na Nicarágua, em 1978, no fim do regime autoritário de Somoza. Nessa instalação, uma sequência de outras imagens antecipam a exibição da potente fotografia principal. Um jogo de luz e sombras destaca a silhueta de duas mulheres que lançam seus braços no ar, em coreografia de luto e agonia, ao receber a notícia da morte de um parente. Em O Som do Silêncio, talvez a obra mais conhecida do artista, é montado uma espécie de teatro para uma única imagem: o impactante registro do fotojornalista sul-africano Kevin Carter (1960-1994) de um garoto faminto no Sudão sendo observado por um abutre. Mas o espectador não chega a ver a imagem, assiste a um filme de oito minutos que reflete sobre os vários aspectos da fotografia e sua divulgação. 

Outras pessoas pensam, de Alfredo Jaar
Outras pessoas pensam, de Alfredo Jaar

Jaar costuma dizer que “nenhuma imagem é inocente”, para o bem ou para o mal, elas são construídas, feitas  – como fica claro na imagem-frase-obra Você não tira uma fotografia. Você faz uma fotografia, criada a partir de uma fala do fotógrafo americano Ansel Adams – e o seu uso tem consequência. Expõe, ainda, que ver não é olhar, não é somente ato de captura; é também abertura para a dúvida. “Ver é perder certezas, é fraturar consensos estabelecidos sobre a vida que existe à volta”, ressalta Moacir. São obras que buscam, portanto, desvendar o que é involuntariamente não dito ou deliberadamente ocultado. 

A partir da discussão de imagens simbólicas reorganizadas e experiências corporais,  o artista aborda questões socioeconômicas e destaca a mudez imposta às populações que sofrem as piores consequências de conflitos bélicos e disputas políticas e econômicas. É o caso de Geografia = Guerra , na qual ele questiona o depósito de lixo europeu tóxico na Nigéria causando doenças graves e mortes no país africano. A instalação recria esse contexto: você vai caminhar por um labirinto de barris cheios de água onde é possível ver fragmentos de imagens desses nigerianos. Já em Caminhando sobre as águas, Jaar traz a questão da migração clandestina entre México e Estados Unidos se valendo de imagens fragmentadas de pessoas atravessando um rio que fica na fronteira. A instalação revela sem expor um corpo-migrante, demandando também um movimento físico do público para visualizá-la.  Enquanto em Fora de equilíbrio, o artista apresenta uma composição de fotografias de  garimpeiros de Serra Pelada, a mina de ouro a céu aberto que, a partir do início da década de 1980, atraiu cerca de 100 mil pessoas para uma área antes pouco habitada no norte do Brasil.  Trata-se de pessoas que buscavam um enriquecimento rápido, causando a destruição irreparável do meio ambiente e um desgaste significativo de seus próprios corpos. “Estar fora de equilíbrio não é afastamento passageiro de um acordo social justo, mas estado permanente de um sistema fundado na supressão de vidas. Para superar tal condição, é preciso primeiro implicar-se nela, ocupando o vazio metafórico das caixas de luz com a invenção de outros futuros”, pontua Moacir. 

O som do silêncio, de Alfredo Jaar
O som do silêncio, de Alfredo Jaar

O neon Claro-escuro revela uma frase escrita pelo filósofo Antonio Gramsci na década de 1930, com a emergência do facismo, mas que infelizmente dialoga diretamente com o momento que o Brasil está vivendo: “O velho mundo agoniza, um novo mundo tarda a nascer, e, nesse claro-escuro, irrompem os monstros”. Este trabalho estará na 34ª Bienal de São Paulo em forma de cartaz e resume bem o espírito do trabalho do chileno, que declara: “Sou gramsciniano por diferentes razões e em diferentes níveis, eu compactuo de sua filosofia de vida quando ele diz que seu intelecto é pessimista, mas sua vontade é otimista. Me encontro sempre frente a situações bastante negativas e o que me mantém ativo é uma vontade que segue sendo otimista”. Que os brasileiros se inspirem do Jaar e no Gramsci para seguir em frente.

Lamento das Imagens – Alfredo Jaar

Data: de 28 de agosto de 2021 até 5 de dezembro de 2021

Local: Sesc PompeiaEndereço: R. Clélia, 93