Top 20: obras da Pinacoteca de São Paulo

Seleção especial de obras da Pinacoteca acompanha a nova montagem da exposição de acervo da instituição, que inclui obras bastante recentes que foram doadas ou adquiridas nos últimos anos

Hoje decidimos falar do acervo da Pinacoteca de São Paulo, uma das instituições mais tradicionais do país, de uma forma diferente. Quando se pensa no acervo desse museu especificamente, é normal que as pessoas imaginem obras mais antigas, pinturas em molduras escandalosas e esculturas clássicas, como obras de Malfatti e Victor Brecheret.

Aqui, também reunidos algumas obras que remontam a trabalhos como esses, mas fizemos uma seleção especial que abarca trabalhos contemporâneos que foram doados recentemente à instituição ou adquiridas por ela. Essas novas obras estão inclusas em uma nova montagem da exposição do acervo que abriu recentemente com a reabertura do museu após o período de quarentena e que ficará em cartaz pelos próximos cinco anos, até 31 de dezembro de 2025! Organizada em três grandes núcleos, essa mostra está dividida entre Territórios da Arte, Corpo individual / corpo coletivo e Corpo e território.

Confira abaixo a nossa seleção, que é acompanhada por descrições que tiveram como parte do apoio o material disponibilizado recentemente pelo museu na série #PinaDeCasa, feita pelo museu durante o isolamento social para levar a instituição para próximo do público.

Neide Sá, A Corda.

Criada em 1967, durante a ditadura militar, a obra de Neide Sá funcionou como uma provocação as pessoas usassem melhor o senso crítico acerca de como a imprensa tratava os rumos do país nos noticiários. A obra foi anexada ao acervo da Pinacoteca depois de ter sido exibida na exposição Mulheres Radicais, em 2018.

Cândido Portinari, Mestiço, 1934

Comprada pelo Governo do Estado de São Paulo em 1935, um ano depois de sua criação, a obra de Portinari é uma tentativa do artista de trazer em uma só figura a personificação de uma determinada noção de identidade do povo brasileiro, sustentada durante anos na historiografia. Desta forma, ela reflete sobre como essas noções abordam uma mistura étnica que teria em seu escopo indígenas, africanos escravizados e brancos de origem europeia.

Georgina de Albuquerque, Cabeça de italiana, 1907

Obra que está presente no acervo da instituição desde 1912, o trabalho está ligado a uma série de outras obras de Georgina nas quais ela explorava retratos de tipos nacionais, buscando apesar disso não estigmatizar as figuras que pintava. Porém, nesta obra que ela produziu durante um período que morou na França, ela não se furtou de utilizar elementos que remetem ao imaginário do que era uma típica mulher italiana, com adereços um tanto estereotipados.

Sidney Amaral, Mãe preta (a fúria de Iansã), 2014

O artista Sidney Amaral, morto de forma precoce em 2017, pintou uma mãe preta do século XXI que defende o filho da violência policial perpetuada pelas políticas genocidas contra a população negra até hoje. O trabalho de Amaral reflete como o racismo institucional está arraigado na sociedade brasileira, tendo sido fomentado primeiramente pelo sistema escravagista do Brasil Colônia e se estendendo ao passar dos anos nas relações de poder que se seguiram.

Claudia Andujar, Arajani, BR 210, 1981

A fotografia de Andujar foi clicada nos anos 80, quando ela acompanhou a resistência dos Yanomami às ações sobre suas terras, como a construção da rodovia Perimetral Norte, a invasão de garimpeiros e a atuação de missões religiosas, com consequências trágicas para a vida e saúde desse povo. A obra está vinculada à série Marcados, célebre conjunto de fotografias de Andujar.

Tunga, True Rouge, 1997


Este foi o primeiro trabalho do artista a se dispor no espaço por meio do içamento de materiais, procedimento que Tunga utilizou muito em outros trabalhos que se seguiram posteriormente. Existem versões maiores de True Rouge, como a instalada em uma galeria em Inhotim.

 Cinthia Marcelle e Tiago Mata Machado, Nau, 2017

Comissionado pela Bienal de São Paulo para representar o país no Pavilhão do Brasil na 57ª Bienal de Veneza, este vídeo de Cinthia e Tiago faz menção às rebeliões em penitenciárias e chama a atenção também para os massacres cometidos dentro delas, especialmente aos ocorridos no Brasil ao longo daquele ano de 2017, levantando uma discussão sobre o sistema carcerário.

Tarsila do Amaral, Antropofagia, 1929

A pintura Antropofagia, de 1929, como indica o título, é uma assimilação das duas obras anteriores: figura e fundo de Abaporu e A negra se mesclam, formando um casal primevo, em uma paisagem densa e silenciosa. As imagens inspiradas em um Brasil arcaico, pré-cabralino, aliadas à utilização de uma linguagem moderna, criaram uma solução possível para um paradoxo presente na prescrição antropofágica: a necessidade de conciliar aspectos primitivos e modernos a um só tempo.

Tuca Vieira, Paraisópolis, 2004.

Considerada desde o ano de sua captura como uma das fotografias mais icônicas do século, esta imagem do fotógrafo Tuca Vieira é um retrato duro da desigualdade social no país, mostrando o contraste existente na zona Sul de São Paulo, onde os condomínios e casas luxuosos do bairro do Morumbi se chocam com as casas modestas da comunidade de Paraisópolis.

Rosana Paulino, Parede da memória, 1994

Anexada à coleção da Pinacoteca em 2016, a obra de Paulino expõe a violência exercida sobre os corpos afrodescendentes, o silenciamento e a invisibilidade a que foram submetidos, a persistência, enfim, do legado funesto da escravidão no Brasil. O trabalho é composto por pequenas bolsas almofadadas nas quais estão impressas fotografias de familiares da artista, tendo se transformou muitas vezes ao longo do tempo, tendo mais de mil patuás em uma de suas composições.

Maria Leontina, Os episódios V, 1959

Nesta obra que integra o acervo da Pinacoteca, Leontina pontua a superação da oposição entre figura e fundo. Ela utiliza de formas geométricas maiores do que as que utilizava em sua produção que permeava aquele momento. Entre essas formas, prevalecem retângulos e quadrados, dispostos de maneira a criar uma leve sugestão de profundidade na superfície das telas. A obra diz muito sobre a produção da artista, uma das mulheres mais importantes da abstração geométrica no país.

Regina Parra, Chance, 2017

Obra feita em neon, um material que costuma ser usado para sinalizar e atrair a atenção, Chance é uma obra que tem escrita em letras grandes e avermelhadas e instalada em estrutura autoportante, a frase “A grande chance” apresenta uma promessa, mas, sem qualquer desdobramento, se mantém como um enigma. Afinal, qual seria a tal grande chance para a artista? E para cada pessoa do público? A resposta fica em aberto e torna-se pessoal.

Pedro Américo, Visão de Hamlet, 1893


Visão de Hamlet foi pintada quando Pedro Américo, de volta a Florença, havia cumprido, no Brasil, dois anos de mandato como deputado eleito pela província da Paraíba. Na tela, Américo escolhe combinar na mesma composição duas cenas narradas em trechos distintos do texto original: uma, do primeiro ato, quando Hamlet – de olhos arregalados, com o braço direito suspendido, em sinal de assombro – é surpreendido pela visão do fantasma do seu pai, representado ao fundo da tela; a outra, do quinto ato, quando o jovem toma nas mãos a caveira do antigo bobo da corte e profere a famosa frase “Ser ou não ser. Eis a questão”.

Ernesto De Fiori, Homem Andando, 1937-38.

A figura do homem andando ou em marcha está presente na produção de Ernesto de Fiori desde 1920 até 1938, pelo menos. Já esta peça que pertence à coleção da Pinacoteca, provavelmente realizada entre 1936 e 1937, tem as suas especificidades no modo como o homem projeta seu corpo à frente, com cabeça e tronco lançados para a esquerda, em passo largo, a sugerir velocidade e obstinação.

Jaider Esbell, Feitiço para salvar a Raposa Serra do Sol, 2019


Incorporada no ano passado ao acervo da Pinacoteca, esta obra de Esbell está no grupo de primeiro trabalhos de artistas indígenas a integrar o acervo da instituição, um acontecimento histórico. Na obra, lado a lado, com pouco ou nenhum espaço de separação, aparecem bichos reais e imaginários, pedaços de vegetação e grafismos que podem remeter às pinturas corporais e ao artesanato do povo Makuxi. A cena apresenta uma diversidade de elementos e detalhes, enquanto, ao organizá-los em uma relação de continuidade, demonstra seu pertencimento ao todo. Trata-se de uma homenagem à Raposa Serra do Sol, terra indígena onde o artista viveu até os 19 anos e que até hoje permanece sem demarcação.

Flávio Cerqueira, Antes que eu me esqueça, 2013.

Em Antes que eu me esqueça, de 2013, o artista esculpe um menino negro em bronze, pintando-o com tinta branca. Trazendo frequentemente a abordagem sobre as questões raciais em suas obras, Cerqueira coloca o personagem se inclinando para frente, com as mãos apoiadas no espelho. Elas ficam tão próximos que o objeto e a imagem refletida quase se encontram. Ao observarmos, podemos interpretar como um indivíduo inserido numa sociedade em que os valores ocidentais e brancos são predominantes.

Hudinilson Jr., Posição amorosa out-door, 1981.

Uma ampliação sobre papel fotográfico colada sobre papel, a obra de Hudinilson foi doada para a Pinacoteca e hoje, inclusive, integra a exposição individual do artista na instituição, intitulada Hudinilson Jr.: Explícito. A partir da doação de uma fotografia que mostrava a obra instalada em outdoor na rua da Consolação, foi possível remontar o trabalho em outro contexto e lugar: a fachada traseira do edifício da Estação Pinacoteca, 39 anos após a montagem original.


Maxwell Alexandre, Um cigarro e a vida pela janela


Élle de Bernardini, Dance With Me.



Esta é a primeira obra de uma artista transexual a integrar o acervo da Pinacoteca de São Paulo. Em 2019, Elle realizou a performance no octógono da instituição em uma apresentação que fazia parte da exposição Somos muit+s: experimentos sobre coletividade. Na performance, a artista aplica mel e folhas de ouro sobre seu corpo nu, fazendo referência ao conceito de escultura social de Joseph Beuys. A artista convidao público a dançar junto a ela, “defendendo a aceitação dos corpos que se afastam da heteronormatividade”.

Randolpho Lamonier, Legalizamos o amor, da série Profecias, 2019.

Doada para a Pinacoteca a partir de uma aquisição feita na SP-Arte de 2019, a obra integra a série Profecias, na qual o artista cria os trabalhos a partir de pensamentos que se baseiam nas pautas contemporâneas que ele considera urgente, passando pela igualdade de gênero, pelo antirracismo e pela reforma agrária. São previsões que o artista faz considerando pautas que estão ligadas ao avanço progressista da sociedade e do Estado, as quais ele materializa em costura e bordado em tecido.