Há quase 80 anos, Fernando Lemos tem se dedicado à produção artística. Trabalhou como designer gráfico, desenhista e editor. Agora, mais de duas mil obras do artista luso-brasileiro, entre fotografias, gravuras, desenhos e peças de design, passam a fazer parte do acervo do Instituto Moreira Salles.

Entre os principais trabalhos de Fernando Lemos destacam-se as fotografias feitas em Portugal entre o fim dos anos 1940 e início da década de 1950. Em um ambiente de resistência à ditadura de Salazar, Lemos integrou o movimento surrealista português. Era o único do grupo a usar a fotografia como meio de expressão.

Ainda em Portugal, onde fotografou os jovens artistas surrealistas, como Marcelino Vespeira, Carlos Ribeiro e Mário Cesariny, produziu autorretratos como Eu, poeta (1949-1952). “A foto remete ao enforcamento. É uma brincadeira com a tortura: não precisam me enforcar, já me enforquei. Na ditadura, fazemos o possível para não ser identificados”, conta Lemos. Os negativos desse período, cujas reproduções já foram exibidas no Museu Coleção Berardo, na Fundação Calouste Gulbenkian (ambos em Portugal), na Pinacoteca do Estado e no Museu de Arte Moderna de São Paulo, entre outros, também passam a integrar o acervo do IMS.

Sentindo-se asfixiado pelo ambiente político em Portugal, Lemos mudou para o Brasil em 1953 e passou a colaborar como desenhista em vários jornais e revistas, como O Estado de S. Paulo e Manchete. Nos anos seguintes, além de sua destacada atuação como editor e designer gráfico, produziu poesia, gravuras, pinturas e cerâmicas. Fez um painel exibido na Oca, no parque do Ibirapuera, para as comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo, em 1954. Pouco depois, com amigos portugueses, fundou a editora Giroflé, que publicava livros infantis. Em 1991, produziu um painel de 40 metros quadrados para a estação Brigadeiro do metrô de São Paulo. Publicou os livros Cá & lá (1985) e Desenhumor e O quadrado visualterado (1991), Na casca do ovo, o princípio do desenho industrial (2003) e Fernando Lemos – Percurso (2011).

Nos próximos meses, as obras que agora integram o acervo do IMS serão tratadas e digitalizadas, o que possibilitará a realização de um inventário detalhado das séries das diferentes fases do artista.

Um conjunto significativo pode ser visto a partir de 3 de outubro na exposição Fernando Lemos – mais a mais ou menos, no Sesc Bom Retiro, com curadoria de Rosely Nakagawa.

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