Leda Catunda e Judy Chicago em diálogo na Fortes D´Aloia Gabriel

Leda Catunda cria obras inéditas em diálogo com obra feminista de Judy Chicago, mostradas pela primeira vez no Brasil

Tempo de leitura estimado: 6 minutos

Judy Chicago e Leda Catunda
Judy Chicago e Leda Catunda

O que acontece quando um dos maiores nomes da arte feminista encontra uma das mais potentes artistas brasileiras, simbolo de uma geração que quebrou muitas barreiras do patriarcado sem necessariamente falar claramente sobre essa desigualdade?  Uma exposição vigorosa e irreverente!

Abre amanhã, no galpão da  Fortes D´Aloia Gabriel, a mostra Judy Chicago & Leda Catunda que reúne 14 obras em diálogo das duas artistas. Costurada ( quase que literalmente) por uma intensa e quente paleta de cores, onde predominam os vermelhos, rosas e laranjas, a exposição revela como duas artistas com trabalhos aparentemente distintos que se encontram ao desafiar os conceitos de pintura e desconstruir definições ou requisitos da dita “alta cultura”. Se de um lado temos Leda questionando e enfrentando noções de bom gosto com suas “pinturas moles” feitas a partir da apropriação de imagens da cultura popular; do outro vemos Judy Chicago quebrando tabus que envolvem questões de gênero e sexualidade. Ambas pintam, mas não com tinta e pincel, mas assumindo a costura e o bordado como forma de expressão, elevando uma mídia que por muito tempo foi renegada e classificada como artesanato ou a uma arte menor. 

Childbirth in America, de Judy Chicago, de 1982
Childbirth in America, de Judy Chicago, de 1982

Instigada pela tradição feminina e comunal dos quilts, Judy Chicago cria peças cuja estrutura faz lembrar bandeiras, cartazes ou até mesmo escudos. Seduzida pelas imagens do mundo e pelo universo popular, Leda costura narrativas que lhe instigam criando um universo mágico e próprio.

Hitch Your Wagon to a Star, de Judy Chicago, de 2000
Hitch Your Wagon to a Star, de Judy Chicago, de 2000
Vermelha, Leda Catunda
Vermelha, de 2021, de Leda Catunda

O visitante é recebido por Hitch Your Wagon to a Star, uma obra de 2020 de Judy  composta por figuras humanas que se reúnem no interior da estrela localizada no centro do quadro, como se buscassem todas elas a mesma jornada multicolorida rumo às alturas. A obra faz parte da série Resolutions , na qual a artista reinterpreta os ditados e provérbios tradicionais. Hitch Your Wagon to a Star é uma frase do escritor, poeta e filósofo Ralph Waldo Emerson e pode ser entendido como um recado para sonhar alto e ter esperança nas grandes coisas. Ao lado desse trabalho, um rio vermelho construído por Leda. Vermelha ( a artista optou por usar somente nomes femininos nas obras criadas para a exposição) é um mapa fluvial carmim com detalhes de cor vinho em que algumas ilhas coexistem, abrigando personagens femininas de manga, caracteres chineses sobrepostos à calçada de Copacabana, e uma logomarca: Planet Girls.  Se Judy sugere uma crença em conquistas maiores, Leda cria percursos para chegar neste outro lugar. 

Birth Power, de 1984, de Judy Chicago
Birth Power, de 1984, de Judy Chicago

Entre os destaques da mostra está a antológica série Birth Project, composta no total por mais de 80 peças bordadas idealizadas entre 1982 e 1985 pela artista e executada por cerca de 130 costureiras de diversos países ( a artista faz questão de incluir o nome de todas elas na ficha técnica dos trabalhos!) . Em “Birth Power”, o vigor no momento do nascimento se manifesta nas cores quentes que delineiam o corpo da mulher, de cujo ventre jorra uma cascata de fogo que vincula o acontecimento culminante da geração da vida à força de um vulcão – note os estudos de desenho e paleta de cores trocados entre a artista e as bordadeiras, o lápis indica o impressionante degradê de 6 cores da obra final. 

“As cores em Birth Power são cores de calor intenso, fogo abrasador. No entanto, o sentimento que transmite não é de angústia. A aura que cerca a figura parece irradiar a dor para longe dela, transformando o calor da dor em poder. E o fogo sob a figura, fluindo dos seios, é um calor constante e vigoroso – o calor de uma fornalha ou forja”, pontua Sandie Abel, artista responsável por bordar o trabalho de Judy. 

Já em Smocked figure, Judy Chicago nos apresenta a silhueta de uma mulher grávida, seguindo a mesma lógica da linha em degradê, só que agora entre cores frias, na parte inferior da mulher, e quentes, a superior!  Para a artista, parir é um ato sublime, catártico e de êxtase, mas também de intensa dor. Inspirada pela história da mãe de uma das costureiras que trabalhavam com ela, Judy desenhou uma mulher grávida com as mãos no rosto, chorando: quando soube que estava grávida do sexto filho, a matriarca sentou na mesa de jantar e chorou copiosamente. 

É impressionante, ainda, analisar com calma Mother India, uma gigantesca composição de retalhos que contam histórias e atrocidades comuns na cultura indiana quando o assunto é o universo feminino e a gestação: elas aparecem matando as filhas mulheres, violentadas durante o parto por ervas que são inseridas em suas vaginas durante o parto, jogadas ao fogo depois da morte do marido, e muito mais. No centro, podemos ver a imagem de Shiva com um dos braços de Shiva acolhendo um bebê, enquanto seus outros membros parecem tentar impedir a dispersão de outros quatro pequenos humanos. Na cosmologia hindu, vale lembrar, Shiva costuma ser configurado ora como entidade masculina, ora de gênero misto — mas, numa torção do imaginário tradicional, a Shiva imaginada por Judy Chicago não só amamenta uma criança como está grávida: trata-se de uma Shiva. Vale lembrar que o trabalho foi feito na década de 80, revelando a coragem e irreverência da artista ao contestar práticas tradicionais cruéis que até então não eram questionadas. “Vi vídeos e muitas fotos de parto, mas ao vivo é muito diferente de observar a vulva. Você percebe o quão poderosa ela é. Não é possível continuar pensando que esses corpos são passivos se você vir uma vagina durante um nascimento”, diz Chicago em entrevista à Folha de São Paulo

Recheada, de Leda Catunda
Recheada, de Leda Catunda

Em diálogo com estes trabalhos, vemos algumas obras-chave de Leda. Recheada é o maior e mais sedutor destaque. Uma espécie de estandarte em forma de uma língua, a pintura-objeto traz um orifício que sugere uma hipnotizante profundidade por meio do recorte de camadas de tecidos sobrepostos, em tons que progridem do vermelho ao amarelo, passando por um laranja fluorescente e tons de rosa. Parece que toda a intensidade e calor do fogo saindo do órgão sexual de  Birth Power se transforma, aqui, neste outro órgão igualmente “recheado” de assunto para o mundo: a boca. A língua “recheada” de Leda Catunda quer tragar o mundo.

Duas línguas,  de 2021, de Leda Catunda
Duas línguas, de 2021, de Leda Catunda

Há algum tempo a artista tem trabalhando com composições de línguas pictóricas. Trata-se de uma série de protuberâncias de tecido estofado formando uma espécie de escama ou gotas gordas que caem ( ou derretem) em direção ao solo.  Vale notar que algo, aqui, se pronuncia – verbo que denota tanto a ação de “dizer algo”, como o gesto de salientar, produzir um relevo, projetar-se. Duas destas obras, Duas línguas e Vesgo, foram colocadas estrategicamente entre os belíssimos bordados do Birth Project. Assim,  a energia e movimento do parto,  que lança algo para o mundo, é mimetizado pela “língua solta” de Leda que nunca teve medo de se pronunciar e de se projetar neste mesmo mundo tão masculino. Ambas as artistas parecem querer expurgar a criação para o universo, sem barreiras e com toda potência possível, e ao mesmo tempo devora-lo.

Judy Chicago & Leda Catunda 

Data: 12 março – 23 abril 2022

Local: Fortes D´Aloia Gabriel

Endereço: Rua James Holland, 71 — Barra Funda

Funcionamento: Terça a Sexta-feira, das 10h às 19h; Sábado, das 10h às 18h

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