Prometo falhar, de Érica Storer de Araújo
Prometo falhar, de Érica Storer de Araújo

Vivemos um novo mundo e é preciso adaptar. Enquanto muitos museus e galerias estão procurando a melhor trilha para levar arte ao universo digital, artistas também buscam potência nesta não nova porém atualmente única forma de criação. Pensando nisso o Pivô migrou o seu já tradicional projeto de residência artística para o ambiente digital, instigando o questionamento do que significa a produção artística e a atuação institucional sob a mediação compulsória das telas. Conheça aqui 5 dos artistas que estarão no ciclo que começa no dia 30 de junho sob curadoria de Clarissa Diniz!

Pretusi, de Yhuri Cruz
Pretusi, de Yhuri Cruz

1.Yhuri Cruz

Yhuri Cruz desenvolve sua prática artística e literária a partir de textos que envolvem ficções visionárias, proposições performativas – que o artista chama de cenas – e instalativas em diálogo com sistemas de poder, crítica institucional, relações de opressão, encenações de cura, resgates subjetivos e violências sociais reprimidas ou não resolvidas. O interesse pela elaboração de cenas vem da vontade de endereçar uma ação a alguém. “Muitos performances usam o próprio corpo para trabalhar e eu queria ter a possibilidade de integrar outras pessoas nessas narrativas”. Ele e seus colaboradores usam, muitas vezes, máscaras de granito e mármore da série Pretusi: “Um dos escultores que mais me atiça criticamente e artisticamente é o Brancusi. Gosto formalmente das esculturas dele. No entanto, quando vejo seu trabalho me deparo também com a visão contraditória e apropriadora da cultura africana. Ele foi para a África e se inspirou nas esculturas e máscaras locais para fazer sua obra. Então, minha ideia é tirar um sarro dele e criar o “Pretusi”, a versão negra de Brancusi”, explica o artista. A ideia de usar a máscara é uma forma, também, de incorporar outros papéis na sociedade e reivindicar um protagonismo. Há, ainda, uma relação direta ao livro Peles negras e máscaras brancas, de Frantz Fanon, e uma pesquisa das simbologias da própria matéria: o mármore branco traz a questão da branquitude e do lugar mais elitista do material, enquanto o granito entra como um contraponto da cor negra. “Ambos têm uma tradição mórbida muito intrínseca. Portanto, usar as máscaras de granito e mármore é como dar vida à morte”, completa. 


2. Iagor Peres 

Membro do coletivo CARNE – Coletivo de Arte Negra, Iagor Peres começou o seu trabalho artistico explorando a dança e, posteriormente, a performance. Não à toa, ele partiu do pensamento do próprio corpo para criar a mistura material de suas recentes esculturas. “Eu queria encontrar um material que entendesse uma vivência mais subjetiva no mundo. Queria tirar o meu corpo físico do trabalho, mas gostaria de manter as relações da minha pele com o mundo”, explica o artista que desenvolveu uma mistura química que chama de primeiramente de “pele material” e, depois, de “pele estendida”.  Interessado pelas densidades e substâncias visíveis e invisíveis que compõem as relações no espaço, Iagor  entendeu, nesse processo, a ideia de “racialização” ou de mito racial. “É um processo de despersonificação, aglutinação e massificação”, define. Ele aponta, também, para as relações entre os processos de formação do imaginário e a arquitetura, buscando práticas híbridas para compor processos de criação e assim imagear esculturas, telas, videoinstalações, performances e textos. Sobre a residência online e a adaptação de um trabalho tão material e corporal para o mundo digital, o artista ressalta animado: “O meu trabalho tem uma relação muito presencial e eu quero descobrir como essa materialidade vai se transpor para a tela. Eu tenho várias dúvidas que podem ser potência!”

Burnout, de Érica Storer de Araújo
Burnout, de Érica Storer de Araújo

3.Érica Storer de Araújo 

Interessada pelas diversas possibilidades da palavra “performance”, Érica Storer de Araújo idealiza ações que questionam temas como o alto desempenho exigido no mundo contemporâneo e as noções de trabalho e multitarefas. O ponto de partida para criar Burnout, por exemplo, foi o livro Sociedade do cansaço, de Byung-Chul Han, onde é discutido excesso de positividade para o bom desempenho e necessidade do ser humano ir sempre além do seu próprio limite corporal e mental. Já durante a pandemia a artista criou Rõm-ófice, ainda explorando a ideia de criar um escritório acoplado à academia para otimizar o tempo e possibilitar o comprimento das tão almejadas multitarefas. Na exposição Prometo falhar, em 2018,  Érica já explorava o tema. “Essa expressão vem de um livro de autoajuda. Me interesso pela essa ideia de superação e por isso criei um espaço a beira de um fracasso revestindo-o de perfex – algo extremamente útil porém rapidamente descartado”, explica.

Esboço de objeto para a série Escorpiônika, de Bruna Kury
Esboço de objeto para a série Escorpiônika, de Bruna Kury

4.Bruna Kury

Bruna Kury é brasileira, anarcatransfeminista, performer, artista visual e sonora e desenvolve trabalhos em diversos contextos, seja no mercado institucional da arte ou em produções de borda. Focada em criações atravessadas por questões de gênero, classe e raça (contra o sistema patriarcal heteronormativo compulsório vigente e as opressões estruturais), ela também investiga sonoridades e a criação de objetuais que são ramificações do trabalho com performance. O dildo-faca, por exemplo, nasceu depois de performances que Bruna já realizou algumas vezes na qual ela coloca uma faca no cú, transformando-a em uma prótese, como um rabo. Deu origem a série Escorpiônika, onde ela traz também a questão da violência que corpos transvestigêneres sofrem. “Trata-se de  um cú que não é passivo, mas sim ativo e cortante. Aqui não somos para sermos penetradas passivamente e submissas, temos ânus canibais. Quando faço a obra penso muito também nessa disforia em relação ao próprio corpo, o que leva várias pessoas trans a se automutilarem por inadequação ou insatisfação ao próprio corpo, muitas vezes chegando ao suicídio. Isso acontece principalmente por falta de auxílio ao SUS e a transgenitalização e o trabalho é  um alerta a necessidade do acolhimento às urgências da população trans”, explica a artista. A sonoridade nas obras nascem a partir de um pensamento sobre sensorialidades. “Meu trabalho sofre influência do conceito de suprasensorial do Hélio Oiticica. Apesar de ser branco e elitizado, Hélio me traz perspectivas interessantes”, conclui.

There Not There, de Vita Evangelista
There Not There, de Vita Evangelista

5. Vita Evangelista

Vita Evangelista é artista não-binárie graduade que trabalha com mídia digital, video, escrita e performance no cruzamento entre feminismos queer, imaginação radical utópica, tecnologia e corporificações do conhecimento. Nascide no Brasil e imigrante há dez anos na Holanda, Vita valoriza o afeto como lente de investigação particular e preocupa-se com a questão dos danos emocionais como conseqüência do sistema de conhecimento hegemônico que também fere o mundo. Baseadas em narrativas auto-tecno-poéticas que podem emergir da alienação consciente, as obras de Vita são reflexões sobre as repercussões incorporadas da violência epistêmica, que exigem ressignificação.