Gian Spina

por Caroline Carrion

A prática de Gian Spina (n. 1984) desafia a sumarização narrativa, apesar de ela mesma ser narrativa em sua essência. Sua produção não pode ser separada de sua vida e trajetória pessoal – ou talvez o contrário seja mais preciso. Spina, que encara com seriedade a sua condição de nômade artista contemporâneo, retira de suas viagens e dos inúmeros lugares em que vive a motivação e o contexto para as suas obras. Do seu trabalho, por sua vez, surgem convites que os levam a ainda outros locais, em uma espécie de ciclo retroalimentar.

Vê-se nas primeiras obras do artista, principalmente instalativas, uma preocupação com questões de linguagem e fenomenológicas. Projeções, espelhos, jogos de luz e superposição entre imagens estáticas e em movimento eram ferramentas mobilizadas por Spina para criar espaços indefinidos e transitórios, em que a arquitetura e o ambiente urbano também tinham um papel essencial. Já a partir de 2011, surgem obras em que a narrativa e a palavra falada ou escrita ganham peso. Nessa transição o artista também deixa de se ater à instalação, à fotografia e ao vídeo como meios em si e passa a se dedicar a práticas interdisciplinares fortemente performáticas – consequência esta da própria natureza processual de sua obra.

Os conceitos de história e memória, tanto individual quanto coletiva, parecem oferecer um fio condutor que permite a leitura das diferentes fases de sua produção. Obras como The story of the history which points to another story [A história da história que aponta para outra história] (2013), The day when my rage woke up before me [O dia em que minha raiva acordou antes de mim] (2013), e A todos os povos o fogo (2016) partem de ações políticas em resposta questões sócio-históricas, a saber: a representação ideológica da catequese colonial de índios em um espaço público (e portanto laico); a manutenção de locais e símbolos do tráfico de escravos africanos por países europeus; o impeachment da presidente eleita Dilma Roussef em 2016.

Já outras obras partem de sua memória pessoal (ficcionalizada ou não) e de nossa memória coletiva mitológica, poético e literária. É o caso, por exemplo, de A cada minuto morre um poema (2015), em que o artista tatuou um poema sobre a morte dos poemas em sua mão, fadando-o ao desaparecimento após a lenta mas inevitável troca de pele da região. Em Tanto tudo, de 2016, experiência pessoal, literária e política convergem: em novembro de 2015, Spina esteve em Bento Rodrigues (MG), junto a outros voluntários que resgataram animais e auxiliaram a população afetada pelo rompimento da barragem de Fundão. Poemas escritos durante e a partir da experiência, fotografias, objetos encontrados e a roupa que usou durante o período foram reunidos ao áudio de um texto de sua autoria em uma exposição no Centro Cultural São Paulo.

Gian Spina nasceu em São Paulo; viveu, estudou e trabalhou em San Diego, Vancouver, Bordeaux, Berlim, Frankfurt. Entre 2016 e 2017, viveu em Ramallah, onde lecionou na Academia Internacional de Artes da Palestina. Em seguida, mudou-se para Atenas, onde integrou o Programa de Residências do Capacete que aconteceu junto à Documenta 14. Em março, o artista apresenta uma individual na Casa Nova Arte Contemporânea, em São Paulo, após a qual parte para uma residência com o programa Spring Sessions, na Jordânia, de onde seguirá para o Rio de Janeiro.