Pierre Edouard Leopold Verger nasceu em Paris, mas tinha um coração africano que batia mais forte em terras baianas. Explicamos: o fotógrafo, etnólogo e antropólogo franco-brasileiro dedicou a maior parte da vida ao estudo da diáspora africana e os fluxos culturais e econômicos que resultaram dos deslocamentos de e para a África.

Pierre ficou célebre por produzir imagens em preto e branco com luz própria e enquadramento clássico que representavam o cotidiano e culturas populares de diferentes países, fotografou intensamente manifestações profanas e religiosas do negro, captando os gestos livres e as dinâmicas das cidades, sem preocupação programada de fazer um vasto documentário. Foi guiado por um instinto puramente estético, vivencial e pessoal, entretanto acabou por fazer um documentário riquíssimo e importante da memória desses povos, especialmente o baiano. Produziu, ainda, uma série de conferências, artigos de diário e livros importantíssimos para compreendermos a construção da cultura brasileira e, num período em que é necessário olhar para nós mesmos e nossa história sob novas perspectivas, torna-se urgente rever de forma mais cuidadosa o trabalho deste artista e pesquisador.

Viajou os quatro continentes para documentar muitas culturas que logo desapareceriam sob o impacto da ocidentalização. Da Rússia, Taiti e Japão até a Bolívia, ele passou pelo China, Sudão, Mali, Nigéria, Togo, Benin, Senegal, Índia, Filipinas,Tailândia, Laos, Camboja, Vietnã, México, Guatemala, Equador, Argentina e Peru, chegando finalmente em Salvador, no Brasil, em 1946. Logo seduzido pela hospitalidade e riqueza cultural, decidiu ficar.

Depois de ler o romance Jubiabá, de Jorge Amado, e ter acesso a um um importante testemunho sobre o tráfico clandestino de escravos para a Bahia, Verger dedicou-se a entender as influências no Brasil da cultura Yoruba – um dos maiores grupos étnico-linguísticos da África Ocidental, com mais de 30 milhões de pessoas, especialmente na Nigéria e no Benin. Encantou-se pela religião, filosofia e rituais do candomblé, acreditando nele como a fonte da vitalidade do povo baiano. Mas conhece e documenta, também, a religião dos voduns, de São Luís, no Maranhão, e o xangô pernambucano.

Este interesse o leva de volta à África – ganhou uma bolsa para estudar rituais africanos – e foi lá que viveu seu renascimento. Durante uma visita ao Benin, estudou Ifá (búzios – concha adivinhação), foi admitido ao grau de sacerdote babalaô e renomeado Fátúmbí (que significa “ele que é renascido pelo Ifá”). Esta aceitação facilitou o acesso às tradições orais dos iorubás aos sacerdotes e autoridades tanto na África Ocidental quanto na Bahia e assim Pierre Verger tornou-se um importante mensageiro entre estes dois mundos: transportava informações, mensagens, objetos, presentes… e produziu belíssimas imagens de tudo que via.


Os Orixás

Orixás são considerados ancestrais africanos que foram divinizados, pois durante sua vivência na Terra, supostamente adquiriram um controle sobre a aspectos da natureza, como: raios, chuvas, árvores, minérios e o controle de ofícios e das condições humanas, como: agricultura, pesca, metalurgia, guerra, maternidade, saúde. Os rito dos orixás ganham atenção especial de Verger e, em suas imagens, ele busca revelar as diferenças e semelhanças nos rituais do Brasil e de outros países, estabelecendo um diálogo entre culturas separadas pela diáspora negra. Em 1954, Verger publica Dieux d’Afrique no qual utiliza as fotografias dos deuses incorporados e uma descrição escrita sobre cada orixá, seu ritual e suas atribuições.

“Em Verger a fotografia é transparência, é informação, documento, projeção e multiplicação da beleza da cultura de uma raça que, mesmo reconhecida institucionalmente como uma das que constituíram a nacionalidade, tem, com freqüência, seus valores menosprezados, quando não desconhecidos.Mas a documentação fotográfica de Pierre Verger presente em Deuses Africanos não é somente essa relação fria e informativa sobre um universo temático de seu interesse. É também um ato de amor, reflexo do carinho pelos costumes que tão bem soube incorporar, com liberdade e humor e sem nenhum academicismo, desde que chegou ao Brasil”, analisa o crítico Moracy R. de Oliveira. “Passou 17 anos na África e teve acesso a todas as tradições orais, o que lhe permitiu detectar influências, descobrir origens e tornar-se um narrador insuperável das histórias dos negros africanos e de sua herança cultural espalhada pelo mundo. A câmera lhe permitiu gravar os signos exteriores de suas descobertas. Mas não só isso. Permitiu por radicar-se na Bahia, que se tornasse também um dos mais sérios e influentes inventariantes da influência visual negra no Brasil”, completa.

Pierre Verger ressalta uma estrutura religiosa diferente, que no mínimo poderia possibilitar uma reflexão, dentro de uma visão menos preconceituosa de indivíduos únicos sem pressão de seguir padrões sociais com ordens, atitudes e castas impostas – como acontece em outras religiões. “O Candomblé é para mim muito interessante por ser uma religião de exaltação à personalidade das pessoas. Onde se pode ser verdadeiramente como se é, e não o que a sociedade pretende que o cidadão seja”, explicou o próprio artista. Era o pesquisador minucioso e paciente, sempre voltado para o ser humano.

A Capoeira e o Samba

Mas não era apenas os ritos religiosos que o ajudava a manter vivo o contato entre os dois lados do Atlântico. Filho de uma família abastada, ele sempre foi rebelde e se interessava pelos costumes, ritos e relações presentes nas ruas dos países por onde passava. Fotografa tudo, retratando a beleza dos homens e mulheres que recriam o continente africano em outras cidades mundo afora. Aproxima-se deles e procura entender suas histórias e tradições. Além de personagens das suas fotos, tornaram-se seus amigos, cujas vidas Verger foi buscando conhecer com detalhe e intimidade – e é aí que a mágica acontece! Assim com Verger, incontáveis fotógrafos contemporâneos consagrados só conseguiram êxito na construção das suas imagens pois permitiram-se e dedicaram-se a se envolver com o outro, a usar a câmera como um aparato para estudar , compreender e encontrar a alma no olhar. Em Salvador, envolveu-se nas rodas de samba e capoeira. Do Carnaval, registrou a presença dos blocos, cordões, batucadas e afoxés, entidades de cunho afro-baiano. E tinha um carinho especial pela lavagem do Bonfim, antes de virar carnaval e instrumento político e turístico.


Atlânticos

O mar da Bahia e seu intenso azul, sempre abençoado por Iemanjá, sempre foi o grande inspirador, quiçá uma fonte de encantamento determinante alguns criativos que nasceram ou optaram por viver na região, desde Dorival Caymmi e Carybé, passando por Gilberto Gil, Maria Bethânia e Jorge Amado. Não foi diferente com Pierre Verger: além da beleza que hipnotiza todos, os movimentos e ritos dos pescadores e marinheiros lhe despertaram especial interesse. Além disso, as águas daquele mar não deixam de representar de forma poética e palpável as conexões entre estes povos separados pela escravidão.

“Quem um dia foi marinheiro audaz; Relembra histórias; Que feito ondas não voltam mais
Velhos marinheiros do mar da Bahia; O mundo é o mar; Maré de lembranças; Lembranças de tantas voltas que o mundo dá (…) metade da minha alma é feita de maresia” – canta Bethânia

Edição original de Orixás

 

Edição de Orixás publicada em 2018

LEIA: Acabam de sair novas edições de clássicos como Lendas africanas dos Orixás, feita em parceria com Carybé, e Orixás, publicação que estava esgotada há anos.

ASSISTA: Em 2000, Lula Buarque de Holanda dirigiu o documentário biográfico “Pierre Verger: mensageiro entre dois mundos”, com narração de Gilberto Gil, que mostra a relação do etnólogo com a Bahia, a África e o candomblé – incluindo uma entrevista com Verger um dia antes de sua morte.

VISITE: Fundação Pierre Verger, em Salvador, criada pelo próprio fotógrafo e onde são guardados mais de 63 mil fotografias e negativos gerados até 1973, além de seus documentos e correspondência.

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