50 exposições imperdíveis que acontecerão em São Paulo em 2022

Depois de dois anos de incertezas, a programação artsy da cidade volta com tudo investindo na produção nacional que revisita a identidade brasileira

Tempo de leitura estimado: 20 minutos
A Primeira Missa , de 2014, de Luiz Zerbini
A Primeira Missa , de 2014, de Luiz Zerbini

Tava com abstinência de vernissage, né minha filha? Então segura porque a temporada de maratona artsy de São Paulo IS ON! 2022 é o ano para estar e repensar o Brasil. No ano em que “comemoramos” o bicentenário da Independência do Brasil e o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, museus, galerias e artistas buscam revisitar a ideia de brasilidade que nascia ali e, talvez assim, tentar entender de formas mais amplas e justas…que país é esse!?

 Não pretendemos negar a importância e relevância do Grupo dos Cinco da Arte Moderna Brasileira  (Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Menotti del Picchia, Mário de Andrade e Oswald de Andrade), mas serão muitas as exposições que virarão o modernismo brasileiro do avesso e tantas outras individuais de artistas que revisitam nossa cultura e história sob novas e necessárias perspectivas: Adriana Varejão, Luiz Zerbini, Ayrson Heráclito, Dalton Paula, Jonathas de Andrade e Sidney Amaral chegam acompanhados Abdias Nascimento e Rubem Valentim – artistas que já falavam sobre isso tudo, mas só ganharam a atenção do mercado nos últimos anos. 

Será também o ano de questionar a arte com “A” maiúsculo. De um lado temos curadores, diretores e galeristas empenhados em trazer a, antes subjugada, “arte popular” para o panteão da arte contemporânea, do outro temos a valorização da produção dos inocentes e dos loucos. Aos poucos os museus começam a ouvir as histórias dos povos originários. 2022 será marcado, ainda,  por pontuais exposições para nos lembrar que, em tempos difíceis de luta e resistência das populações indígenas, é importante ter em mente que qualquer independência só é possível se considerar a história e os direitos de quem efetivamente estava aqui muito antes da chegadas dos portugueses.

Entre os nomes internacionais, vale ressaltar a individual do japonês Daido Moriyama, no Instituto Moreira Salles; de Marcel Broodthaers, na Gomide & Co; e de Lynda Benglis, na Mendes Wood Dm. Pode vir quente que 2022 está fervendo!

Itinerários globais e estéticas em transformação: Foto cine clube bandeirante
Itinerários globais e estéticas em transformação: Foto cine clube bandeirante, na Almeida e Dale
'Pássaros', 1968, Samson Flexor. Galeria de Arte Frente por A4&Holofote l Cultura
Pássaros, de 1968, por Samson Flexor

JANEIRO

Quem deu o pontapé inicial foi o Sesc Pinheiros, com a ocupação “Estamos aqui” – uma exposição com 40 trabalhos de artistas e coletivos cujas carreiras são marcadas pela passagem por espaços e plataformas do circuito independente de arte. O MAM, que saiu na frente na corrida das comemorações e reflexões sobre o centenário da Semana de 22, seguirá propondo discussões sobre o assunto com a exposição Samson Flexor: além do moderno, aberta semana passada, e uma coletiva sobre o Grupo Ruptura, prevista para o segundo semestre. 

O tema será discutido por diferentes lentes e perspectivas ao longo do ano. A partir do dia 29 deste mês vale, ainda, conferir a coletiva Itinerários globais e estéticas em transformação: Foto cine clube bandeirante, na Galeria Almeida e Dale. Com curadoria de Iatã Cannabrava e José Antonio Navarrete, a exposição contará com trabalhos de 40 artistas para que o público visualize a relevância e potência do Foto cine clube bandeirante para a construção da fotografia e pensamento modernista. Para os curadores a produção dos membros do Foto Cine passou por muitas e instigantes transformações nos primeiros 40 anos e isso ajudou a levar a fotografia brasileira para um outro patamar.  “O Clube colocou a fotografia brasileira num plano reflexivo e, depois deles, ficou impossível fazer fotografia sem pensar fotografia”, refletem os curadores. “São eles que representam a expansão do espírito modernizador da semana de 22 e esta contribuição foi fundamental para a modernização da fotografia brasileira, colocando-a como um projeto coletivo artístico do Brasil para o mundo”.

Raio-que-o-parta: ficções do moderno no Brasil
Raio-que-o-parta: ficções do moderno no Brasil
Amadeo Luciano Lorenzato
Amadeo Luciano Lorenzato
Volpi Popular
Volpi Popular, no Masp

FEVEREIRO 

Era 13 de fevereiro de 1922 quando um grupo de criativos paulistas tomou o Teatro Municipal de São Paulo sob vaias e aplausos para começar o evento que marcaria para sempre a história da construção do modernismo brasileiro. O mês oficial da Semana de Arte Moderna já começa com o curador Raphael Fonseca abalando as estruturas da História da Arte. No dia 9 de fevereiro, ele abre Raio-que-o-parta: ficções do moderno no Brasil, no Sesc 24 de Maio, inaugurando o Diversos 22 – Projetos, Memórias, Conexões , projeto do Sesc que busca revisar, por meio de uma série de exposições e publicações lançadas ao longo do ano, questões que envolvem centenário da Semana de Arte Moderna e do Bicentenário da Independência do Brasil. 

O título da exposição é inspirado por um estilo arquitetônico encontrado em fachadas de casas antigas de Belém. A justaposição de azulejos quebrados formando desenhos geométricos, angulados e coloridos, que lembram setas, bumerangues e raios são conhecidos como “raio-que-o-parta”. O modismo desta arquitetura não se restringiu às elites locais da década de 1950, sendo logo apropriado por outras camadas da sociedade que popularizaram as fachadas raio-que-o-parta pelos bairros daquela cidade, como forma de modernizar o que era considerado obsoleto nas artes. 

A ideia da coletiva, que reúne cerca 600 obras de 200 artistas, é fazer uma necessária revisão histórica da Semana de 22, expandindo o movimento moderno no tempo e espaço. Para isso, Raphael propôs uma curadoria coletiva composta por pesquisadores de cinco curadores de cidades diferentes do Brasil: Aldrin Figueiredo, do Belém do Pará; Clarissa Diniz, de Recife; Divino Sobral, de Goiana; Marcelo Campos, do Rio de Janeiro;e, Paula Ramos, de Porto Alegre.  “Ainda temos uma visão muito focada em São Paulo e Rio de Janeiro e não vemos como a Semana de 22 é um marco perverso – representa o modernismo do Brasil, mas foi mais foi um evento muito localizado. Os poucos artistas que não eram do sudeste [ pense em Vicente Monteiro de Rego e Cícero Dias] moraram aqui ou na Europa”, explica o curador-geral. A coletiva abraça produções do final do século 19 até os anos 1960, incluindo nomes excluídos, esquecidos ou reorganizados. Entre os destaques estão as pintoras Lídia Baís, Mestre Zumba, Maria do Santíssimo, Pagu, Agnaldo Manuel do Santos e Aurora Cursino dos Santos – uma prostutura que pintou sobre sua profissão e o direito das mulheres na década de 40. Vale conferir, ainda, os trajes de Lampião, Carmem Miranda, pai de santo Balbino de Xangô e do palhaço Piolin. 

Se a disputa entre popular e erudito está em jogo, esse mês merece atenção. Enquanto a Gomide & Co expõe, mais uma vez, a partir do dia 9 de fevereiro, pinturas de paisagem de Amadeo Luciano Lorenzato, o Masp investe em duas exposições imperdíveis. No dia 25 deste mês, o público poderá mergulhar no mundo de  dois modernistas que flertavam com referências populares ou vernaculares: Volpi e Abdias Nascimento. Depois de organizar a mostra Portinari popular, em 2016, e Tarsila popular, em 2019, o museu apresenta, este ano, Volpi Popular.  Assim como os primeiros, Alfredo Volpi é um artista central da arte brasileira do século 20 e sua pintura é caracterizada por um repertório único de experiências e influências que mesclam tradições modernas e populares, incluindo interesses como: o trabalho artesanal, as festas populares, os temas religiosos e as fachadas da arquitetura colonial e vernacular brasileira. Volpi chegou no Brasil ainda criança e logo começou a pintar as paisagens do entorno. Na década de 1950, começou a sintetizar suas composições, tornando sua figuração cada vez mais geometrizada, com padrões, formas e temas recorrentes – como suas famosas bandeirinhas, mastros, faixas, fachadas e ogivas – que desenvolveu até o final de sua carreira.

Abdias Nascimento, Okê Oxóssi, 1970
Okê Oxóssi, de 1970, de Abdias Nascimento,

No mesmo dia, o museu reúne cerca de 60 trabalhos em Abdias Nascimento: um artista panamefricano com o objetivo de enfatizar a contribuição do artista para a pintura moderna brasileira. O visitante terá a oportunidade de visualizar um potente repertório de ideias, cores e formas do movimento pan-africanista, além de compreender aspectos importantes do imaginário ladino-amefricano. Abdias, vale lembrar, fundou o Teatro Experimental do Negro, o TEN, uma das mais radicais experiência de dramaturgia do país, nos anos de 1940;, e idealizado o Museu de Arte Negra, na década de 1960, cujo acervo está, hoje, em diálogo com obras de Inhotim. 

Regina Silveira
Regina Silveira
Vostok, de Leticia Ramos
Vostok, de Leticia Ramos

Mas não só de museu viverá o mês de fevereiro. As galerias também estão preparando uma série de individuais que prometem tirar o seu fôlego antes mesmo do carnaval. A Luciana Brito vai abrir uma exposição com belíssimas tapeçarias de Regina Silveira – um must have. As diversas possibilidades de significação e representação da fauna brasileira há tempos permeiam a pesquisa de Regina Silveira. Para inaugurar a programação da galeria, ela idealizou as obras de Fauna Mix, um desdobramento dessa investigação, que inclui animais peçonhentos, insetos daninhos, peixes, mamíferos, pássaros brasileiros, numa alusão à aura de exotismo que envolve a fauna brasileira. 

Jorge Macchi
Jorge Macchi, na galeria Luisa Strina
Max Gómez Canle
Max Gómez Canle, na Casa Triângulo
Lucas Arruda
Lucas Arruda, no Instituto Tomie Ohtake
Daniel Dewar e Gregory Gicquel
Daniel Dewar e Gregory Gicquel, na Mendes Wood DM

A Mendes Wood DM irá apresentar novos trabalhos da mineira Letícia Ramos que vai apresentar, a partir do dia 26 de fevereiro, o filme Vostok na nova sala de vídeos da Pina. Com base em Bruxelas e Nova Iorque, a galeria não investe nos nomes internacionais: neste mês será possível ver, no galpão na Barra Funda, obras da chinesa Miranda Zhang, da dupla belga Daniel Dewar e Gregory Gicquel e do norte americano Matthew lutz-Kinoy. Enquanto a Galeria Luisa Strina revela uma exposição com novos trabalhos do argentino Jorge Macchi,  a Casa Triângulo abre mais uma individual do também argentino Max Gomez Canle. Last but not least, o Instituto Tomie Ohtake abre, no dia 19, uma individual de Lucas Arruda intitulada Lugar sem lugar. A exposição, organizada pela Fundação Iberê Camargo, abre com 70 pinturas selecionadas pelo artista e a curadora Lilian Tone. Já cansou? Vem que tem mais.  

Daido Moriyama
Daido Moriyama

MARÇO 

Março é um mês de poucos e (muito) bons. O Instituto Moreira Salles abre, no dia 26, uma individual de Daido Moriyama – fotógrafo que iniciou a carreira no Japão do pós-guerra e se tornou o ícone pop e mais influente da fotografia japonesa. Considerado o padrinho da fotografia de rua do Japão, ele foi influenciado por nomes como Andy Warhol, William Klein e Jack Kerouac e revolucionou a forma de olhar o mundo com suas imagens densas e granuladas. Esta será sua primeira grande retrospectiva do artista na América Latina, reunindo mais de 200 trabalhos e uma centena de publicações que devem revelar diferentes momentos de sua vasta e produtiva carreira: do interesse pela ocupação americana e pelo teatro experimental dos anos 1960 aos trabalhos radicais dos anos 1970, do período autorreflexivo nos anos 1980 e 1990, passando pela documentação incansável das cidades e a reinvenção de seu próprio arquivo.

Adriana Varejão
Adriana Varejão, na Pinacoteca

No mesmo dia, Adriana Varejão abre uma importante retrospectiva na Pinacoteca com cerca de  60 trabalhos de diferentes fases e períodos, ocupando sete salas e também o Octógono, espaço central do museu, onde estarão as obras recentes da série Ruínas.  A mostra panorâmica pretende percorrer toda a trajetória de Varejão, iniciada em meados dos anos 80, para que todos possam tomar conhecimento da potência de uma das artistas brasileiras de maior repercussão internacional. A organização expositiva pretende ressaltar como a sua obra tem se estruturado, ao longo das últimas três décadas, a partir de uma reflexão sobre a história colonial do Brasil, apontando também para uma reflexão continuada sobre a própria pintura, sua materialidade e sua expansão para além do plano bidimensional. Prepare o coração: será lindo e, ao mesmo tempo, um soco no estômago.  

Marcel Broodthaers
Marcel Broodthaers, na Gomide & Co

E as águas de março vão fechar o verão em grande estilo: a galeria Gomide & Co pretende abrir, no dia 31 de março, uma exposição de Marcel Broodthaers, poeta, cineasta e artista conceitual belga que trabalhava com o colagens e objetos criados a partir de textos e materiais cotidianos que estavam à mão – pense em cascas de ovos e mexilhões, mas também móveis, roupas, ferramentas de jardinagem, utensílios domésticos e reproduções de obras de arte.  Broodthaers  também produziu peças que reformularam a própria noção de arte e museu. Um de seus trabalhos mais notáveis é a instalação  Musée d’Art Moderne, Départment des Aigles, de 1968: diferentes representações de águias em caixas de vidro que eram acompanhadas por sinais que afirmavam “Esta não é uma obra da arte”. Sua ideia era sugerir que  os museus obscurecem o funcionamento ideológico das imagens impondo classificações ilegítimas de valor. Para ver com atenção e refletir. 

Bosco Sodi
Bosco Sodi, na Luciana Brito

ABRIL 

No mês oficial da SP ARTE, a cidade vai ferver! Luciana Brito abre o mês mais uma vez com o pé na porta: ela vai mostrar, a partir do dia 2 de abril, obras inéditas de Bosco Sodi e Leandro Erlich, que abre, no dia 13, uma individual no CCBB de São Paulo composta por 17 obras de grande escala, incluindo a já icônica Swimming pool. Erlich costuma deslocar objetos e ambientes cotidianos para criar uma alteração na nossa percepção e compreensão do mundo. Na instalação da piscina, desta forma, o público pode se encontrar “debaixo” d ‘água sem se molhar. Na série Clouds, o artista reproduz nuvens dentro do ambiente fechado da exposição para subverter a expectativa do público, possibilitando a compreensão de um fenômeno natural que geralmente está distante.

Leandro Erlich
Leandro Erlich, no CCBB

Segundo uma programação que visa, de certa forma, rever a brasilidade que os modernos tanto buscaram, a Pinacoteca e o Masp inauguram duas exposições emblemáticas em abril. A exposição Luiz Zerbini: a mesma história nunca é a mesma, no Masp, começa com uma pintura do artista realizada em 2014 chamada A primeira missa. Nesta obra, Zerbini questiona o imaginário produzido pela célebre pintura homônima do acadêmico Victor Meirelles, reinventando a imagem e a própria narrativa do contato entre invasores e indígenas no processo colonial brasileiro. O objetivo da exposição é estender esse procedimento a outras batalhas, ciclos e desencontros da história do Brasil em pinturas de grande dimensão comissionadas especialmente para a ocasião. Será mostrada também uma série de monotipias realizadas pelo artista a partir de Macunaíma, romance do escritor modernista Mário de Andrade. O texto questiona a fundação do Brasil na perspectiva do universo de um personagem indígena. Essa narrativa é traduzida por Zerbini a partir da apropriação da vegetação nativa marcada nos suportes em papel. Vale lembrar que, em 2017, o artista foi convidado pela editora Ubu para criar monotipias que viraram a capa e ilustrações internas de uma edição comemorativa de Macunaíma. 

A Primeira Missa , de 2014, de Luiz Zerbini
A Primeira Missa , de 2014, de Luiz Zerbini, no Masp
Ayrson Heráclito
Ayrson Heráclito na Pinacoteca
Rubem Valentim
Rubem Valentim, na Almeida e Dale

Num emblemático paralelo, teremos no mesmo mês uma retrospectiva de Ayrson Heráclito na Pinacoteca. Praticante do candomblé, o artista desenvolve, desde a década de 1980, uma pesquisa sobre elementos da cultura yorubá, como a mitologia dos orixás. Além disso, suas obras abordam o racismo e a violência praticada contra a população negra. Seu processo criativo resulta, portanto, de um território híbrido a partir das práticas do candomblé e a crítica social, com narrativas fincadas em simbologias e rituais. Vale destacar, ainda, que no dia 2 de abril a galeria Almeida e Dale vai abrir também uma retrospectiva do também baiano  Rubem Valentim, uma das maiores referências do construtivismo afro-brasileiro. Valentim também era baiano e sofreu influências das religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda. Mas ele buscou se expressar por meio da geometria simbólica, muitas vezes presentes em signos e emblemas destas religiões, jogando com cores e formas criativas, intensas e diversas.  Em tempo: Em junho, o artista também ganha uma exposição no Museu Nacional, em Brasília. 

André Griffo
André Griffo
Marina Simão
Marina Simão
Lynda Benglis
Lynda Benglis

Abril é também o mês dos jovens mostrarem novos trabalhos. A galeria Nara Roesler irá expor novas pinturas de André Griffo. Formado em arquitetura, Griffo cria instalações e pinturas que abordam tanto temas que envolvem a cultura e história do Brasil Colonial – questionando, por exemplo, a ideia de sincretismo – até fatos contemporâneos, como o impeachment de Dilma e a prisão do ex-presidente Lula.  Longe dos grandes discursos panfletários, o artista nos convida a dar atenção aos mínimos detalhes de suas imagens, na maioria de vezes arquitetônicas, que refletem as muitas violências que dão corpo às narrativas relativas às histórias do Brasil e suas ruínas. Já a Mendes Wood DM aposta nas novas pinturas de Marina Simão e no primeiro show de Lynda Benglis no país. Conhecida pelas pinturas de cera e esculturas de látex derramado, Benglis é o mais novo e um dos maiores nomes representados pela galeria. Para abrir os caminhos no Brasil, o trio de galeristas mostrará trabalhos históricos como Eat Meat e Three Graces. Icone feminista, ela eliminou o uso de canvas e atualizou o método de gotejamento de Jackson Pollock. Para o trabalho Fallen Painting, de 1968,  por exemplo, Benglis espalhou tinta no chão da galeria invocando “a depravação da mulher ‘caída'” ou, de uma perspectiva feminista, uma “vítima propensa do desejo masculino fálico”. Trabalhos como esse, orgânicos e de cores vivas, trabalham para interromper o movimento do minimalismo dominado na época pelos homens. 

Anna Maria Maiolino
Anna Maria Maiolino
Arthur Bispo do Rosário
Arthur Bispo do Rosário
Flavio de Carvalho
Flavio de Carvalho

MAIO 

Maio será marcado por três exposições que prometem marcar história. Anna Maria Maiolino vai ganhar uma retrospectiva no Instituto Tomie Ohtake com curadoria de Paulo Miyada. Intitulada Anna Maria Maiolino: vida-corpo, a mostra trará desde experimentos antigos até produções criadas ao longo dos últimos dois anos de pandemia, quando a artista ficou completamente isolada em seu ateliê.  O Itaú Cultural abrirá a primeira grande exposição do ano retomando o projeto Arte com respiro, cujo novo foco será “a produção artística e cultural e a saúde mental”. Depois de mais de dois anos de pandemia, muitos conheceram de perto a loucura do confinamento e como a arte pode ser um caminho para sobrevivência. O programa chega, portanto, em momento oportuno.  Para introduzir o assunto, o centro cultural convidou Ricardo Resende, diretor curador do Museu Bispo do Rosário, para idealizar uma retrospectiva sobre o trabalho de Arthur Bispo do Rosário. Considerado gênio por alguns e louco por outros,  o artista Bispo do Rosário insere-se no centro do debate sobre o pensamento eugênico, o preconceito e os limites entre a insanidade e a arte no Brasil. Para fechar o mês com chave de ouro, Kiki Mazzucchelli assina a curadoria de uma exposição dedicada aos trabalhos mais experimentais de Flávio de Carvalho no Sesc Pompéia. 

Incêndio no museu, de Thiago Rocha Pitta, em Histórias Brasileiras
Incêndio no museu, de Thiago Rocha Pitta, em Histórias Brasileiras

JUNHO  

Parte do programa do Sesc de debater e revisar o centenário da Semana de Arte Moderna, Margens de 22: Presenças Populares abre em junho no Sesc Carmo, sob curadoria de Joyce Berth, Alexandre Bispo e Tadeu Kaçula. A ideia é analisar porque a cultura popular  foi deixada de lado no evento paulista,  criticando também a desvalorização do popular dentro do sistema da arte contemporânea. “Como pessoas negras, nós três tínhamos muitas angústias em relação à Semana de 22. Por que as vozes que entraram para a história eram todas brancas? Não queremos desvalorizar a influência e relevância desses personagens: eles até traziam a lembrança do negro e do índio, mas não davam voz a essas pessoas”, explica Berth que pretende remontar, só com artistas contemporâneos, o que seria hoje uma Semana de Arte Moderna. 

Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz se unem mais uma vez para tentar dissecar, por meio da arte, os entraves  da História do Brasil. Em junho assinam a curadoria de Histórias brasileiras, no MASP. Por ocasião do bicentenário da independência, a mostra pretende apresentar uma versão mais inclusiva, diversa e plural das histórias do país, incluindo trabalhos de incluindo trabalhos de diferentes mídias, suportes, tipologias, origens, regiões e períodos, do século 16 ao 21. A perspectiva privilegiada não é tanto a da história da arte, mas a das histórias sociais ou políticas, íntimas ou privadas, dos costumes e do cotidiano, a partir da cultura visual. Considerando que estas “histórias” podem ser factuais ou fictícias, a mostra será organizada em sete núcleos e tratará de temas como mapas e bandeiras, paisagens e trópicos, rebeliões e revoltas, religiões, festas, terra e território e retratos.

Gargalheira ou quem falará por nós?, de Sidney Amaral
Gargalheira ou quem falará por nós?, de Sidney Amaral

O mês termina com uma retrospectiva do artista Sidney Amaral na galeria Almeida e Dale.  Apesar da morte precoce, Sidney deixou sua marca numa geração de jovens artistas afro-brasileiros contemporâneos que trouxeram ao público e à crítica especializada uma produção potente e de qualidade formal que denunciava as mazelas sociais de um país desigual e racista. Destaca-se pelo modo sofisticado em que arquiteta a poética de temas muitas vezes duros demais, porém costurados pela delicadeza dos afetos, pois, na maioria dos trabalhos, reflexões raciais e sociais se misturam com angústias existenciais do próprio artista.

Dalton Paula. Zeferina,. 2018
Zeferina,. de 2018, de Dalton Paula

JULHO 

Dalton Paula terá um ano agitado. Além do lançamento de algumas publicações, o artista estará atarefado com a produção de uma individual no Mas´ e a criação de uma instalação na Pinacoteca. Dalton Paula: retratos brasileiros, prevista abrir em julho no Masp, contará com trabalhos inéditos comissionados pelo museu. 

Dalton destaca-se pelo trânsito entre pintura, instalação, fotografia, vídeo e objeto, e baseia-se em uma pesquisa que busca interpretar criticamente acontecimentos históricos e a trajetória da população negra no Brasil. As pinturas que o artista vem realizando desde 2018 apresentam homens e mulheres negras que lutaram por liberdade e justiça ao longo dos séculos, personalidades históricas que tiveram suas imagens apagadas ou subrepresentadas na história brasileira. Com elas, o artista confere dignidade, visibilidade e reconhecimento a essas personagens, processo que é expandido com a presença destas obras em coleções e com a exposição em si. No segundo semestre ele inaugura um site specific no Octógono da Pinacoteca de São Paulo. O mote da obra será, mais uma vez, a história brasileira, as raízes da violência racial e a migração forçada dos africanos durante o período da escravidão. 

 Joseca Yanomami
Joseca Yanomami

Outra artista que deve brilhar no Masp a partir de julho, é a Joseca Yanomami – artista integrante da comunidade Watoriki, da Terra Indígena Yanomami no rio Uxi, em Roraima. Seus desenhos representam elementos e histórias da vida, do cotidiano, do contexto e da cosmologia Yanomami. Abordam também os conflitos surgidos após o contato dos indígenas com não-indígenas, que se iniciaram com a colonização e se intensificaram ainda mais durante o período da ditadura militar e que perduram ainda hoje — conflitos em torno da terra, da degradação da paisagem e dos rios.

Last but not least: o MAM São Paulo abrirá o 37º Panorama da Arte Brasileira também em busca de uma reflexão sobre o bicentenário do que se convencionou chamar de independência do Brasil. Proclamada em 1822 pelo filho do D. João VI, o príncipe regente D Pedro I, a independência foi seguida pela coroação do príncipe como imperador do Brasil. Mais tarde, os portugueses receberam uma indenização pelo ato. Daí a pergunta, até que ponto o Brasil se tornou realmente independente? Apesar de já ter abordado o tema ano passado com a exposição Moderno quando? Moderno onde?, o museu pretende retomar, também, o centenário da Semana de Arte Moderna de 22. 

Avessa à noção moderna de progresso, a curadoria irá enfatizar as ruínas e as barbaridades de um país que ainda não se constituiu como civilização. Num mundo pós-pandemia, em que a crise é mundial e também profundamente local/nacional, interessa investigar como os artistas enraizados no Brasil têm enfrentado os múltiplos problemas causados pelo modelo de desenvolvimento adotado nos últimos séculos. A partir de uma teia curatorial ambiciosa e de uma seleção de artistas de diversas gerações, a mostra deve desconstruir certos olhares e paradigmas naturalizados, assim como o legado colonial do Brasil, e prospectar rupturas

AGOSTO 

Lina Bo Bardi
Lina Bo Bardi
Max Bill
Max Bill

Mais uma vez o Sesc deve chamar a nossa atenção. Em agosto duas exposições trazem mais pontos de vista a respeito do movimento moderno brasileiro. Desvairar 22, curada por Marta Mestre, Verônica Stigger e Eduardo Sterzi,  abre em agosto no Sesc Pinheiros. A exposição buscará narrativas ficcionais para revelar a existência de uma espécie de inconsciente moderno. Ao mostrar, por exemplo, o fascínio que D. Pedro II tinha pelo Egito e revelar uma curiosa semelhança do projeto de Brasília com um desenho egipcio de um pássaro, os curadores pretendem mostrar como a ideia de futuro sempre teve o passado com referência, um lugar para pensar o próprio futuro. Nesse sentido, eles trazem o sonho como uma forma de sobrepor temporalidades, questionando o que é de fato “moderno”. Trazem nomes como Abdias Nascimento e Joãosinho 30 como símbolos de uma fabulação moderna para ´desvairar´ o movimento.  Fazendo referência à Paulicéia Desvairada, coleção de poemas de Mário de Andrade, publicada em 1922, o trio de curadores ressalta que não pretende negar a importância do grupo paulista e do evento, mas mostrar outros e mais amplos caminhos para a definição de modernismo brasileiro. No mesmo mês, Lisette Lagnado apresenta a mostra Ecos da Semana de 22 no modernismo de Lina Bo, no Sesc Pompéia. Apaixonados por essa história não podem deixar de visitar, ainda, a individual de Max Bill na Casa Zalszupin. Para quem não sabe, o artista suiço participou da 1ª Bienal de São Paulo, em 1951, e muitos estudiosos defendem que o contato com sua obra foi transformador para os artistas brasileiros. Nascia ali percepções e reflexões que culminaram no movimento concreto brasileiro. 

Edward Hopper
Edward Hopper, na Pinacoteca

Como vimos no nosso podcast, o movimento moderno nasceu e se transformou de diferentes formas em todo o mundo – especialmente nas Américas. Este mês teremos a oportunidade de discutir como esse conceito se desenvolveu nos EUA: a Pinacoteca abre a coletiva Pelas ruas: vida moderna e diversidade na arte dos Estados Unidos, com cerca de 100 obras que articulam questões sociais, de classe e econômicas presentes na vida urbana nos Estados Unidos entre 1893 e 1976. Dentre as obras, estão trabalhos de Georgia O’keeffe, Edward Hopper e Andy Warhol.

Daniel Senise
Daniel Senise
Héctor Zamora, na Luciana Brito Galeria
Héctor Zamora, na Luciana Brito Galeria

O mês será marcado ainda por novas obras do carioca Daniel Senise na galeria Nara Roesler e  do mexicano Héctor Zamora na Luciana Brito Galeria. Senise destaca o equilíbrio e peso do espaço, em pinturas que retratam a presença e a ausência de objetos cotidianos. Fortemente conectado à percepção, o artista incorpora, com frequência, texturas do solo, pó de ferro, objetos de chumbo e tecido. Também interessado na arquitetura, mas sob um olhar completamente diferente, Zamora ficou conhecido por gerar pontos de tensão entre o real e o imaginário; entre o público e o privado; entre presente e passado. 

ABC da cana, de Jonathas de Andrade
ABC da cana, de Jonathas de Andrade

SETEMBRO 

Escolhido para representar o Brasil na Bienal de Veneza, Jonathas de Andrade ganhará uma retrospectiva na Pinacoteca com curadoria de Ana Maria Maia. Artista múltiplo com trabalhos em fotografia, filme, instalação, em que permeiam o imaginário da região nordeste, onde nasceu e atualmente vive, Jonathas instiga práticas decoloniais e críticas sociais e políticas. Em paralelo, o Instituto Moreira Salles abre Modernidades fora de foco, onde a curadora Heloisa Espada pretende questionar o motivo pelo qual a fotografia e o cinema não participaram efetivamente da Semana de 22. A ideia da exposição é buscar e apresentar imagens feitas por amadores e profissionais naquele período em cinco capitais brasileiras que passavam por um o acelerado processo de urbanização – Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Belém, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre –para tentar compreender como a cultura da imagem nasceu e se desenvolveu no Brasil. 

Modernidades fora de foco
Modernidades fora de foco, no Instituto Moreira Salles

OUTUBRO 

2022 é brasilidade na veia. Parece essencial e necessária, portanto, uma exposição dedicada ao Xingu, também IMS, que se propõe a confrontar a identidade brasileira a partir da história e da memória das culturas indígenas . A mostra celebra os 60 anos de criação do Parque Nacional do Xingu e pretende trazer a memória de seus povos e culturas. No mesmo mês,  Lenora de Barros também ganha retrospectiva na Pinacoteca. Reunindo produções realizadas em diferentes mídias como vídeo, performance, fotografia e instalação, a exposição irá destacar as questões de gênero trabalhadas ao longo da carreira da artista.  

Tomie Ohtake
Tomie Ohtake
Judith Lauand
Judith Lauand

NOVEMBRO

Ao longo do ano alguns bailarinos da cidade irão fazer ensaios na casa-ateliê de Tomie Ohtake e o resultado poderá ser visto no Instituto Tomie Ohtake na mostra Tomie Dançante.  Os curadores Paulo Miyada e Pryscila Gomes irão selecionar pinturas e  esculturas que têm como vetor o movimento e serão mostradas acompanhadas de apresentações de dança. 

No mesmo mês poderemos ver, no Masp, os  “quadros de lã” de  Madalena dos Santos Reinbolt: cenas de ambientes rurais, com variada e idílica representação da vida cotidiana no campo, com atenção especial à cultura afro-brasileira. A artista também expressou sociabilidades que mesclam o sagrado e o profano, seja em torno de refeições coletivas ou de uma pequena igreja. Por muito tempo categorizada como “artista popular”, Madalena foi vítima de perspectivas hegemônicas e viciadas que deverão ser revisadas pelos curadores Amanda Carneiro e André Mesquita. Os curadores pretendem refutar, ainda, a ideia do bordado e a produção feminina ser limitada às temáticas que envolvem o lar ou a família. Paralelamente, o museu abre uma individual de Judith Lauand. A artista, que  completa 100 anos no dia 26 de maio de 1922, é um nome essencial para a arte concreta no Brasil, e a única mulher a ter participado do Grupo Ruptura, coletivo de artistas pioneiro do concretismo e que reunia nomes como Waldemar Cordeiro, Luiz Sacilotto, Geraldo de Barros, Lotar Charoux e Anatol Wladyslaw.A produção de Lauand atravessa oito décadas. Ela começou a produzir, de maneira autodidata, no início dos anos 1940. Transferiu-se para a capital do estado, onde estudou gravura com Lívio Abramo, atuou no setor educativo da 2a Bienal Internacional de São Paulo, em 1954, quando entrou em contato com a arte concreta – estilo que adotaria em seguida. O fechamento do mês ficará por conta do Itaú Cultural que também deve mostrar sua perspectiva sobre o centenário da Semana de Arte Moderna

Cinthia Marcelle
O conversador, 2005, Cinthia Marcelle

DEZEMBRO

A partir de uma observação atenta do cotidiano, Cinthia Marcelle investiga a maneira como as coisas são ordenadas no mundo – seus regimes de visibilidade e invisibilidade – e as estruturas que sustentam todo um sistema de organização. O Masp reunirá suas fotografias, vídeos, desenhos, instalações para revelar ao público as possibilidades de deslocamentos e operações que desestabilizam momentaneamente a ordem das coisas,  revelando estruturas de poder, formas de conhecimento e novas percepções de mundos. Uma forma interessante de terminar esse intenso ano!

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