Como Editora-chefe do Arte Que Acontece, tive a distinta chance de entrevistar Anna Bella Geiger por duas vezes: uma, para falar sobre sua história e carreira, e outra, na ocasião da grande retrospectiva que abriu no MASP no último dia 28/11, e simultaneamente no Sesc Avenida Paulista, no dia 30/11. Em ambos os encontros, a artista teve uma fala generosa, aberta e precisa, sem restrições de pauta ou tema. Sempre bem humorada, contou anedotas sobre sua carreira, os desafios enfrentados como artista mulher – mãe, esposa, dona de casa, filha – e os impasses do sistema da arte do qual faz parte, com mais ou menos inserção, há mais de 60 anos.

Anna Bella é uma mulher corajosa, apesar de se dizer medrosa. Me surpreendi quando ela casualmente se identificou assim: “Para dar aula eu sou muito afetiva, mas eu sou muito… não é tímida não, eu sou medrosa”. Contestei apontando sua valentia perante ao machismo do circuito artístico, às adversidades de ser artista durante a ditadura e com uma família para criar, ao que ela calmamente respondeu: “Eu sei disso. Mas isso deve ser uma reação de sair do meu lugar pra poder enfrentar (…) eu tive uma vida que não há momentos pra você pestanejar, você tem que ir”. 

E Anna Bella foi. Foi aluna de Fayga Ostrower ainda adolescente, foi estudar línguas na faculdade de filosofia, foi mostrar seus desenhos na I Exposição Nacional de Arte Abstrata, foi viver em Nova York em meados dos anos 1950, foi boicotar a Bienal de São Paulo durante o regime militar, foi morar com a família e o marido em Nova York e dar aula na Universidade de Columbia, foi ser uma das mais importantes artistas do país, ainda que sem receber o devido amplo reconhecimento por muitas décadas. Agora, Geiger recebe finalmente, em São Paulo, uma grande retrospectiva de seu trabalho. Leia abaixo os melhores trechos dessas duas entrevistas, organizados a partir dos temas que marcaram as nossas conversas.

 

Julia Lima: Você sempre fala muito da importância da Fayga [Ostrower] na sua formação. Qual o papel dos professores que você teve e como você vê o seu próprio papel como professora?

Anna Bella Geiger: Nesse começo dos meus estudos, com a Fayga, eu comecei muito cedo, tinha 14 anos. Mas eu logo comecei a compreender o caráter político que a Fayga dava ao que significava arte naquele momento. Havia uma ligação muito grande dela com o socialismo e com as idéias da figuração ligada a temas do socialismo, então eu tomei conhecimento disso e, claro, levei muito a sério. Logo fomos pra favela, onde ela desenhava muito e eu também comecei a desenhar aqueles moradores de lá, principalmente mulheres com crianças – geralmente, muitas eram lavadeiras. A gente sentava em algum lugar e ficava desenhando, tentando compreender a figura humana, não era o nu artístico de ordem acadêmica

JL: Não eram os desenhos de observação do modelo vivo, né?)

ABG: Não, não era o sketch, não era nada disso. Aquilo já determinou uma atitude política em relação ao significado da arte e ao significado de uma arte figurativa reacionária, o que seria o academicismo. O Di Cavalcanti, ao ver esse movimento do abstracionismo crescer, passou a realmente escrever artigos contra isso, mas não tem a ver. Essa experiência já tornava totalmente impossível eu entrar em uma academia, uma escola de belas artes, por exemplo, para me formar, me tornar professora.

JL: Isso nunca te ocorreu? De frequentar a escola de Belas Artes?

ABG: Absolutamente. Exatamente porque se, aos 14 eu começo a entrar em contato com essas idéias da Fayga, bem antes do vestibular, quando eu chego na idade [de prestar vestibular] em 1951, eu já estava quebrando a cabeça dizendo: “Eu vou estudar numa universidade”. Meus pais, claro, queriam que eu estudasse e estavam apreensivos com a idéia de me ver na profissão de artista, mal era uma profissão, mas era pro meu bem. Eu não brigava sobre isso mas eu discutia em casa, a ponto de ter que ir pra casa da Fayga sem informar a eles. Então isso já começou a criar em mim uma personalidade de entender coisas adultas e me definir também. Eu tinha de entrar numa universidade pública – não só pelo pagamento, mas também porque era a melhor unidade de ensino. Ali, naquele cenário, eu fui estudar línguas, e aquilo foi me absorvendo porque é um estudo imenso, e no meio disso já me deu uma crise de querer ir embora. Aí eu fui em 53 e voltei em 55. 

JL: E depois você foi de novo em 69?

ABG: Mas aí eu já estava com a família, eu fui acompanhar meu marido que foi dar aulas, e aí eu fiz uma exposição lá e tal.

ABG: Hoje eu dou aula na Antuérpia. Eu, pra dar aula, sou muito afetiva sim, mas eu sou muito… não é tímida não, eu sou medrosa.

JL: Medrosa? Você acha que você é medrosa? Eu acho que você é tão corajosa!

ABG: Mas isso deve ser a reação de sair do meu lugar para poder enfrentar. Falando sério mesmo. E depois tive uma vida que não há momentos pra você pestanejar, você tem que ir, né. Eu tenho filhos, marido, tive que fazer renúncias, muitas renúncias. Eu queria exatamente que nunca os momentos de renunciar e de abrir mão fossem causa para brigar, eu não ia culpar nem o Pedro nem meus filhos, né, então eu nunca culpei.

JL: Mas eu acho que é porque são escolhas que artistas mulheres tem que fazer mais do que artistas homens…

ABG: Sim. Eu tinha que ajudar a sustentar a família, então houve miséria de verdade ai eu falei: bom, é isso. Num certo momento minha mãe me ajudou muito, é, a gente tem sorte na vida.

JL: A gente tem visto essa pauta das artistas mulheres surgindo cada vez mais, com mostrar como “Radical Women” ou mesmo “Histórias das Mulheres”. Ao mesmo tempo, existe um problema que a gente ainda está tendo que fazer recorte temático de feminino, feminismo, mulheres, para dar lugar. O que você acha de demorar tanto para ter essa retrospectiva, que é algo que já poderia ter acontecido há 20 atrás?

ABG: Talvez. Talvez pudesse, sei lá, não vou dizer quantos anos atrás, não que eu aspirasse alguma coisa, nem em São Paulo nem no Rio. É claro que no Rio foi feito uma primeira retrospectiva minha no MAM, mas foi porque apareceu uma patrocinadora incrível, acho que uma companhia telefônica, e aí queriam financiar uma mostra de uma mulher.

JL: Mas veio do patrocinador?

ABG: Veio do patrocinador. Eu acho que ali foi o primeiro grande catálogo, em 95. Mas se for pensar, de uma maneira maluca, eu já atuo dentro das artes desde os anos 1950. Eu participei da primeira exposição de arte abstrata no Brasil, em 1953.

JL: No Quitandinha?

ABG: Isso, no Hotel Quitandinha, em Petrópolis. É uma primeira exposição mesmo. 

JL: Você participou com gravura?

ABG: Com desenhos, em materiais diversos. Eu me lembro que um dos desenhos era com cera e nanquim, aquela experimentalidade, de 1952. A exposição foi em fevereiro, no carnaval. Eu apresentei três trabalhos feitos em 52.

JL: De 1953 até 1995 [data da retrospectiva do MAM], são quarenta e dois anos.

ABG: Então. Exposições sobre o meu desenho eu nunca fiz antes, não havia oportunidade, quando uma galeria boa queria fazer de gravuras, já estava muito bom. Eu não botava o desenho junto, mas não é porque estivesse achando que o desenho era menos. 

JL: Seus trabalhos da década de 60, essas gravuras de 65, 66, 67, são trabalhos de uma sofisticação plena, que operam num ponto de inflexão da figuração para abstração, de volta pra figuração. Como foram essas mudanças?

ABG: Não chega a ser de volta porque a figuração surge, ela não é um retorno no sentido de que abri mão da abstração, mas o esgotamento do abstracionismo se deu porque havia na minha cabeça o enunciado daquele momento político desde 64. Mas não era aquilo que fazia modificar o trabalho de uma artista, a não ser que eu fizesse uma obra de protesto naquele momento. O que eu fiz em 69 foi abdicar da minha participação na Bienal, junto com o boicote de outros artistas. 

JL: Para além do boicote, sua inserção no circuito era ainda limitada né?

ABG: Eu fui perdendo espaço. Eu cheguei a mostrar abstrações, já eram coisas viscerais, mas fui perdendo o espaço. O Mário Pedrosa viu essas gravuras e começou a insistir com uma galeria do Rio, a Relevo, de apresentar meu trabalho. Era na mesma galeria que tinha a nova figuração, mas tinham muitas questões de machismo. O dono da galeria era uma besta que ficava me convidando a noite pra ir pra boate, eu já estava casada com o Pedro e muito bem com ele. Eu mesmo dizia pra mim: “continua no teu trabalho”. Não tem que ficar mostrando o trabalho pra ninguém, porque tinha esse assédio. Sempre houve artistas homossexuais ou críticos homossexuais, mas quando entrou o Roberto Pontual e começou a escrever num jornal do Rio, começou a melhorar a minha situação, porque eram uns caras que não estavam interessados em mulheres, mas antes era difícil. As pessoas assediavam mesmo. Até fisicamente. Eu cheguei a pensar: se eu entrar nessa coisa, vai ser uma espécie de prostituição, vão me levar a uma espécie de prostituição que eu não vou poder aguentar comigo. 

JL: Era uma questão de conseguir viver com você mesma.

ABG: Quando começaram a surgir esses outros críticos, como o Francisco Bittencourt, o Pontual, foi mais do que um alívio, foi uma libertação que eu tive. Nessa época, então, a questão era só a ditadura, no meu trabalho tinha o machismo de artistas, críticos – quase nenhum conversava comigo, à medida que eu comecei a ser bastante rival do Antônio Dias, e ele tinha muito mais poder. A todo momento eu tive que me recolher e essa é uma história paralela que não é a miséria de passar fome, mas é a história da miséria do reconhecimento. O Frederico [Morais] tinha uma coluna no Globo muito interessante, eu trabalhava com ele nos cursos do MAM, conversávamos, ele ficava na brincadeira, mas durante dez anos ou mais ele escreveu essa coluna e nunca escreveu meu nome. Era castigo mesmo, punição, e eu vou reclamar pra quem? Pro guarda? Era uma coisa muito séria.

JL: Pra acabar, você acha que hoje a arte pode apontar respostas e caminhos para essas crises profundas que a gente está passando, por esse ponto de colapso que a gente está vivendo? 

ABG: É difícil essa pergunta, vou pedir pra Ana responder (risos). Já é o que é, já está acontecendo e não é brincadeira! Esse tal objeto da arte vai ser sempre inventado enquanto o homem existe, a necessidade dele de ver ou de mostrar como ele está vendo o mundo, ou numa escala menor, como ele está vendo domesticamente. As exigências que tinham na época do abstracionismo eram exigências para um obra ser uma obra que não existe mais por parte do que que é o criador. E ao mesmo tempo é muito democrático, todo mundo pode fazer, todo mundo pode alcançar um lugar, um espaço na arte. O julgamento disso ainda existe porque existe por que se sabe que tem coisas que não são arte e que estão pretendias. Mas ainda tem isso, volto a dizer, a questão do efêmero, do desmaterializado, da natureza desse objeto vai contestar o espaço, o espaço vai ser ou inimigo ou protetor desse tal objeto. A gente não prevê.

JL: Mas as funções mudam.

ABG: As funções mudam, a natureza do objeto muda, o significado. Claro que as pessoas mudam de acordo com situações sociais, políticas, econômicas, religiosas.  Mas medo e liberdade, se você for ver o que se ganhou num certo momento naquele socialismo ideal, conseguiram fazer daquilo uma verdade num certo momento, mas não dura porque os seres humanos são ótimos e são uma merda, todos eles. Freud veio e disse: Eu conserto a sua cabeça, pra você ser mais humano, mas não é isso. A psicanálise não é pra consertar a cabeça, é pra colocar a pessoa mais com ela mesma. Então a situação do momento ela é realmente periclitante e aí ficam rugindo, ameaçando com atomizações… A gente lê essas coisas rindo e ao mesmo pensando: “vai acabar o mundo”. Que catástrofes que podem acontecer? Vão acontecer. Em toda época houve catástrofe, né.

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