AQA indica: 10 obras que você precisa ver na Bienal do VideoBrasil

 

#JÁBASTA, de No Martins

Uma das mostras mais relevantes da arte contemporanea brasileira, a 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc Videobrasil destaca, sob o título Comunidades Imaginárias, questões de identidade e raça apresentando um substancial número de obras produzidas por indígenas, além de trabalhos de todo o mundo que merecem sua atenção. Está perdida? Então vai ver a exposição com a nossa lista dos must see nas mãos.

The Skin of Labour, de Adrian Balseca

1.Adrian Balseca, Equador

Mostra The Skin of Labour, filme com o registro de imagens de um seringal na Amazônia equatoriana. No entanto, substitui os vasos coletores de látex por luvas, usando a forma da mão como um símbolo das relações históricas de exploração na região. Tomando como fio condutor a extração da borracha, que remete aos primórdios da colonização europeia, o trabalho sublinha a lacuna abissal entre certo imaginário coletivo, que relaciona a Amazônia à ideia de natureza idílica, e a prática sistemática de conquista desse território para fins de dominação política e econômica. Adrian já tem um trabalho reconhecido por partir de problemáticas aparentemente pontuais para questionar alianças entre técnica, ciência, economia e política, e os processos de dominação envolvidos na origem das nações de toda a América.

2. Aykan Safoğlu, Istambul

Ao se identificar com o escritor americano James Baldwin, que viveu em Istambul entre os anos 1960 e 1970, Aykan Safoğlu faz uma compilação de imagens para simular uma conversa imaginária com o escritor: assumindo a identidade de negros e gays, ambos exploram as dimensões políticas do racismo e da tolerância, enquanto ícones populares turcos e americanos da época para a conversa são apresentados. Uma espécie de autobiografia narrada em terceira pessoa que aponta, ao mesmo tempo, para questões cada vez mais urgentes.

Do Figurativismo ao Abstracionismo, de Clara Ianni

3. Clara Ianni, Brasil

Ao buscar reflexões sobre as contradições do processo de modernização brasileiro, Clara Ianni apresenta o filme Do Figurativismo ao Abstracionismo, composto por imagens de obras que foram exibidas na exposição inaugural do Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1949, e frases extraídas das cartas ao MAM-SP com relatórios de espionagem sobre a América Latina. A ideia é questionar o papel do abstracionismo durante a Guerra Fria como veículo de disputa política e ideológica, apontando para a modernização como um mecanismo de conservação de relações de subordinação e dependência.

“I went away and forgot you. A while ago I remembered. I remembered I’d forgotten you. I was dreaming”, de Dana Awartani

4. Dana Awartani , Arábia Saudita

A video-instalação I went away and forgot you. A while ago I remembered. I remembered I’d forgotten you. I was dreaming é composta por um piso geométrico de areia colorida com pigmentos naturais e um filme no qual a artista aparece no interior de uma casa de arquitetura Hejazi – estilo comum na cidade de Jeddah, Arábia Saudita, antes de sua ocidentalização a partir dos anos 1950 –, onde varre meticulosamente um piso-instalação similar até sua completa desaparição. Além de celebrar e preservar a arte geométrica do Islã, a artista cria uma relação radical entre tempo e contemplação estética, efemeridade e eternidade, numa potente confluência entre a mística islâmica e as questões da arte contemporânea ocidental.

Chromatics Movement I e Movement II, de Emo de Medeiros

5. Emo de Medeiros, França

Com o objetivo de questionar noções de identidade, tradição e pertencimento no mundo
globalizado, Emo de Medeiros cria esculturas, vídeos, fotografias, performances, músicas, arte têxtil, instalações performativas e pinturas que unem materiais artesanais tradicionais, tecnologia e novas mídias – sempre considerando a construção e circulação de mitos e mercadorias. Para a Bienal, criou Chromatics Movement I e Movement II: oitenta mil parágrafos possíveis foram criados a partir de uma combinação aleatória de 200 substantivos mais comuns em inglês no mundo virtual somadas às palavras “preto”e “branco”. Ao analisar os resultados, o espectador se depara com a racialização subjacentes às lógicas automáticas dos mecanismos do algoritmos. O “jogo” proposto pelo artista evidencia, assim, uma espécie apartheidssubconscientes no universo digital por meio da naturalização de uma linguagem bastante problemática.

HIDIRTINA / SISTERS, de Ezra Wube

6. Ezra Wube, Etiópia

Ezra Wube criou uma belíssima animação em stop motion, a partir de pinturas e colagens, cujo enredo nasceu de um projeto do artista de coletar e compartilhar os sonhos e os saberes do povo Habesha. O artista interpretou uma história dessa herança cultural a partir de conversas com imigrantes da região que hoje vivem em Nova York: Sete irmãs imortais convivem harmoniosamente com os animais na floresta. É raro que humanos as vejam, principalmente agora, com a urbanização crescente. Um dia, duas delas aparecem no caminho de um caçador. Quando ele mira um veado que pasta, uma delas adverte: abater o animal trará grande maldição. O caçador ignora o aviso – e atira. A outra irmã, apaixonada pelo homem, tenta salvá-lo da desgraça indicando uma árvore protetora. O caçador produz um amuleto a partir dela, carregando consigo um galho, e assim vive muitos anos. Um dia, o amuleto cai no rio e é levado pela correnteza. Antes que possa se defender, urubus descem dos céus, destroçam e devoram o caçador.

Laboratorio de invención social (o posibles formas de construcción colectiva), de Gabriela Golder

7. Gabriela Golder, Argentina

Na videoinstalação Laboratorio de invención social (o posibles formas de construcción colectiva), a artista argentina retrata uma atual realidade do trabalho em seu país. Vivendo e sobrevivendo às constantes crises econômicas, as fábricas locais quebram e são tomadas (legalmente) pelos funcionários que as recuperam por meio de um sistema de autogestão.
Dois vídeos trazem relatos desses trabalhadores a respeito do que os levou a modificar suas condições de trabalho, enquanto uma terceira tela revela rostos, espaços e atividades nas fábricas ocupadas.

E’Ville, de Nelson Makengo

8. Nelson Makengo, República do Congo

Ao visitar as ruínas de um complexo esportivo desativado, Nelson Makengo se depara com restos que remetem ao passado recente da luta pela independência do Congo. Para o filme E’Ville, o artista registra este cenário de desolação e soma às imagens uma narração que lê uma carta escrita por Patrice Lumumba à sua esposa Pauline. Principal figura da resistência contra as excepcionalmente cruéis forças coloniais belgas que dominavam o Congo, Lumumba foi deposto, perseguido e assassinado por opositores apoiados pelos Estados Unidos e pela Bélgica.

Domingo, de Paulo Mendel e Vitor Grunvald

9. Paulo Mendel & Vitor Grunvald, Brasil

O Projeto Família Stronger é um trabalho de investigação documental de narrativa transmídia sobre o coletivo Stronger que, tal como outras famílias LGBTs, constrói formas de parentesco alternativas quando vistas a partir de concepções hegemônicas de família fundamentalmente marcadas pela ideia de consanguinidade. No lugar do sangue como símbolo que estrutura as relações, esses grupos formam comunidades imaginadas e coalizões que são, ao mesmo tempo, afetivas e políticas. Mendel e Grunvald dedicaram dois anos às filmagens do cotidiano do Stronger, na periferia de São Paulo, e o resultado da edição de um único dia de filmagem pode ser vistas nas duas telas que expõe Domingo. As imagens da reunião de família, em forma de almoço, são “cruzadas” com imagens insurgentes de uma manifestação de rua que marcou o conturbado cenário político contemporâneo no Brasil, na semana da deposição da presidente Dilma Rousseff em 2016.

OUSADIA, MAJESTADE!, de Tomaz Klotzel

10. Tomaz Klotzel, Brasil

Tomaz visita e registra locais onde ocorreram crimes por disputa de terra no estado do Pará. Às fotografias somam-se registros dos depoimentos de testemunhas para as investigações policiais, conversas gravadas com parentes e o áudio do julgamento do mandante de um assassinato. A mistura e justaposição de registros traça uma cartografia vazia de presenças das vítimas, mas cheia de ecos afetivos, criminais e jurídicos.

21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil | Comunidades Imaginadas
Visitação: Até 2 de Fevereiro
Sesc 24 de Maio: Rua 24 de Maio, 109, Centro, São Paulo (Metrô República)