Lygia Pape: potência e versatilidade

por Julia Lima

Tempo de leitura estimado: 3 minutos

Depois de passagens bem-sucedidas por Nova York, Londres e Madri nos últimos anos, a cidade de Milão recebeu em 2019 uma grande exposição de uma das mais importantes artistas brasileiras. A Fondazione Carriero, que recentemente realizou mostras de Sol LeWitt e Giulio Paolini, teve todos os andares ocupados por trabalhos que percorreram toda a prolífica carreira de Lygia Pape, incluindo o “Livro do Tempo” e uma versão da icônica “Ttetéia” – cujas delicadas linhas douradas formando cubos esticados contrastavam com a decoração barroca da sala do palazzo que ocupava.

Lygia Pape, Ttéia 1 C, 2000, ph: Julia Lima

Agora Pape será finalmente mais uma vez objeto de uma exposição no Brasil, a ser realizada no Itaú Cultural, em São Paulo. A instituição vem há muitos anos promovendo significativas mostras dedicadas a nomes centrais e essenciais da arte brasileira, com destaque à monografia sobre Lygia Clark realizada em 2012.

A artista nasceu no Rio de Janeiro, em 1927, e começou a produzir no início da década de 1950, tendo se associado ao grupo de artistas ligados à arte concreta no Rio de Janeiro – que, liderados por Ivan Serpa, reuniam-se, estudavam e ativavam os espaços do MAM. Pape chegou, inclusive, a participar da I Exposição Nacional de Arte Abstrata, no Hotel Quitandinha, em Petrópolis, apresentando algumas gravuras geométrias ao lado de nomes como Abraham Palatnik, Antonio Bandeira, Fayga Ostrower, Lygia Clark e Aluísio Carvão, entre muitos outros.

Balé Neoconcreto I

Mas, foi no final da década de 1950 que seu trabalho mudou radicalmente de direção, com a co-assinatura ao Manifesto Neoconcreto (que postulava uma mudança de abordagem na relação entre objeto e espectador) e com a criação do “Balé Neoconcreto I”, idealizado junto de Reinaldo Jardim. A peça não contava com bailarinos visíveis ao público, mas sim com grandes caixas coloridas cilíndricas e retangulares que abrigavam os corpos dançantes e que se moviam pelo espaço de um lado para outro e de frente para trás, entrando e saindo dos focos de luz da boca do palco.

Este trabalho operou uma transformação na maneira de Pape encarar o papel da obra dentro da relação que se estabelece entre artistas, trabalhos e públicos, aplicando os conceitos postulados pelo neoconcretismo da desmaterialização da obra de arte e da construção de sentidos aberta e coletiva. A partir daquele momento, Lygia Pape passou a experimentar variados suportes para além da gravura e da pintura, incluindo performances e vídeos em seu repertório. Ainda em 1959, realizou o “Livro da Criação”, composto por 118 unidades de papel em várias formas e cores que podiam ser manuseadas pelo leitor, acentuando a participação do público em seu trabalho, e depois o “Livro do Tempo” e o “Livro da Arquitetura”, além do “Livro da Luz” e o “Livro dos Caminhos”.

Por quase 40 anos a artista construiu um corpo de trabalhos incomparável, engajando-se politicamente no combate à ditadura militar no país e produzindo alguns trabalhos combativos e de denúncia da violência estatal, contra a censura e pela liberdade.

Entre as obras criadas durante o auge do regime militar, i.e. entre 1968 e 1975, Pape nos deus algumas das mais contundentes imagens a habitar a iconografia da arte brasileira, com destaque para o “Divisor” – um grande tecido cheio de aberturas por onde as pessoas podiam colocar a cabeça e tentar se locomover coletivamente, aceitando o fluxo ou resistindo à direção escolhida pelo restante do grupo. A primeira vez que a obra foi ativada, em 1968, mais de 100 pessoas vestiram o Divisor no jardim do MAM-RJ, entre as quais diversas crianças da Favela da Cabeça.

Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support