Quando perguntada por seu filho Indigo em 1978, em um vídeo gravado em um casarão em Winterthur, na Alemanha, sobre o porquê de fazer esculturas que consistiam em retirar a imagem de lugares usando látex em suas paredes, Heidi Bucher respondeu que ela não fazia isso com um “porque”, se existisse um motivo, então teria que existir uma finalidade para aquilo. Não havia, ela insistia. Ela dizia que fazia porque tinha que fazer. E repetiu, com mais ênfase: “Eu tenho que fazer isso”.

Heidi moldou sua perspectiva artística em um poder criativo e muito poético. Isso foi desenvolvido mais especificamente pelo seu grande interesse em não separar a arte da vida. Ela trabalhou essas idéias através da representação de espaços interiores, na esfera privada e doméstica, trazendo à tona a realidade de forma sensível para removê-la da verdadeira realidade. A transformação tem um papel crucial na obra de Bucher, especialmente nos que realiza um ato simbólico de arrancar a pele de espaços, como se forçasse uma metamorfose. É o que acontece nos trabalhos da artista que fazem parte de uma série de “skinnings”.


“Ablösen der Haut I”, 1979

As obras de Heidi nas quais foram trabalhadas os tecidos e látex em paredes de edifícios antigos são as mais conhecidas desta artista suíça, que morreu aos 67 anos de idade, em 1993. Essas ações foram realizadas por ela em lugares que foram importantes durante sua vida, como o seu estúdio em Zurique e a casa de seus antepassados em Winterthur. Edifícios históricos como a clínica psiquiátrica Bellevue e o Grande Albergo Brissago também foram espaços nos quais ela atuou. Isso consistia em cobrir toda a extensão de uma parede específica ou de um cômodo inteiro com tecido e passar látex por cima. Assim, quando seco, era retirado formando um corpo só.

“Floor from the Ahnenhaus”, 1980.

A pele que arrancada, porém, não é descartada, mas permanece como memória, uma lembrança do que aquilo foi um dia. Retirar a pele seria uma metáfora para se desvincular do passado, tendo uma possibilidade de começar de novamente, atualizando história de uma “maneira autodeterminada”. São questões que são totalmente destrinchadas pelo filósofo Paul Ricoeur (1913-2005) em seu livro Memória, história, esquecimento, no qual ele diz sobre o esquecimento: “(…) de um lado, o esquecimento nos amedronta. Não estamos condenados a esquecer tudo? De outro, saudamos como uma pequena felicidade o retorno de um fragmento do passado arrancado, como se diz, ao esquecimento”.

Essas peças chamadas de “skinrooms” eram depois exibidas penduradas, o que remete uma ideia que carrega o conceito da psicologia de “memória suspensa”, sobre como nossas lembranças podem construir aquilo que somos. Essas suspensões das obras de Heidi aconteceram tanto nos próprios lugares onde foram feitos os trabalhos, possibilitando imagens em fotografia e vídeo muito potentes, quanto nas exibições desses trabalhos em galerias e instituições.

A artista também trabalhou, anteriormente, com desenhos a lápis e colagens. Havia também um interesse muito grande de Heidi pela atividade performática. O ato de realização das obras “skinnings” devem ser considerados também sob uma perspectiva da perfomance. Assim, a obra acontece tanto naquele momento da feitura quanto no depois, com a matéria.

Outra série de obras conhecidas de Bucher são as Bodyshells, esculturas de espuma branca que podiam ser vestidas, feitas em colaboração com seu marido, Carl Bucher. Em 1972, a artista realizou uma bonita performance com pessoas utilizando-as enquanto caminhavam por uma praia em Venice, na Califórnia, enquanto tinha uma mostra individual no LACMA.

A artista teria a sua primeira exposição individual no Brasil abertura no início de abril, na galeria Mendes Wood DM, em São Paulo. Enquanto durarem as restrições de contato por conta da pandemia causada pelo coronavírus, a abertura da mostra será postergada para quando o isolamento social não mais for necessário. Portanto, a abertura de sua exposição está, por ora, suspensa.

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