Lançado este mês pela editora Estação Liberdade, o livro Arte Não Europeia: conexões historiográficas a partir do Brasil é mais do que um livro teórico, mas um documento necessário para se pensar em práticas. Isso porque ele reúne uma série de artigos escritos por pesquisadores que estudam narrativas da História da Arte que contrapõem a ideia hegemônica, branca e elitista que permeia esse campo.

Organizado por Claudia Valladão de Mattos Avolese e por Patricia Dalcanale Meneses, ambas professoras do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciencias Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), atuantes na esfera da História da Arte, ele é dividido em três partes, respectivamente: Arte ameríndia, arte japonesa, arte africana.

Na orelha do livro, a pesquisadora, historiadora da arte e curadora-chefe na Pinacoteca do Estado de São Paulo, Valéria Piccoli, comenta: “Seguramente se abrem, a partir desta publicação, importantes vias para novas pesquisas sobre tradições artísticas não europeias, contribuindo ainda para que possamos pensar o contexto brasileiro em suas interfaces com a cultura global”.

Além disso, o livro tem apoio do Instituto Getty, de Los Angeles, que fez uma parceria com a Unicamp para contemplar linhas de pesquisa que se debruçam sobre a arte não-europeia e outras formas de pensamento não hegemônicos acerca da História da Arte. Essa parceria levou oito professores visitantes especialistas para a universidade, que além de lecionarem, coorientaram alunos durante seis meses. O volume inclui seis textos desenvolvidos a partir dessa parceria.

É interessante observar que os temas tratados nos estudos têm suas particularidades, mas dialogam muito entre si ao mostrar, por exemplo, como existe uma semelhança entre as formas que a arte produzida por ou sobre civilizações pré-colombianas, grupos marginalizados do Brasil colônia, comunidades africanas e grupos tradicionais do Japão foram deixadas de lado, sendo ignoradas pelo cânone não só acadêmico, mas do circuito da arte em seu todo.

Na introdução, as organizadoras comentam sobre as questões que as levaram a considerar o desenvolvimento de todo esse processo que resulta no livro: “Dois movimentos principais geraram reflexões importantes para a disciplina em tempos recentes: por um lado, o interesse crescente em tradições artísticas diversas (africana, islâmica, japonesa, pré-colombiana, aborígene, etc.) e suas interações com as tradições europeias, e, por outro, a intensificação dos debates teórico-metodológicos relacionados ao campo de estudos e à prática da história da arte”.

Elas também defendem a importância de que os programas acadêmicos que estudam a arte abracem especialistas nessas áreas, dando o exemplo de Havard, que têm docentes especialistas em arte japonesa, chinesa, islâmica, africana, pré-colombiana e indígena, com o mesmo peso que especialistas de arte europeia e norte-americana. O que é muito coerente, tendo em vista que a quebra dessa permanência hegemônica da arte de raízes europeias depende também da difusão de outros pensamentos que foram suplantados, por preconceito, ao longo dos tempos.

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