Só se fala em crypto art e NFT art… Mas e agora? O que é isso?

Fugindo do vocabulário nerd, explicamos o que é essa arte digital de edição limitada e registrada criptograficamente com um token que não pode ser modificado ou copiado

Obra do artista Beeple, vendida na Christie’s.

“O capitalismo acabou de descobrir que tem uma sexta marcha, tudo sempre pode piorar”. Esta frase é do artista brasileiro Roberto Winter ao ser perguntado pelo ARTEQUEACONTECE sobre como anda vendo o crescimento do mercado de arte criptográfica. Formado em Física pela Universidade de São Paulo (USP), ele vive hoje em Berlim, onde tem acompanhado de forma bastante cética esse movimento.

Mas o que é essa tal de arte criptográfica, ou Crypto Art, que vem ganhando cada vez mais o mercado da arte, especialmente a partir do segundo semestre de 2020, e que está chegando às maiores casas de leilão do mundo? Ela é tudo de bom? Em alguns setores, esse boom foi muito bem visto e tem significado uma revolução para a arte digital. Em outros, causou uma incerteza muito grande sobre quanto tempo essa efusividade vai durar e uma preocupação sobre a alta especulação que isso irá gerar no mercado.

Na última semana, vimos a Christie’s, uma das maiores casas de leilões do mundo, anunciar que venderia uma Crypto Art pela primeira vez. A obra Everydays — The First 5000 Days, uma gigantesca colagem do artista digital recebe lances até o dia 11 de março. Quando esse texto foi escrito, a obra tinha lance de USD 3,250,000. Quem também colocou obras para leilão foi a cantora pop Grimes, que adora o ramo da arte audiovisual. A revista The Verge publicou que ela vendeu uma série de 10 obras de arte digitais e arrecadou arrecadou US$ 6 milhões.

Damien Hirst em seu estúdio com obras da série The Virtues, que produziu pensando em começar a receber em criptomoedas. FOTO: Reprodução/Instagram


Mas não pense que o interesse por essa área é coisa só de quem mexe essencialmente com o mundo digital. Apaixonado pelo mundo criptográfico, o artista britânico Damien Hirst, expoente do Young British Artists, está vendendo uma série de oito gravuras, intitulada The Virtues e aceitará pela primeira vez pagamento em criptomoedas, Bitcoin (BTC) e Ether (ETH). Isso levantou especulações de que ele não deve demorar tanto para anunciar obras suas em Crypto Art.

Mas o que é isso, pelo amor dos deuses?

De forma bem simples e direta, a Crypto Art é uma arte digital que é colecionável e tem edição limitada registrada criptograficamente com um token não-fungível por meio de um blockchain. Não foi nada simples, né? Vamos fugir da explicação nerd:

Isso quer dizer que uma arte digital agora poderá ter sua autenticidade provada. Sem esse advento, a arte feita em formato digital (em qualquer formato ou extensão – jpg, png, mov, mp4 e outros) tem alta reprodutibilidade, podendo ser repetida diversas vezes sem que se saiba se é arquivo original. Com o registro criptográfico da obra, que não pode ser modificado, há como provar sua originalidade, agregando valor ao trabalho. Assim, o comprador leva para casa (em um pendrive, um CD-Room, em uma nuvem ou outro dispositivo de armazenamento) um arquivo com autenticação!

Frame de obra feita pela cantora Grimes, que adora trabalhar com arte audiovisual!

E é aí que entra o tal do NFT, que tem sido tema recorrente de discussões nas redes sociais ao se tratar de arte criptográfica! No Clubhouse, a rede do momento, só se fala disso! Todo dia há uma sala de bate-papo para falar sobre “NFT Art”! O NFT nada mais é que o tipo de código de verificação (token) que é permanentemente vinculado à obra de arte. Ele é, portanto, um ativo único que representa a propriedade e autenticidade das artes digitais (como são os certificados e assinaturas dos artistas em pinturas, por exemplo), tornando possível negociá-las com segurança por meio de uma tecnologia que permite que o envio e o recebimento de dados sejam rastreados (blockchain). 

NFT é a sigla em inglês para token não-fungível e eles são os melhores para serem utilizados ao registrar a obra porque não podem ser recriados, modificados ou substituídos. Ou seja, eles são únicos. Existem diversos tipos de NFTs, mas dois dos maiores grupos de NFTS são os das artes digitais e das coleções digitais. Por isso, elas também podem ser chamadas, além de Crypto Art, de NFT Art.

Sendo uma arte que agora pode ter a autenticidade verificada, as obras digitais em Crypto Art se tornam economicamente valiosas e podem ser vendidas por milhões de dólares, coisa que antes não acontecia por não ser possível atestar a singularidade do arquivo que carrega a obra! Tradicionalmente, a Crypto Art estava relacionada à ascensão de criptomoedas como bitcoin e ethereum e tinha simbolismo em torno disso que estava vinculado sobretudo ao mundo das finanças, do lucro, do investimento. Agora, ela é mais livremente aceita como qualquer arte digital que foi tokenizada no blockchain para associar uma prova digital de propriedade.

O gif Nyan Cat, um meme criado por Chris Torres em 2011, foi vendido por $580,000.

Isso parece ser bom, é tudo de bom mesmo?

Agora que você sabe o que é e que não é um conceito-bicho-de-sete-cabeças, é importante registrar que esse mecanismo irá facilitar, por exemplo, as negociações de videoarte, que até hoje ainda é um grande tabu no mercado. Agora, o arquivo que o comprador leva para casa terá uma autenticação. Isso vale também para várias formas de Net Art! Até mesmo para… Memes!

Mas além dos prós, também existem os contras que valem ser considerados. Geoffrey Batchen, professor de história da arte da Universidade de Oxford, em entrevista à Bloomberg, questiona se há uma artificialidade no valor dos objetos digitais, mas se eles irão sobreviver à obsolescência dos meios que podem transmiti-los com o passar dos anos.

Outra questão que é bastante colocada quando se fala de Crypto/NFT Art é a especulação financeira, sendo vista apenas como investimento pelas pessoas, uma forma de ganhar dinheiro fácil e alimentar a mentalidade capitalista, o que retiraria o valor artístico da obra. Voltamos, então, à frase que abre este texto. Noah Davis, especialista da Christie’s que está à frente da venda da obra de Beeple, considerou o apontamento em entrevista à plataforma Hyperallergic: “(…) Há pessoas que estão olhando para isso como uma declaração radical de filosofia ou valores ou investimentos no conceito de um futuro onde a tecnologia blockchain e NFTs e criptomoeda se tornem a norma para transações no mercado financeiro”.

Desta forma, o espírito democrático que as artes digitais emanavam, podendo ser compradas a preços acessíveis, está com seus dias contados ou já se foi de vez. Afinal, um simples código agora pode transformar uma obra que custava 600 reais em uma obra de 60 mil reais. No fim, tudo se resume a ter algo único e exclusivo, como a forma de obra de arte mais tradicional do mundo: a pintura.