Brooklyn Museum reabre com significativa exposição sobre o trabalho de Lorraine O’Grady

A artista explora a construção cultural da identidade – particularmente a da subjetividade feminina negra – moldada pela experiência da diáspora e do hibridismo

Lorraine O’Grady
Lorraine O’Grady

“Parece que tenho minhas melhores ideias políticas quando procuro soluções estéticas”, revelou, certa vez, a artista e ativista Lorraine O’Grady. Por quase meio século, O’Grady produziu um profundo corpo de arte e escrita que avalia e contesta as lógicas de anti-negritude, colonialidade e extração que sustentam as instituições culturais.Parece um feito histórico e um dever incontestável, então, ver sua exposição Lorraine O’Grady: Both/And, apresentada no Brooklyn Museum até o dia 18 de julho de 2021.

Art Is…, de Lorraine O’Grady
Art Is…, de Lorraine O’Grady
Art Is…, de Lorraine O’Grady
Art Is…, de Lorraine O’Grady

Trata-se da primeira retrospectiva de uma das figuras contemporâneas mais significativas que trabalham na arte performática, conceitual e feminista. A exposição apresenta doze dos principais projetos, produzidos por O’Grady ao longo de sua carreira de quatro décadas, além de uma nova instalação, que destacam o longo envolvimento da artista com omissões históricas da arte – “o revisionismo radical de O’Grady das décadas de 1980 e 1990 antecipou temas que foram adotados por uma geração mais jovem de artistas e pensadores, inspirando-os a resistir e remodelar um mundo estruturado pela diferença e desigualdade”, aponta o texto oficial do museu.

Mlle Bourgeoise Noire, de Lorraine O’Grady
Mlle Bourgeoise Noire, de Lorraine O’Grady

A artista aborda sua própria experiência como uma pessoa marcada pelo hibridismo racial – suas histórias de família conectam Caribe, África, Europa e Estados Unidos – para explorar legados de interconexão cultural e influências recíprocas, lançando luz sobre as formas como a negritude sempre existiu no coração do modernismo ocidental.

Ela chegou ao mundo das artes plásticas quando tinha quarenta e poucos anos, depois de uma carreira como funcionária pública, tradutora e crítica de música.” Por ser uma mulher negra de 45 anos, ela não era tão suscetível à manipulação, ao carreirismo e a outras armadilhas que os artistas mais jovens encontravam”, ressalta Christina Sharpe para o Art in America.”Ela entendeu imediatamente os tipos de porta de entrada da supremacia branca que atende pelo nome de “qualidade”. Esse conhecimento é parte do que sustenta sua práxis radical”, completa. Uma de suas primeiras e mais famosas obras é Mlle Bourgeoise Noire, de 1980, uma série de performances nas quais ela adotou a personalidade de uma rainha da beleza da Guiana Francesa.A plumagem das luvas brancas simbolizava a psicologia reprimida da classe média negra. O chicote representava a história da violência externa que a condicionou. O’Grady chegou na exposição “Nine White Personae”, na Just Above Midtown Gallery, em Nova York, encarnando essa personagem, distribuindo flores. De repente, começou a se debater com o chicote, declamando um poema de Léon-Gontran Damas que terminava com a frase: “A arte negra deve assumir mais riscos!”. Na segunda aparição, numa exposição só de artistas brancos no New Museum, ela gritou ““É hora de uma invasão!

Art Is…, de Lorraine O’Grady
Art Is…, de Lorraine O’Grady

Art Is…, foi uma intervenção durante uma parada no Harlem, em 1983: O’Grady apareceu com um carro alegórico não autorizado – um caminhão com uma gigantesca moldura de ouro. Artistas que ela havia recrutado pularam no meio da multidão carregando pequenas molduras, convidando as pessoas a posar e a se ver como arte.

Miscegenated Family Album, de Lorraine O’Grady
Miscegenated Family Album, de Lorraine O’Grady
Miscegenated Family Album, de Lorraine O’Grady
Miscegenated Family Album, de Lorraine O’Grady

Outro trabalho que vale ressaltar é Miscegenated Family Album, de 1994, uma série de dípticos em que O’Grady emparelha fotografias de sua irmã Devonia Evangeline com Nefertiti, conectando assim narrativas pessoais com eventos e personagens históricos e políticos, em relação ao que ela chama de “forças históricas de deslocamento e hibridização. Esta série, exemplifica a importância do díptico no vocabulário formal e conceitual de O’Grady: a estrutura comparativa é, para ela, uma forma de nomear e recusar a lógica binária dos modos de pensamento euro-ocidental.

Lorraine O’Grady: Both/And

Data: Até 18 de Julho

Onde: Brooklyn Museum

Endereço: 200 Eastern Pkwy, Brooklyn