Editado pela Phaidon, “Great Women Artists” funciona quase como uma enciclopédia – são 400 obras de arte de 400 artistas mulheres que vem produzindo nos últimos 500 anos! A publicação é lindíssima, de grande dimensão e com imagens de alta qualidade. O livro vem em um momento de crescente preocupação com o espaço ocupado pelas mulheres no sistema da arte, seja no mercado primário, nos leilões, ou na esfera institucional. O contexto de mostras em museus e galerias que tem como foco a produção feminina, queer e de corpos dissidentes fortalece as pesquisas sobre o assunto e fomentam o investimento neste tipo de edição.

Almejando ser o livro mais abrangente e mais completo sobre a produção feminina já escrito, “Great Women Artists” às vezes peca pelas ausências que falam muito alto: primeiro, a palavra de língua inglesa women, que significa “mulheres”, aparece riscada, com uma tira rosa por cima. Significaria isso um posicionamento sutil, um desejo de não tratar do papel do gênero nesse estudo? Chamar de “Grandes artistas” não seria suficiente? O título faz referência ao ensaio de Linda Nochlin, que perguntou em 1976 “Por que não existiram grandes artistas mulheres?”. Os editores da Phaidon talvez tenham esquecido de que o texto de Nochlin se pauta em uma forte crítica a essa pergunta, já que ela toma a premissa de que “grandes artistas mulheres” não existiram mesmo, ao invés de perguntar, por exemplo, “onde estão as artistas mulheres?” ou “Por que não conhecemos as grandes artistas mulheres?”. Esse livro, de certo modo, nos responde: aqui estão muitas delas, podemos conhecê-las agora!

O prefácio da publicação alerta não ser esta uma pesquisa sobre feminismo, quando na verdade os esforços acadêmicos de reinserir mulheres apagadas da história da arte vem inteiramente de esforços feministas. Por fim, a extensão do livro é contrabalanceada pela superficialidade dos textos – cada entrada tem poucas linhas, e o foco se dirige às imagens (impecavelmente reproduzidas) e aos nomes. Por outro lado, a escolha de uma ordem alfabética tira qualquer ideia de hierarquia geográfica, histórica, política ou mercadológica entre essas mulheres, e permite aproximar produções que, de outro modo, não seriam apresentadas lado a lado, como Sofonisba Anguissola e Mamma Andersson.

Independentemente dessas questões, é inegável a contribuição que um livro como esse traz para o mercado editorial e para o campo da história da arte, registrando oficialmente essas 400 mulheres como elementos que vão ser lembrados e não apagados, tornados perenes e não descartáveis. A cada conquista sempre há os “poréns”, mas não podemos deixar de celebrar cada passo dado, cada barreira derrubada e cada avanço tomado. Agora, artistas do passado e mesmo do presente que foram e são negligenciadas e intencionalmente excluídas, vem sendo cada vez mais resgatadas e valorizadas, reconhecidas por suas contribuições estéticas, políticas e poéticas. O volume do livro poderia ser seguido de muitos outros – é um trabalho interminável esse de escavar a história e também o presente para garantir que não se percam mulheres, mulheres trans, pessoas queer, corpos dissidentes e não binários e tantas outras diversidades que sistematicamente são barradas e eliminadas das narrativas oficiais. Que bom que estamos dando os primeiros passos nessa direção. 

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