Marina Abramović lança ópera para curar amarguras de amor

A peça 7 Deaths of Maria Callas conta com figurino de Riccardo Tisci e atuação de Willem Dafoe

7 Deaths of Maria Callas

Conhecida como a “avó da performance” Marina Abramović não consegue ficar muito tempo longe do spotlight. Em tempos cujos assuntos que rodeiam a nova história da arte giram em torno de temas ligados a dramas vividos em sociedade, a artista sérvia fez um trabalho sobre seu coração dilacerado… com todos os melodramas possíveis! Inclusive, sete mortes por amor. A ópera 7 Deaths of Maria Callas, que vai estrear amanhã, homenageia a soprano grega conhecida pelos seu intensos casos amorosos.  Devido à pandemia do coronavírus, a ópera foi forçada a reduzir sua capacidade de 2.300 lugares para apenas 500 para apresentações ao vivo. Para compensar a limitação de espectadores, haverá também uma versão online no site da opera house.

Abramović diz que se identifica com a profundidade emocional de Callas. “A primeira vez que ouvi Maria Callas no rádio, eu tinha 14 anos”, lembra a artista em entrevista para o Calvert Journal. “Não sei o que estava fazendo, mas estava na cozinha com minha avó e me lembro que congelei. Literalmente, o tempo parou, nada se moveu. Coloquei o rádio no máximo e aquela voz preencheu o espaço … havia eletricidade no ar. ” A  voz devastadoramente bela de Callas a assombra até hoje. 

Marina Abramović em 7 Deaths of Maria Callas

Além de ser reconhecida pela voz estonteante, Maria Callas é famosa por encarnar a própria figura da diva e pelo seu chamado comportamento temperamental acompanhados de escândalos românticos durante sua pública vida privada. O destino de amor com o magnata da navegação grego Aristóteles Onassis (que destruiu seu casamento e, segundo especulações, continuou a dominar seu coração mesmo quando Onassis se casou com a viúva de John F. Kennedy, Jackie Kennedy) foi uma das grandes fontes de tristeza de Callas.

A história de Abramović parece igualmente trágica. Responsável pelo questionamento da objetificação do corpo feminino no campo das artes plásticas,  Abramović sabe o que é sofrer por amor: seu relacionamento com Ulay acabou em 1984 com uma performance na muralha da China e com uma reviravolta abala qualquer mulher (e da qual aparentemente ela nunca se recuperou). Depois de três meses caminhando sobre a muralha ( cada um separadamente) o casal se encontrou no ponto combinado para o último abraço. Neste dramático final, o ex e também artista anunciou que já ia ser pai e se casaria em dezembro daquele ano. Com quem era o affair?  Ding Xiao Song foi a tradutora chinesa contratada  justamente para ajudá-lo nos trâmites para conseguir autorização para realizar a performance de separação! Ulay e Marina nunca mais se viram até, justamente, uma apresentação teatral onde ela expurgava sua dor amorosa e, muitos anos depois, na performance The artist is present.  “Nos últimos três anos em que estivemos juntos, escondi, mesmo de nossos amigos mais próximos, o fato de que nosso relacionamento havia se desfeito. Eu não suportava a ideia desse fracasso”, conta a artista ao The Guardian. “Eu tinha desistido de trabalhar por conta própria por um ideal que eu pensava ser mais elevado: fazer arte juntos e criar esse terceiro elemento que chamamos de “eu” – uma energia não envenenada pelo ego. Eu não suportava a ideia de que não funcionou”.

7 Deaths of Maria Callas

Sobre sua identificação com Callas, Abramović confessa ao Dazed: “Tive uma experiência muito semelhante de um coração partido ao dela. Ela morreu, mas eu não morri, e meu trabalho realmente me salvou depois disso. Sempre quis resolver esse problema, e morrer de amor é algo que está sempre lá. (…) Todos nós temos pelo menos uma experiência de amar tanto que queremos morrer.” E continua: “Quando você faz algo sobre seu coração partido e passa por essas emoções pesadas, você sai do outro lado curado. A cura é muito importante para mim.”

7 Deaths of Maria Callas

Com base em uma ideia que ela teve há mais de 30 anos, a ópera de Abramović é composta por sete óperas que Maria Callas canta, nas quais a cantora morre no final. Em La traviata, morre de tuberculose;  em Othello, de estrangulamento; em Tosca, salta para a morte; em Carmen, é esfaqueada; em Norma, é queimada viva; em Lucia di Lammermoor, morre de loucura; e, por fim, Madame Butterfly. Tudo com  direção de Nikolaus Bachler e com um filme que conta com a atuação de Willem Dafoe. Na peça é dividida em sete atos e Abramović conclui o show encenando a morte real de Callas, que morreu sozinha de um ataque cardíaco em 1977, em seu apartamento em Paris, onde passou seus últimos anos vivendo no exílio e isolamento. Os figurinos são assinados por Riccardo Tisci, diretor criativo da Burberry, mas não é a primeira parceria entre os dois: em 2013 o estilista desenhou as roupas da ópera criada por Abramović e o coreógrafo belga-marroquino  Sidi Larbi Cherkaoui ao som de Boléro, composta por Maurice Ravel.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *